Crónica

Leishmaniose

Deparamo-nos com a ideia de não mais ver móveis arruinados. Comandos mordidos. Sofás babados. Escovas de dentes desfeitas e sapatos esventrados, já para não falar nos pães misteriosamente desaparecidos, entre outros géneros alimentares praticantes da arte da evaporação.

É economicamente apreciável, este fim do prejuízo. O término daquele diário fechar de portas preventivo, ou da limpeza de divisões da casa, e mesmo o deitar ao lixo de objectos até horas antes perfeitamente funcionais. Há, no horizonte, a possibilidade dos nossos bens respirarem de alívio pela primeira vez em três anos.

É o afastar definitivo de um par de olhos azuis cuja ignorância, inocência, instinto e orgulho vão contra as garantias e códigos de utilização de uma miríade de coisas mortas. Um par de olhos que nunca compreenderá o que fez de mal, o que se passou, porque se sente desta maneira, e porque tem dormido tantas noites numa gaiola, ligado a um tubo, na companhia de animais desconhecidos. Imagino-o em silêncio, por entre uma multitude de gemidos, latidos e mios confusos. “Onde está o meu dono? Porque tenho tanto sono? Será que estão a jantar lá por casa? Até quando vou ficar aqui?”

No entanto, a possibilidade acentua-se no horizonte. Ei-la, impassível, a aproximar-se a passos de gigante. Mesmo que tenhamos feito tudo para a prevenir. Mesmo que chegue anos antes do previsto. Mesmo que seja tão triste.

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