Crónica, Viagem

Texto ignóbil

Não há forma de fugirmos de nós próprios. Quando da família só restar a nossa carcaça periclitante, suspensa em pontes de batimentos cardíacos num hospital manhoso onde só o BI nos sabe o nome — ainda somos nós que lá estamos. Aquela vaga coleção de células, maioritariamente pele, onde dois globos oculares gastos rodopiam confusos por entre a nébula. Sim — essa é a nossa despedida parva a um universo que se está nas tintas.

Entre a procura de uma gargalhada no próximo e a tentativa de nos afastar dessa cama de hospital, há uma ligação ténue. Houvesse em mim motivos para me desligar desse catéter mental, tinido eterno da mente, fá-lo-ia num ápice. A verdade é que, por mais pessoas que conheça e por mais que me melhore ou tente fazê-lo, cada vez me sinto mais próximo de não conhecer ninguém. A cama sabe-me insistentemente a não minha. Perco apegos — hortas humanas que deixo cair em descuido. Digo-me desprendido de materialismos, e refugio-me nesse pensamento como se de um pequeno forte mental se tratasse. Valorizo artes de fazer e esqueço-me, conscientemente, das de deixar ser. Sou vão e desconsiderado, e não se espante quem me ler a escrever assim. É das coisas mais optimistas que escrevi em anos, fora toda a maluqueira que me sai quando invento personagens.

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