Crónica, Ficção

Desaparecido

Quem és tu?

Olha para mim, que vergonha. Feita maluquinha, a falar contigo. Nem sequer sei se estás acordado. Paulo, Paulo…

O teu médico disse-me uma coisa engraçada. Bem, engraçada é uma força de expressão, porque não tem piada nenhuma. Para que é que estou a tirar um cigarro, se não posso fumar aqui? Não percebo isto, se há gente que merece a merda de um cigarro… mas não vou fumar, isto é um hospital.

A coisa engraçadíssima que o médico me disse foi que tens os ouvidos intactos, apesar de tudo o resto estar no estado em que está. Ouvidos intactos: o oposto de sempre, portanto. É tão triste termos de chegar a isto para me dares alguma atenção. Não foi o estupor do médico que se casou comigo, foste tu, era de esperar que me ouvisses sem ser preciso ter-te nesse estado. Olha para mim. Ia pedir-te desculpa por estar a chorar. Ridícula, ridícula, ridícula.

O que é que te deu? Francamente, Paulo, o que te passou pela cabeça? Levaste a Ritinha à minha mãe e nunca mais te vi. Isso faz-se a quem quer que seja?

Passaram-se tempos e tempos, corri a agenda toda à tua procura. Eu, que nunca uso aquela merda! Até liguei ao teu pai. Havias de o ouvir, a culpa parecia minha.

A Júlia obrigou-me a ir para casa dela quando me apanhou à porta do nosso apartamento, de pijama, sem conseguir dormir. Quando entrámos para pegar em roupa ela irrompeu em lágrimas, porque tal era a confusão de folhas e documentos teus, que não se via o chão. Gostava que percebesses o meu desespero. Tantas vezes te imaginei a esvair em sangue num beco, numa autoestrada, ou na merda de uma nacional, e eu sem poder fazer absolutamente nada quanto a isso.

Custa-me, sabes? Custa-me ver o teu corpo desfigurado. Ossos em cacos. Os restos de uma cara. Cego, desdentado. Parte de mim sofre por ti, a outra ri-se.

Ridícula, ridícula! Pobre Ritinha. Nunca pensavas nela? Eu pensava.

No meio daquela cena deprimente a Ritinha disse-me que a última vez que te viu, cheiravas como o tio Joca. Como o tio Joca? Cismei com aquilo. Perguntei-me se seria a tabaco, uma vez que nunca fumaste.

Vou fumar eu, foda-se. Estou para ver o que me podem dizer. Expulsam-me? Era um favor que me faziam…

Um mês depois de nos teres deixado, tocou o telefone. Nunca nos ligam para o telefone, só podia ser o teu pai. Nunca o ouvi naquele estado, sinceramente, o que não veio ajudar em nada. Disse-me para virmos até aqui, ao Pedro Hispano, que era onde te tinham trazido… e que sobreviveste a um acidente. Um acidente? Um mês depois?

Apanhei o teu pai e voámos até aqui, num silêncio horrível. O porquê de terem ligado ao teu pai e não a mim ultrapassou-me completamente, como podes esperar. Há mil e uma coisas que nos passam pela cabeça numa situação destas, e por incrível que pareça, nunca fazemos as perguntas certas.

Quando cheguei aos cuidados intensivos, disse quem era. A sujeita da secretaria ficou muito surpreendida. Não procurava antes outro Paulo? Insisti que não, que eu era a mulher do tantos de tal, nascido assim e assado. O olhar estúpido da rapariguinha estava-me a dar uma vontade de mandar tudo pelo ar, e ela deve ter percebido isso. Disse que ia chamar o doutor tal tal, e que pedia desculpa, porque tinha percebido mal, e que provavelmente tinham confundido as informações que recolheram do local.

Perguntei-lhe o que raio tinham confundido.

E ela disse-me, que tanto quanto sabiam, e todos os documentos indicavam, a mulher do Paulo era a sujeita da cama do lado.

Aquela que me escondeste durante anos e anos…

Não vou pedir-te desculpa por estar a chorar. Vou-te mandar à merda por me obrigares a fazê-lo. Agora não sei para que lado me virar quanto a ti. Dou por mim a desejar que o acidente tivesse dado conta do recado. Mas também queria que nunca o tivesses tido…  para eu continuar à procura do Paulo que nunca perdi.

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Ficção

São Pedro

No calor intenso daquela cozinha, Júlio respirava com dificuldade. Mais por capricho do patrão que por outra coisa, calhava-lhe sempre a preparação das batatas, o empratamento, e a fritadeira. Naquela agitadíssima noite da Póvoa de Varzim, as horas de um turno parecem infinitas. Nem todas as noites são o São Pedro, mas todas as outras juntas cansam igual. Com o barrete encharcado de suor, procurava estar acima dos gritos, do chocar doloroso das louças, do calor do óleo que manuseava para fritar batatas – e do pouquíssimo tempo que dormira na véspera.

Era o costume. Discutira até tarde com o pai e com a companheira, ambos enfrascados. Em desespero, bateu-lhes a porta e enviesou pelas ruas, queimando tabaco nervosamente. Entrou no café, mas não ficou lá muito tempo. Os seus costumeiros, vendo-o a sair em tão evidente sofrimento, tentaram ajudá-lo, mas ele deixou claro com uma resposta torta que preferia prosseguir sozinho. Mesmo após deitar-se, sob os lençóis e de olhos fechados, vociferava pelas ruas mal iluminadas daquele bairro, com o coração aos saltos, e um avassalador medo a apertar-lhe a garganta.

Lutava contra os dias, que, queimados como cigarros, em partes iguais desnecessários e imprescindíveis, lhe acumulavam alcatrão na alma. A farda lavava-se e passava-se, a barba fazia-se, mas o sol perdia a cor, e o ar não satisfazia o peito. Os turnos tinham o condão de alongar a noite, e cada vez os amigos pareciam mais longe.

A solidão feria-o. Nos quelhos por onde se arrastava, ouvia o som distante dos ensaios da rusga, na escola primária da Giesteira. Com olhos mortos de cansaço, ouvia os risos e o marchar. Finalizavam-se preparativos para as festas onde levariam o branco e azul claro do Bairro de Belém às ruas dos outros bairros. Bendita rusga, na qual não podia ir este ano. Fosse esse o seu mal maior!

Rondava a meia-noite no dia 28 de junho naquela cozinha. Os pés pareciam caminhar sobre vidro. Não poucas vezes olhou para a saída de emergência, sonhador, mas logo notava o seu patrão a controlá-lo. A cozinheira via nele um bom ajudante de cozinha, mas o patrão tratava-o como uma bomba-relógio, e, infelizmente, tinha o seu quê de razão. Júlio era tão difícil como a sua vida, e os outros faziam disso o que queriam.

Perante o fervilhar oleoso da milésima porção de batatas, sentiu a vibração do seu telemóvel. Não vendo o patrão perto, abriu a mensagem. Era do seu pai. Uma missiva curta, concisa e certamente bebida.

“Sai de casa.”

Trespassado, ficou algum tempo a procurar fazer sentido daquelas três cruéis palavras. O calor multiplicou-se, sufocando-o. Olhou em volta, sem associar significado a objetos ou pessoas. “Sai de casa.” “Sai de casa.” Quando voltou ao óleo, e dele retirou uma porção queimada, voou sobre outras planícies do pensamento, sentindo uma tão forte vontade de beber, de fugir, de recair no antigamente… foi o suficiente para, numa distração, se queimar.

Num espasmo, foi contra o ajudante de copa, que perdeu o equilíbrio dos pratos e os perdeu de encontro ao chão. Saltaram cacos de porcelana, e ecoaram gritos no alumínio; o stress levava a melhor a todos. Chegado o patrão, e percebido de quem era o acidente, este não perdeu a oportunidade para insultar Júlio, começando pela mãe. Comparava-o ao pai bêbado. Um inútil! Acusava-o de ter vindo bêbado trabalhar, e amaldiçoava a oportunidade que lhe tinha dado, um sem emenda, um delinquente.

Júlio pulsava. Pulsava. Pulsava! As marteladas no coração trucidavam-lhe a lucidez. Via tudo em tons de raiva… e a meio caminho do seu patrão, a ferver pacientemente, o óleo. Toda a cozinha congelou quando o viu caminhar de encontro ao patrão. O braço direito estendia-se para a rede das batatas queimadas. Era mesmo isso! O abusador sairia desfigurado num gesto apenas, uma infame fração de segundo. Longíssimo de ponderar consequências, estava a um só passo do patrão.

Até que, lá fora, por entre o chinfrim da Rua de António Graça, do povo ensardinhado por entre braseiros e mesas de cozinha com broa, vinho e minis, ouviu uma banda e uma canção. Alguém gritava. “É Belém! É Belém, vêm do Norte!”

Num silêncio tumular, a cozinha esperava-lhe a reação. O patrão olhava-o ainda desafiante. Júlio baixou a mão que arruinaria uma cara e duas vidas. Atirou o barrete para o chão, tirou o avental e deu um passo para a porta de emergência. Outro. E mais outro, já desenfreando uma correria. Desembocou na rua, indo ter com aos pares de Belém, através da criançada, da banda, dos pares adultos, do coro. Todos estavam cansados: eles por carregarem em braços os arcos iluminados do Belém, elas com os pés em suplício por usarem as chinelas da tricana… e Júlio gritou com toda a sua força, com toda a sua vida, com tudo de si.

“Vamos lá caralho! Vamos lá Belém! Somos os maiores! Viva Belém! Viva Belém!”

Naquele momento, todos perderam as dores. O sorriso das lindas tricaninhas, “mulheres do povo com pose de rainha”, regressou em pleno. Risos! Saiu a canção mais forte. Voltaram as forças e o orgulho, e a rusga branca e azul clarinha prosseguiu pelas ruas da Póvoa, para uma viagem que ainda desfilaria pelo branco e vermelho da Matriz, o verde e branco do Sul, cruzando-se com as rusgas do Norte, da Mariadeira e do Regufe, com centenas de almas a cantar na noite, antes de todas irem para suas respectivas fogueiras, com vinho, caldo verde, bifanas, sardinhas e amor.

Porém, Júlio não os acompanhou. Caminhou penitentemente até à casa que não o queria – atravessando quilómetros de música e festa, e foi-se deixar-se abater em casa, diante da porta aberta, esperando pelo regresso inevitável do pai e da companheira. As lágrimas desciam-lhe pelo corpo, prostrado perante tudo e todos, certo e sabido de que nunca conseguiria a guarda do irmão mais novo. Passou-se o tempo. Sem nono ano, sem família, amigos, sem rusga… só com um intenso cheiro a fritos e a certeza de ter perdido ainda mais um emprego, e de que, afinal de contas, o destino está mesmo traçado.

Mas eis que se liga uma luz. Ergueu os olhos, embriagado de sentimentos, e as lágrimas turvaram-lhe uma visão azul e branca. Limpou-as com o antebraço. Uma visão de chinelas, saia, meias, avental azul claro brilhante, revestido de brilho. Lenço transparente ao pescoço; puxo de rede no cabelo, e broche ao peito, de uma flor azulada reluzente. Sem maquilhagem: apenas uma face morena, majestosa, tão, tão elegante, de uma belíssima tricana poveira do seu bairro, que lhe ergueu a mão, sorrindo imensamente…

“Estamos à tua espera”, disse.

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Crónica, Ficção

Abismo

Há, a respeito deles, palavras de doutores escritas em processos urgentes. São termos importantes, em jeito de alerta, mas que apesar da sua importância e pressa, e da ajuda icomensurável que trazem, não passam por este portão de chapa nua. Muito menos nas manhãs frágeis de agora, onde a remendada casa se inunda de uma palidez nebulosa. As cortinas filtram luz e cor, deixando repousar um resquício de vida sobre as superfícies.

O silêncio em suspensão não era menos que uma respiração gasta – uma tosse farta aliada a uma dolorosa espera. A frágil criatura do sexo masculino molhava os lençóis com um suor frio a ele desapercebido. Caleidoscópicas febres, dores lancinantes… as costelas colavam-se à pele do desgraçado com uma hóstia de músculo a entremear.

A mulher magra, já com o dia avançado, olhava-o do outro lado do escanzelado leito. Oxalá aquelas tossidelas não lhes acordassem o filho, hoje dispensado da escola por causa da terapia da fala. Que dormisse mais umas horas, pairando um pouco mais no imaginário de quem afugenta gatos e se equilibra em bueiros do quintal.

Um urro de dor. Outro! Num sobressalto acorda o dono da casa, numa culpa viva e alucinada. Acalma a respiração, dando por si por entre os trapos. Já raramente tinha sonhos, ou até pesadelos – o que é uma pena, porque até o pior dos pesadelos constitui um sonho.

“Tens fome?”, sussurrou ela, indo ter com ele, tocando-lhe na cara, tentando dar-lhe pelo brilho fraco dos olhos. Ele responde-lhe do escuro com um Não rasgado. “Mas tens de comer…”

“Dá ao moço.” Dá ao moço? Já o tinha feito, com a parte que a ela cabia. A ausência de apetite do seu homem trazia-lhe uma friúra inquietante. Esquelético, não retinha nada do pouco que comia. Amontoavam-se os maus presságios que ela procurava menosprezar, soltando da mente mil frases a eito.

“Hoje vou às estufas. Em antes deixo o moço na terapia. Ao vir pego, passo pelo talho e trago-vos um pouquechinho de carne.”

“Quanto?”

“Vinte e cinco eiros.”

O homem não lhe captou o orgulho na voz. “A minha mãe não te dá mais?”

Ela soltou um suspiro. “Ainda hoje de manhãzinha me deu vinte cêntimos para pães.” Detestava pedir, e mais que isso, à sogra.

“E o Nico depois, como é?”

“A tua mãe vai buscá-lo ao doutor”. Pobre rapaz. Mais umas horas de sono trariam palavras menos torpes àquela cabecinha oca. O mesmo para mais umas horas de pai, aquele doente que para ali caía. Mal conviviam, não fossem os esforços dela, esforçando uma fronte lutadora, entrecortando as mágoas com os sorrisos, para desanuviarem… e aquele piquenique que fizeram no Anjo? Era quem visse a pele do companheiro. Que suplício, que fantasma de gente!

Suplicou-lhe, uma última vez, para que comesse qualquer coisa. Já por duas vezes perdera todas as composturas quando os apoios não apareciam. Sem eles… nem queria pensar. Tudo lhe caía em cima, e o pesado fardo ameaçava partir-lhe os ossos. Supõe-se que ela nunca arranje trabalho algum, ansiosa, inconstante, uma autêntica guerreira pela família. Trovejando tosse, o homem colidiu contra o silêncio.

“Vai-te embora! Deixa-me.”

Vai-te embora. Deixa-me. Tivesse tido ele a sua sorte, de recuperar da maldição das agulhas, substituindo os demónios com metadona no centro de apoio. Tantos anos tão forte pedreiro, a quem não faltavam sorrisos e biscates, vê-se agora um naco de carne podre, a um passo daquele abismo onde se sobe. Não se foi embora. Não o deixou.

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