Leitura Desnecessária

08/12/14 — Leave a comment

Trabalhei durante muitos anos na Google a destruir informação. Passava os dias dentro de uma jaula especial a reformar os discos rígidos defeituosos de um gigantesco servidor. Sempre apreciei a arte da destruição. Com recurso a processos sofisticadíssimos, garantia que nenhum registo binário sobrevivia para contar a história – digital, magnética e fisicamente falando.

Gosto de destruir discos maus, porque são desnecessários, mas o que me dá maior tesão é acabar com informação declarada desnecessária. Todos os dias atravessava três sistemas de segurança apertada só para poder trabalhar, e não me importava, porque não eram sistemas redundantes ou desnecessários. Coisas desnecessárias ou redundantes irritam-me profundamente. Não admira que teras e teras e teras declarados lixo e postos de parte me dêem uma ponta descomunal.

Por falar em ponta: quando acabei com a minha definitiva namorada senti um prazer intenso a fazê-lo. Ela chorou muito, apesar de chorar ser redundante. Ela não era de todo redundante, mas podia classificá-la como desnecessária a partir do momento em que deixei de achar piada àquele corpo. Vai daí, eliminei dos contactos toda a gente que conheci em associação a ela. Desnecessários. Ela tentou falar comigo depois, mas eu não lhe respondi, porque já tinha dito o que tinha a dizer. Responder-lhe seria redundante. Nem nunca mais voltei a pensar nela – seria desnecessário.

Desfaço-me de tudo o que me oferecem, e só compro um objeto se ele me livrar de pelo menos dois. Durante muito tempo, ao acordar, removia duas a três pessoas nas minhas redes sociais. Elas nunca davam conta disso, e se por acaso notavam eu borrifava-me, porque era desnecessário agir de outra forma. Se depois me pediam amizade de volta, não aceitava (aceitar seria redundante). Quando vi que tinha zero amigos, deixei as redes sociais de todo. Não senti falta delas porque também não tenho amigos fora, e não sinto falta de amigos porque ainda me resta família.

Família? Vamos a ver… não digo com isto que pense muito nos meus velhotes. Eles lá vão sobrevivendo. O ato de pensar neles é desnecessário desde que deixei de lhes atender as chamadas – porque, vamos ser francos, eles não duram muito e não têm nada a deixar-me. O que só retirou a última utilidade ao telefone fixo – e o aposentou de vez. Também não tenho televisão, nem na sala nem no meu quarto, que se resume a um colchão e uma lâmpada.

Tornei-me o maior adepto da Cloud! Quando já tinha armazenado tudo lá, deitei fora os meus discos externos. Mais tarde comecei a apagar os ficheiros da Cloud que classificava como desnecessários. Demorei algum tempo até eliminar as fotografias de família: primeiro as redundantes, depois as desnecessárias, até que já não tinha fotografias. Com o Spotify igual. Ao subscrevê-lo deitei toda a música que tinha ao lixo, só para depois cancelar a subscrição. Já tive contas Dropbox Pro, OneDrive e Box, mas removi as últimas duas por redundância, e a primeira porque já estava a mais. Já não tinha mais uso algum a dar à Cloud.

Mas isso já não me preocupa muito. Na mesma viagem em que comprei um smartphone, desfiz-me da máquina fotográfica, do GPS, relógio, lanterna e agenda. Quando cheguei a casa e olhei para o meu computador, apercebi-me da sua redundância face à aquisição do telemóvel. Lixo com ele. Depois percebi que com wireless gratuito em cafés não precisava de um serviço de Internet em casa. Vai daí, destruí o telemóvel à martelada, porque já não tinha utilidade para ele. Deitei-o fora, e aproveitei para dar o mesmo fim ao martelo.

Antes de sair para o trabalho, parava em média dez minutos a pensar na utilidade das minhas restantes coisas, e esse tempo foi aumentando e aumentando. Entretanto, fui despedido da Google. Deram-me muitos, muitos motivos: chegar atrasado; não obedecer ou falar com os colaboradores; tresandar por não tomar banho nem mudar a roupa – entre outras coisas que é desnecessário mencionar. Ralei-me pouco, porque pude dedicar-me a tempo inteiro ao meu passatempo preferido.

Assim, fui eliminando da minha vida tudo o que considerava redundante e/ou desnecessário, e estou muito contente com o meu progresso. Vejam lá que já só me restam seis itens.

1) 1 corpo nu, depilado e de crânio rapado (eu);

2) 1 apartamento;

3) 1 garrafão de 5l de gasolina;

4) 1 isqueiro;

5) 1 pistola Glock 42;

6) 1 bala.

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