Pêndulos e super-luas

Apanhou-me. Vim aqui sentar-me à janela, só por uns minutinhos, prometo. A verdade é que não conseguia mesmo continuar deitado com um luar destes aqui a espreitar-me. Veja ali no alto, a Lua a descobrir-se do algodão das nuvens. Com que força o seu brilho rasga a noite, com que juventude. E tão próxima. É de pasmar, não acha? Parece que vive a duas ruas de distância, como se pudéssemos fazer-nos ao caminho e ir lá ter em cinco minutinhos.

Quando a Lua cheia coincide com o perigeu, o ponto da sua órbita mais próximo da Terra, dá-se este fenómeno. É como que um beijinho que ela nos dá. Assombrosa! A super-Lua ocorrerá três vezes neste ano, esta é apenas a segunda, e eu espero muito sinceramente andar cá para ver a terceira. Mas um dia de cada vez, é o que lhe digo. Gostava muito de ter o seu optimismo, Eva, mas as coisas são assim, e o tempo é manhoso.

Olhe, a primeira super-Lua, por exemplo. Deu-se antes desta macacada toda do vírus me apanhar, e parece que foi há uma eternidade, mas na verdade foi há apenas um mês. O tempo comprime-se e dilata-se, como se para ele fôssemos meros espectadores sem qualquer voto na matéria. É ele e a natureza. Eles devem ser um casal, da maneira com que congeminam as suas leis. Espanto-me como estou continuamente às suas mercês, e ainda assim, me vou aguentando. Após uma vida a gizar na ardósia as verdades imutáveis do universo, eis que ele finalmente gizou uma para mim. E sabe a que conclusão cheguei, Eva? Aos seus olhos, não sou nada senão uma pequenina massa.

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Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.
O hotel. Ainda estava no hotel.
A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.
Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

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São Pedro

No calor intenso daquela cozinha, Júlio respirava com dificuldade. Mais por capricho do patrão que por outra coisa, calhava-lhe sempre a preparação das batatas, o empratamento, e a fritadeira. Naquela agitadíssima noite da Póvoa de Varzim, as horas de um turno parecem infinitas. Nem todas as noites são o São Pedro, mas todas as outras juntas cansam igual. Com o barrete encharcado de suor, procurava estar acima dos gritos, do chocar doloroso das louças, do calor do óleo que manuseava para fritar batatas – e do pouquíssimo tempo que dormira na véspera.

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Abismo

Há, a respeito deles, palavras de doutores escritas em processos urgentes. São termos importantes, em jeito de alerta, mas que apesar da sua importância e pressa, e da ajuda icomensurável que trazem, não passam por este portão de chapa nua. Muito menos nas manhãs frágeis de agora, onde a remendada casa se inunda de uma palidez nebulosa. As cortinas filtram luz e cor, deixando repousar um resquício de vida sobre as superfícies.

O silêncio em suspensão não era menos que uma respiração gasta – uma tosse farta aliada a uma dolorosa espera. A frágil criatura do sexo masculino molhava os lençóis com um suor frio a ele desapercebido. Caleidoscópicas febres, dores lancinantes… as costelas colavam-se à pele do desgraçado com uma hóstia de músculo a entremear.

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