Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.

O hotel. Ainda estava no hotel.

A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.

Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

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O das irmãs gémeas

Há um espelho entre nós que me murmura: vou partir. Pressinto stress nos seu ranger, uma tensão em crescendo destinada a libertar-se. Em vez de fazer algo quanto a isso, antecipo a chuva de vidro após a quebra, e o nosso estado: sempre tão idênticas, gémeas irreflectidas, irremediavelmente cortadas uma da outra.

Naquele dia, fiquei séculos na cozinha a fumar cigarros teus. Havias de ver a forma como tremia nos sapatos e nadava dentro de mim, num estupor estuporado. Deixara café a fazer, ia para o emprego — já me conheces os turnos — blusa, batom, saia travada, cabelo apanhado, dedos acelerados. O mar fervilhava, aluminado, entre as gruas de arame, e a selva de vegetais macacava por entre o postal da mãe, que bebemos num batido. Roçavam as oito num dia feliz, e eu caída num banco, de olhar a monte, à pesca de pensar.

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São Pedro

No calor intenso daquela cozinha, Júlio respirava com dificuldade. Mais por capricho do patrão que por outra coisa, calhava-lhe sempre a preparação das batatas, o empratamento, e a fritadeira. Naquela agitadíssima noite da Póvoa de Varzim, as horas de um turno parecem infinitas. Nem todas as noites são o São Pedro, mas todas as outras juntas cansam igual. Com o barrete encharcado de suor, procurava estar acima dos gritos, do chocar doloroso das louças, do calor do óleo que manuseava para fritar batatas – e do pouquíssimo tempo que dormira na véspera.

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Abismo

Há, a respeito deles, palavras de doutores escritas em processos urgentes. São termos importantes, em jeito de alerta, mas que apesar da sua importância e pressa, e da ajuda icomensurável que trazem, não passam por este portão de chapa nua. Muito menos nas manhãs frágeis de agora, onde a remendada casa se inunda de uma palidez nebulosa. As cortinas filtram luz e cor, deixando repousar um resquício de vida sobre as superfícies.

O silêncio em suspensão não era menos que uma respiração gasta – uma tosse farta aliada a uma dolorosa espera. A frágil criatura do sexo masculino molhava os lençóis com um suor frio a ele desapercebido. Caleidoscópicas febres, dores lancinantes… as costelas colavam-se à pele do desgraçado com uma hóstia de músculo a entremear.

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