Crónica

Ritual

À noite, um par de criaturas deambula pelos cantos daquela praça. Entre blocos e blocos de apartamentos, a mitologia urbanística rasgou do chão uma desculpa de jardim. Sob a luz bolorenta dos lampiões, esta feia clareira de cimento subsiste, num vaivém de desconhecidos que nos desvia o olhar.

A natureza morta dos carros é até perder de vista. Ignora-se um ou outro parquímetro. Em bancos de jardim, partilham-se charros ou litrosas sob as cabeleiras das árvores em snooze, que filtram a noite amarelenta. Ao longo das reentrâncias escuras de cimento, enjauladas por colunas medíocres, dormem escritórios de estores corridos, maquilhados por pichagens desinspiradas. Há sempre quem deixe restos em embalagens de plástico para os mesmos gatos invisíveis. Quando chove, afogam-se os paralelos da estrada, e a relva do jardim perde-se numa profunda sopa de lama. E, por fim, podemos encontrar regularmente um vidrão, um papelão, um plasticão, eu e um cão.

Enquanto o meu amigo trata da sua vida, eu olho em redor. Há muitas personagens naquela praça, mas uma intriga-me mais que as restantes. Todas as noites cruzamo-nos com um estranho sujeito de bicicleta.

Veste calças de ganga e casaco de bombazina coçado. Vem a resmungar e vai a resmungar, ininteligível sob o seu farto bigode. Através de todos os contentores e ecopontos, faz sempre o mesmo circuito, examinando-os paulatinamente. Quando encontra algo que lhe agrade, guarda-o no cesto da bicicleta, e dando-se por satisfeito sai rolando por ali fora, o seu resmungo e o seu bigode perdendo-se na distância.

Eu só imagino que vá repetir aquele ritual pela cidade fora. Nunca o vi fora dali e não sei mais nada sobre ele. E todos os dias ele deixa-me a pensar.

Neste cruzamento dos nossos dias, temos um momento em comum.

A que distância estou dele? Talvez sejamos o mesmo, em tempos diferentes. Talvez um dia, numa cidade futura do estrangeiro e onde a noite cai de uma forma deselegante, eu ande de lixo em lixo à procura de pequenos acrescentos ao meu dia.

Depois o cão puxa-me, como quem me chama.

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