Conto

Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.

O hotel. Ainda estava no hotel.

A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.

Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

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Conto

O das irmãs gémeas

Há um espelho entre nós que me murmura: vou partir. Pressinto stress nos seu ranger, uma tensão em crescendo destinada a libertar-se. Em vez de fazer algo quanto a isso, antecipo a chuva de vidro após a quebra, e o nosso estado: sempre tão idênticas, gémeas irreflectidas, irremediavelmente cortadas uma da outra.

Naquele dia, fiquei séculos na cozinha a fumar cigarros teus. Havias de ver a forma como tremia nos sapatos e nadava dentro de mim, num estupor estuporado. Deixara café a fazer, ia para o emprego — já me conheces os turnos — blusa, batom, saia travada, cabelo apanhado, dedos acelerados. O mar fervilhava, aluminado, entre as gruas de arame, e a selva de vegetais macacava por entre o postal da mãe, que bebemos num batido. Roçavam as oito num dia feliz, e eu caída num banco, de olhar a monte, à pesca de pensar.

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Conto

Quadro macabro

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

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Conto

Desaparecido

Quem és tu?

Olha para mim, que vergonha. Feita maluquinha, a falar contigo. Nem sequer sei se estás acordado. Paulo, Paulo…

O teu médico disse-me uma coisa engraçada. Bem, engraçada é uma força de expressão, porque não tem piada nenhuma. Para que é que estou a tirar um cigarro, se não posso fumar aqui? Não percebo isto, se há gente que merece a merda de um cigarro… mas não vou fumar, isto é um hospital.

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