Conto

Quadro macabro

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

Revistou-o à luz de uma lanterna de manivela. Fósforos, boa. Um canivete suíço, óptimo. Uma carteira – quem é que ainda usa uma carteira…? – tinha dinheiro – uma inutilidade nos dias que correm – e fotos de “família”. Tsc. Bernhard já nem sabia o que era isso. A sua família de agora era um conjunto de cicatrizes, resquícios da família anterior. Cicatrizes, isto é: tatuagens tridimensionais, símbolos de liberdade, que gritavam algo como “salve-se quem puder, alimente-se quem conseguir. Estes não são tempos de civilização. São de selvajaria, de presas e predadores”.

Cuidadosamente retirou o fio de arame do pescoço de Albert e limpou-o do sangue e muco. Guardou-o com estima, enrolado num novelo. Sempre apreciou a perfeição das ferramentas certas nos pescoços certos. Reuniu os seus pertences, pegou nos alimentos que Albert recolhera e pôs-se a caminho. Dentro de minutos seria dia, e convinha afastar-se dali antes que o odor daquele petisco flatulento viajasse.

Um sol improvisado nasceu por entre as ruínas do bairro. Restos carbonizados de carros serviam de canteiros, e as silvas cresciam descontroladamente pelos ladrilhos. Autocarros tombados cediam passagem aos tons alaranjados de um novo dia. Mascando os restos ressequidos de uma desculpa de pão, Bernhard deparou-se com um vulto negro, tenuemente recortado na contraluz. Estava sentado, nem a cinquenta metros, e olhava na sua direcção. Era um Rottweiler.

Bernhard sacou da 45. Sem movimentos bruscos, retomou a marcha, enveredando por duas vivendas numa tentativa de o distrair. Mal saltou uma cerca entre quintais, estremeceu. Um Boxer fitava-o silenciosamente sob um baloiço de brincar. Bernhard acelerou o passo, mergulhando entre uma vedação improvisada de uma antiga horta, e começou num caminhar atabalhoado. À sua esquerda esperava-o um Grand Danois. Atrás de si trotava um atraçado de Pastor Alemão. Bernhard já investia numa corrida, desesperado por encontrar uma casa antes que fosse tarde. Ao saltar uma sebe o corpo de um Husky ergueu-se, fazendo-o tropeçar e cair redondo na terra.

Ergueu a cabeça e percebeu que estava completamente cercado. Os cães aproximavam-se impavidamente. Deu um tiro para o ar. E depois outro – não arredaram passo. Sabendo que não tinha balas para todos, apontou para um à sorte e matou-o, mas em vez de os assustar, uma forte pontada nas pernas foi o resultado. De novo no chão, os cães apunhalavam-lhe os braços e os pés, desfazendo-lhe a mão da arma. Depois pararam, de pose acabrunhada – e isso não se deveu aos seus gritos de dor, mas sim ao cão que se lhes juntou. Por entre um Doberman e um Pastor Alemão, surgiu um cão sujo, velhíssimo, que fez o seu caminho até Bernhard.

Este viu um conjunto de patas a aproximar-se. A muito custo, subiu os olhos e paralisou, horrorizado, reconhecendo aqueles olhos gelados. Por entre as peladas do pescoço, impossível de passar despercebida, figurava uma imensa cicatriz.

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