Crónica, Viagens

Texto ignóbil

Não há forma de fugirmos de nós próprios. Quando da família só restar a nossa carcaça periclitante, suspensa em pontes de batimentos cardíacos num hospital manhoso onde só o BI nos sabe o nome — ainda somos nós que lá estamos. Aquela vaga coleção de células, maioritariamente pele, onde dois globos oculares gastos rodopiam confusos por entre a nébula. Sim — essa é a nossa despedida parva a um universo que se está nas tintas.

Entre a procura de uma gargalhada no próximo e a tentativa de nos afastar dessa cama de hospital, há uma ligação ténue. Houvesse em mim motivos para me desligar desse catéter mental, tinido eterno da mente, fá-lo-ia num ápice. A verdade é que, por mais pessoas que conheça e por mais que me melhore ou tente fazê-lo, cada vez me sinto mais próximo de não conhecer ninguém. A cama sabe-me insistentemente a não minha. Perco apegos — hortas humanas que deixo cair em descuido. Digo-me desprendido de materialismos, e refugio-me nesse pensamento como se de um pequeno forte mental se tratasse. Valorizo artes de fazer e esqueço-me, conscientemente, das de deixar ser. Sou vão e desconsiderado, e não se espante quem me ler a escrever assim. É das coisas mais optimistas que escrevi em anos, fora toda a maluqueira que me sai quando invento personagens.

Todos os dias me sabem a viagens entre um A e um B, cíclicos, onde a minha batalha entre o sono e a vigília dá lugar a uma dança de cores e trocas de palavras às quais chamam dia. A e B trazem-me, ao fim de contas, um certo valor X, que por si só, me traz uma mão-cheia de nada. Sucedem-se sorrisos e palavras amigas a meses repetidos de semanas sofridas.

Não estou deprimido, nem sequer triste, e essa é a pior parte. Estivesse triste e este texto seria um manifesto, uma constatação do estado das coisas e do antagonismo destas a uma harmonia. Como não estou triste e não estou feliz, só posso habitar num meio termo neutro, amansado, conformado. E isso é o que me assusta.

Na minha insistência por um lugar no mundo há mil uma dúvidas. De que, ao certo, somos merecedores, só por cá estarmos? Qual é o mérito meu de ser respeitador dos valores que me construíram enquanto molde de gente? Qual é o mérito de seguir impulsos, físicos e intelectuais, se estes resultam de uma cadeia infinda de impulsos desprovidos de livre arbítrio?

Há nas minhas viagens uma sede em descobrir pistas de um propósito que me valha o tempo, que traduza os dias em algo efectivamente meritório. Porém, nessas deambulações entre mil e um universos de outras pré-carcaças iludidas, apercebo-me da imensidão da minha ignorância, e da futilidade e frustração de qualquer tentativa minha em unir o meu esforço numa tapeçaria coerente.

Quanto mais viajo, mais ignorante me torno. Mais ciclos completos de vidas conheço, e mais incompleto me descubro. Gostava de, como quem vai a um supermercado, poder obter uma solução que me satisfizesse. Hindu, cristã, budista, qualquer crença que me preenchesse os dias e me fizesse ir para a cova mais contente. Façam fila para mas vender, e deixem-me pesar os prós e os contras das vossas religiões. Oxalá me tragam algum conforto — sim, porque, vamos ser sinceros aqui, isto é uma procura egocêntrica e ignorante de alguém que nunca passou uma única dificuldade.

Não posso é observar o meu crescente cinismo e incompreensão de braços cruzados, e ceder ao ímpeto de julgar desmesuradamente, de castrar a compreensão por esta me tomar tempo. Não posso desistir das pessoas que me irritam, daquelas que me enfastiam, das que me azucrinam a incompreensão, das que enchem o mundo de um ruído que não sei interpretar.

Quantos pontos desci na vossa consideração? Quantos de vocês leram até esta frase? Com estas duas perguntas, digo mais de mim do que no resto. A verdade é que não acredito em vocês. Escrevo no blog por vaidade e para me certificar de que ainda tenho palavras nas pontas dos dedos. Escrevo para ver até onde vai a minha honestidade para comigo, mas posto tretas indulgentes como esta com o mesmo narcisismo com que se muda uma fotografia de perfil no Facebook. Reitero a minha vaidade, o meu gosto em ler-me e a minha acepção de que, realmente, estou melhor a inventar personagens.

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Puzzle

Começamos com uma caixa de madeira. Não nos deixemos seduzir pelos seus veios estruturais, pelo seu toque quente e carícia envernizada. É uma caixa destinada a arder no fim, e como tal, algo passageiro, de uma fugacidade trágica.

Abrimo-la, de olhos virgens e vazios, e, num pasmo de estupidez, vemos um puzzle com um milhão de peças. Não compreendemos o que são porque não temos nada na cabeça. Fechamos a caixa e sentimos algo a chocalhar no bolso — já lá temos algumas! Ainda vagas e a ganhar cor como um polaróide improvisado, pousamo-las sobre um tampo de alumínio estéril, e banhamo-as com a luz de um candeeiro clínico.

São peças importantes, que para sempre figurarão no nosso centro. Os nossos pais, irmãos, língua materna, terra, avós, primeiros amigos. Ligam-se e desligam-se. Como todas as seguintes, transformar-se-ão com o tempo e as experiências que lhes fizermos, boas ou más, consciente ou inconscientemente.

Dependendo da sorte, e do nosso empenho e ciência, teremos ligações mais ou menos férteis entre peças, e oportunidades de abrir a caixa e de lá retirar outro bocadinho do nosso futuro eu. Em muito este abrir e fechar da caixa parte de nós, mais do que por vezes damos conta. Do abrir um livro, ao fazer amigos despreocupado, arriscar a medo, ou até embarcar num comboio — todos os elementos que encaixamos na fronteira de quem somos fazem crescer a obra. Dão-lhe cor, textura, motivo, reflexão. Tocam-se peças, tocam-se mãos e lábios. Dizem-se palavras, pisam-se solos, levantam aviões. Umas vibram de cor, quais faróis por entre o misto, outras perdem-se, desvanecem, deixam de encaixar direito.

Há em nós muito, e esse muito trabalha-se e regenera-se tanto quanto queremos. Tanto quanto nele ainda acreditarmos. Tanto quanto as peças ainda se liguem, se queiram.

Pouco a pouco na amálgama começa a afigurar-se algo, tenuemente, tímido, por entre o caleidoscópio desorganizado. Onde haverá aqui uma vitória, uma vez que o puzzle nunca estará completo, e a caixa e todas as suas peças arderão muito antes de o entendermos?

No meu entender presente, a vitória está na descoberta. No acto de levar as mãos à caixa, de nos deixarmos abismar como no primeiro dia com a imersão dos nossos dedos em infinitas combinações, histórias, sorrisos e lugares, e, encaixe a encaixe, no imenso prazer de crescer e aprender.

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Caminho de Santiago

No dia 12 de Abril de 2015 os meus pais levaram-me à estação da Campanhã, no Porto. Apanhei lá um comboio para Coimbra, onde me meti noutro para França. De Hendaye, pus-me num autocarro para Cambo des Baines, e finalmente num para St. Jean-Pied-de-Port. Fui sozinho, mas quando o meu pai me foi buscar a uma aldeia da Galiza no dia 19 de Maio, trazia comigo um amigo da Póvoa e duas personagens do outro lado do mundo.

Estes são os e-mails que fui enviando aos meus pais e irmãos, depois também aos meus tios, e finalmente a uma grande porção da minha família. A itálico, incluo excertos do caderno que levei comigo com o qual ia confidenciando, deitado em dezenas de albergues, antes de desligar a lanterna e fechar os olhos.

Minutos antes de sair de casa

Minutos antes de sair de casa

St. Jean-Pied-de-Port, no dia 13 de Abril

St. Jean-Pied-de-Port, 13 de Abril

Já estou pronto para dormir, no meu beliche. Debaixo de mim uma australiana conversa com um dinamarquês. Ambos estão doridos da garganta, ela mais que ele. Ela fez o seu trabalho de casa quanto ao caminho.

“You know what Finisterre means, right? End of the world.”

Está a começar a ficar escuro. Estou a países inteiros de casa, e não vou voltar tão cedo. Será que fiz a coisa certa?

St. Jean

O ponto de partida

14 de Abril

Já acabou a primeira etapa. Dizem que é a mais difícil. Estou bem. Não se preocupem que mesmo que nunca tenha cartão o telemóvel pode fazer chamadas de emergência. Não sei se a Vodafone consegue resolver, tenho medo de o cartão ter dado o berro. Ao menos poupo dinheiro em roaming.

Conheci muita gente. Australianos – quatro irmãs e o marido de uma, que conhece muitos portugueses e já viveu em Angola. Entre muitos outros, um coreano (Coreia do Sul) a quem dei uma maçã tuga. Ainda não encontrei portugueses.

Pirinéus Franceses

Pirinéus Franceses

A virgem de Biakorri, nos Pirinéus

A virgem de Biakorri, nos Pirinéus

15 de Abril

Estou vivo!! Correu bem. Foi desde Roncesvalles até Zubiri, 20 km. Foi pacífico!

Mesmo após partir em Roncesvalles, esta placa encorajadora

Mesmo após partir em Roncesvalles, esta placa encorajadora

Foi antes das 6, na verdade. Nem 5 e meia eu via no relógio e já havia gente a fazer-se ao caminho. Provavelmente iam fazer uma etapa maior que eu. […] Hoje estou mais contente. o caminho correu bem. Conheci mais gente, sofri menos. Tenho lavado a roupa – e comprei molas. Molas! O quanto precisava dessas estuporazinhas. Ouvi música e podcasts, que são muito bons para me distrair por meia hora de cada vez.

16 de Abril

Já estou em Pamplona!! Hoje foi um dia mais difícil — o corpo está a começar a ressentir-se. Também choveu um bocado, mas não fez muito mal. O joelho direito começou a doer. O que vale é que ao chegar ao albergue me deram um bocadinho de voltaren creme e já sei o que comprar na farmácia.

Hoje comi num restaurante em Pamplona com o Joo (sul-coreano), que está a adorar toda a sua experiência na Europa. Diz que depois vai ao Porto e Lisboa. Já lhe disse que ia adorar. Mostrei-lhe a GoPro. Ele contou-me que na Coreia do Sul as pessoas têm mais um ano do que no resto do mundo. A gestação conta como mais um ano oficialmente. Eu teria 27 anos lá. Fantástico!

A sair de Pamplona

A sair de Pamplona

17 de Abril

Ignorem o último e-mail, o da morada. [Pus em hipótese que os meus pais mandassem um cartão SIM por correio para um albergue subsequente.] Se até agora funcionou assim, não há de haver problema. Hoje foi bonito, mas o joelho chateou-me numas descidas. Nada de mais, acho que vai dar para recuperar totalmente dele.

O Alto del Perdón! A caminho de Puente la Reina

O Alto do Perdão

Se os pés pudessem falar, aqui diriam

Se os pés pudessem falar, aqui diriam “Piedade!”

Ontem não tive tempo para escrever, mas tenho agora. O Joo fez-se amigo de um casal de japoneses e queria comprar também para eles tabaco de enrolar, que não têm lá. Inicialmente ia c/ ele e o Nori, mas este só podia durante as horas da siesta, portanto fiquei eu auto-encarregue de o ajudar numa tabacaria. Mal ele entrou, “ooooohh!!”, ficou abismado com a variedade de oferta que tinha a loja. Tabaco de enrolar, charutos, cachimbos, maços, cigarrilhas, de todas as marcas e tamanhos. Ele disse-me que na Coreia têm tabaco, mas só os maços normais. Foi por isso que servi de “tradutor” ou de “intermediário” enquanto a senhora do balcão o aconselhava nos produtos mais comprados. Mais tarde tiveram os três uma aula de enrolar cigarros pela primeira italiana que conheço que fala inglês.

“DE CASERO A PRESUNTO ASESINO”

Vi isto no rodapé de uma notícia na televisão. Um presunto assassino?

18 de Abril

Estou em Estella. Correu bem… Apanhei chuva no fim e sol a meio. Não sei o que escrever. Muitas vinhas. Muitas aldeias… O que estavam a tentar dizer? Não percebi. É o mal de depender da net dos albergues, pode ser muito fraca. Mandem por Mail. Vou tomar banho, tratar da roupa e depois leio.

Falta meia hora para a “secadora” acabar o ciclo. Foram 2 euros mas acho que são dois excelentes euros – chove, chove, chove – ou como diz o Joo – erain, erain, erain – e se ontem as roupas não secaram sem chuva, imagino como será hoje. 

19 de Abril

Hoje foi espectacular!! Foram 22 km mas correu muito bem. Fui de Estella a Los Arcos. Havia algumas nuvens mas não choveu, só compuseram a paisagem.

Entre Estella e Los Arcos

Entre Estella e Los Arcos

Campos enormes, cheios de cor, paz e sossego. Ao sair de Estella havia uma fonte de vinho, feita por uma vinícola qualquer como manobra publicitária a promover o seu vinho de Navarra. Estava bom, mas borrei-me todo a tentar beber porque não tinha copo e não queria encher a garrafa feito sem-abrigo. Cheguei cedíssimo a Los Arcos mas não quero avançar mais. É a etapa do livro. Vai dar tempo para tentar ler um bocado do Dom Quixote e lavar a p** da roupa, que já começa a tornar-se uma chatice de fazer todos os dias, mas não faz mal. Tio João eu não trouxe a vieira que me deste, porque já trazia muita tralha e não me dava jeito, mas quero propor-te o seguinte: quando chegar a finisterra compro um quilo daquilo, e quando chegar à Póvoa eu levo aí a casa da avó para as comermos, tu matares saudades da Galiza, e para me furares uma para guardar como vieira de peregrino oficial. Não sou muito de simbologia mas acho que se eu trouxer uma concha de finisterra vou dar muito mais valor ao objecto!!

20 de Abril

Hoje foi difícil. 28 km desde as 7 da manhã as 16h — de Los Arcos (fotos do primeiro e-mail ) a Logroño, de onde ainda não tirei fotos mas é muito bonito.

As nossas guias...

As nossas guias

Estou desfeito. Desfeitíssimo. E dizem que amanhã é pior. Bem, se eu não estiver a caminho já pelas 6 da manhã acho que mereço torrar ao sol durante a tarde, como foi hoje. Não, não me lembrei do protector solar. Sim, eu sei que o tinha comigo. Sim, apanhei um mini-escaldão. Claro que usei um chapéu, mãe. E que fui bebendo água, comendo, e descansando na sombra. Mas mesmo assim é terrível.

A caminho de Logroño!

A caminho de Logroño!

Mas daqui a bocado já estou melhor. E vou ver se encontro um supermercado e algum menu do peregrino que não passe dos 10 euros. Sim, porque é isso que eu tenho feito — sandes e fruta para pequeno-almoço, almoço e lanche e janto um menu do peregrino com salada e vinho. Vinho ajuda a adormecer… Isso de eu no final de um dia destes e de tratar da roupa ainda me aventurar pelas artes da culinária sozinho…

Ah, e saí da região da Navarra para entrar na La Rioja.

Logroño

Logroño

Se eu vir que amanhã preciso parto a etapa em 2, e depois distribuo os quilómetros que não fiz amanhã por outras etapas mais pequenas que vou ter depois.

São 29 km de Logroño a Nájera. Pelo que diz o livro é relativamente plano.

Vamos a ver.

Logroño

Logroño

20:19 […] Não gosto de cidades grandes. Os outros peregrinos são diluídos nas restantes pessoas e eu fico mais por minha conta do que devia.

22:03 – Estava eu no canto mais remoto deste restaurante – aquele em que podia carregar o telemóvel – e a escrever no caderno – quando ouço gente a chamar.

“Gay! Gay!”

Era para mim. O casal de australianos que conheci no dia 0 no autocarro para St. Jean, mais um sujeito que não sei de onde é. Muito simpáticos. Ele tem barba grisalha e é grande. Depois chegou o casal de americanos em que ele parece o Ed Catmull e ela é loira de totós. Ela trazia o braço ao peito.

“We just left the hospital. She fractured her arm”, e eis que ela irrompe em lágrimas. Vai apanhar um voo mais cedo para casa. Está abalada mas “I’m a big girl, I can take care of myself.”

Parece que o “Ed Catmull” é professor. A respeito das milhas aéreas que tem para usar, referiu que voava muito para fazer “talks”. Foi responsável pela science & mathematics da Scholastic. A editora do Harry Potter?

“Exactly!”

21 de Abril

Em Néjera!

21 de Abril

Logroño –> Nájera

Quase 30 km e ainda estou vivo!! Foi difícil mas por muito difícil que seja não é eterno. Amanhã são só 20 km. Tive sorte porque me fiz amigo de um espanhol (que já viajou por todo o mundo e todo Portugal) que vai cozinhar hoje para mim e para o nosso amigo sul-coreano. São muito caras as viagens para a Coreia do Sul?? Ele já me prometeu casa e visita guiada.

Amanhecer, depois de Logroño

Amanhecer, depois de Logroño

O joelho não me incomodou mais. Surpreendentemente a recuperação é quase total! Agora é só dor de pés e cansaço puro. E a queimadura de ontem. Sim, lambuzei-me todo de protector, mas mesmo assim neste momento pareço uma gamba.

Sou o único português a fazer isto connosco (nestas paragens, ao mesmo tempo que eu). E já conheci meio mundo. Brasileiros, espanhóis, australianos, americanos aos montes, sul-coreanos e japoneses, dinamarqueses, húngaros, suecos. Um pouco de tudo. Sou o representante de Portugal oficial. Tenho gabado o Porto tanto que acho que devia ser pago para isso.

Nájera

Nájera

Também estive a gabar tudo o resto que temos. O espanhol disse-me em confidência que acha que os portugueses são muito mais simpáticos que os espanhóis. Boa!!

Para se rirem mando uma foto de mim acabado de chegar ao albergue, com vontade de amputar os pés.

2015-04-21 16.10.29

O espanhol cozinhou o jantar. Massa, massa para mil e um, e fez uma bebida de cola c/ vinho tinto que chama de kalimocho, com gelo. Foi fantástico. A quantidade de nacionalidades que se juntaram no albergue de Nájera foi estonteante. Adorei. Ri-me imenso. Depois de uma caña e de uma cerveja de lata não era de esperar o contrário. É fantástico vermos o coreano a admirar a nossa caligrafia. As próximas páginas são resultado dessa mesma interação. Hoje relembrei-me do fantástico que é o Caminho. Numa hora, dores e sacrifício. Algumas depois, estou deitado numa cama num albergue gerido por voluntários (um dos quais da Califórnia), ao lado da Federica e do Joo, a escrever no meio de tonturas de calor do género que é bom, tipo de vinho – feliz e convicto de estar a ter uma aprendizagem como nenhuma outra até agora. Sim, está a valer a pena.

22 de Abril

 

Screenshot, Santo Domingo

Os meus pais iam seguindo o progresso numa app

Hoje foram 20 kms. Correu muito bem. Estou em Santo Domingo de la Calzada. Estão a receber os meus e-mails? Eu não tenho a certeza.

Montanha-russa de emoções. Ontem estava contentíssimo. Hoje voltei  a ir-me abaixo. E isto porquê? Por ter parado temporariamente num sítio a descansar, e assim, me ter separado do grupo de ontem, perdi-os, quem sabe definitivamente! Estão a 5 km de distância. Vou tentar apanhá-los amanhã. Para além disso não tenho recebido mails nenhuns da família. É algo chato, quando nos vemos longe e em dores, a dormir em camaratas cheias de perfeitos desconhecidos. Porra, fiquei triste por ter perdido aquele grupo. Que lição terrível. Merda. E por falar em merda, hoje cozinhei o jantar para mim.

Nájera --> Santo Domingo de la Calzada

Nájera –> Santo Domingo de la Calzada

23 de Abril

Pois é, agora vou usar outro e-mail porque o outro está a deixar-me ficar mal. Parece que há três dias que não recebi nenhum e-mail. Posso enviar e-mails, mas não recebo nenhum nem sei se os que enviei foram efectivamente enviados.

Por isso criei este e-mail provisório, só para agora. Se por acaso me enviaram alguma coisa reenviem-na para aqui. Se não respondi é porque provavelmente nem recebi.

Hoje foram cerca de 22 km. Tive muita preguiça de me levantar mas tem que ser — os albergues dão até as 8h para sair. É justo. Há quem se levante muito cedo, e já esteja a caminhar as 5 da manhã. Se eu não estivesse tão preocupado em não incomodar o pessoal com os meus ruidosos sacos de plástico do pingo doce, levantar-me-ia mais vezes às seis da manhã. Agora deixo-me ficar na cama até quase as 7 e pelas 8 estou a andar.

Ontem acordei violentamente a meio da noite com um sujeito a ressonar, e o seu ruído era exactamente igual a um martelo pneumático. Fantástico.

Acho que os meus pés já não criam mais bolhas. Estou no ponto de equilíbrio. Uso sempre duas meias, uma mais densa primeiro e outra menos por fora. Assim o pé resvala menos. Sempre que tenho uma pedra paro imediatamente para a tirar. De manhã ando com a parte de baixo das calças e quando o sol aquece desmonto-as e tornam-se calções. É um sistema espectacular. Numa questão de horas passo de estar com camisola, luvas e calças a estar de calções, chapéu e t-shirt.

Tenho ouvido muita música e podcasts. Hoje ouvi a segunda sinfonia do Mahler, João. Ia com um speed que até parecia dopado, como o Lance Armstrong. Mas não. Não tenho tomado nada. Nenhum brufene. Nem já ponho nada no joelho. Deixou de me azucrinar a cabeça. Agora é tudo uma gestão de energia, calor, creme para o sol, água, sombra, etc… Paro em cafés para beber uma coca-cola e a meio da manhã comer um bocadillo de tortilla. Têm sempre net, por isso fico por lá um pouco, e as pessoas têm sido sempre simpáticas.

Ontem e anteontem estive com um grupo engraçado de personagens, que espero reencontrar hoje. Um espanhol chamado Gerardo, uma italiana chamada Federica, um sul-coreano chamado Joo Hyun, um japonês chamado Nori, o checo não sei como se chama.

Digamos que é sempre a rir. O sul-coreano é um cromo descomunal. Sabe duas músicas em inglês: o happy birthday e o we wish you a merry christmas. O Gerardo ensinou-lhe algumas coisas em espanhol. Albergue. Muy rico. Chica guapa. Puta bajada!! Puta subida!!

Não sei quantos quilómetros são amanhã. Depois vê-se. A roupa está a secar no estendal.

24 de Abril

Reencontrei-me com o pessoal! Mando agora o e-mail porque não sei se no sítio onde vou ficar há internet. Parece que vai ser num estábulo aproveitado. Mesmo à peregrino!

Conheci os pais do Gerardo e o cão dele, o Lucas, um fox-terrier. Os pais dele andam de caravana. A mãe acompanhou-nos na etapa a pé, e o Lucas também.

24 de Abril

Parece que a noite cada um de nós vai tentar cantar alguma coisa do nosso país. Já me mandaram prometer que ia cantar um fado. Isso vai ser giro. Espero que não filmem.

Amanhã vamos a Burgos. Estamos a andar mais hoje para amanhã chegarmos cedo. O Gerardo viveu dois anos em Burgos, pelo que sabe o que nos mostrar. Vai ser o nosso guia. Vai ser muito bom.

25 de Abril

Criei outro e-mail porque me esqueci da palavra passe do anterior. Confusão dá nisto.

Posso-vos partilhar já a história de duas pessoas que conheci no caminho e que me tocou bastante. A da Leslie e da Skye.

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A Skye é esta rapariga de 5 anos e a Leslie é a sua mãe. A Leslie trabalhou na Boeing e na NASA, no Texas, em electrónica, e acho que também no exército americano. A Skye nasceu no Texas e pouco depois morreu-lhe o pai num acidente que não me explicaram. “My father had an accident…” Depois disso a Leslie pediu a reforma antecipada para cuidar da filha e tem vivido de forma remediada desde então, nas Filipinas, para onde se mudaram por haver leis mais facilitadoras para o caso delas. Por exemplo, para podermos gozar da reforma na Austrália como estrangeiros a soma dos nossos bens tem de ser superior a 1 milhão de dólares. Difícil… Por isso elas foram para as Filipinas. Mas a Leslie não se quer ficar por lá. Está à procura de outro lugar. Disse-lhe para pensar em Portugal, que com a reforma provavelmente ia conseguir aguentar o nível de vida cá.

Quanto à Skye, é uma miúda espectacular. Diz que estão numa aventura, como o Bilbo Baggins. Diz que o Bilbo é real — afinal, ela e a Leslie foram à Nova Zelândia e deixaram-lhe um pudim de carne. “Bilbo loves vegetables…” Dizia a Leslie. Depois recitou- me a carta que enviaram juntas ao Bilbo. “we’d love to see you in our adventure”. Várias vezes se referiram enquanto “princess warriors”.

A miúda tem energia para dar e vender. Diz a mãe que sempre caminhou com ela, e vai pelo caminho fora a dar-lhe aulas de matemática, de português…

Também participei duas ou três vezes na luta imaginária da Skye (ahem, princess Elsa) contra os vilões do Frozen. Ela ficava pasmada quando eu me punha a conversar com as personagens imaginárias dela, o que me fazia rir imenso.

Agora, a parte inesquecível ainda não chegou. Há um motivo porque ela se lembra de mim enquanto “my singer!”.

Digamos que lhe cantei a música do espantalho do feiticeiro de Oz… Finalmente percebi porque a decorei. Estava destinado a isto… E ainda cantei com elas músicas da Mary Poppins. A mãe anda a dar-lhe filmes altamente para ver!

Eu sou assim. Sempre a somar pontos pela aleatoriedade.

Já não vou voltar a vê-las — elas estão mais restringidas em termos dos sítios onde ficam, uma vez que procuram um pouco mais de privacidade e andam menos por dia. Despedi-me delas com pena. Imagino a Skye adulta, a lembrar-se da adventure que teve com a mãe. E pode ser que se lembre de mim quando ouvir a música do espantalho do feiticeiro de Oz.

Acordamos em Atapuerco, que é património da humanidade por causa dos achados arqueológicos que contém. Depois foram 20 kms até Burgos.

Em Altapuerca, após um pequeno-almoço tardio no único supermercado do local

Em Altapuerca, após um pequeno-almoço tardio no único supermercado do local

Estamos numa pensão desta vez. É um pouco mais cara mas podemos entrar mais tarde hoje a noite. Vamos andar pela noite fora guiados pelo espanhol. Burgos é muito bonita, é uma das grandes cidades por onde passa o caminho.

Burgos

Burgos

Estou num bar com um suíço, um coreano, uma italiana, um checo, uma alemã e um alemão. Parece o início de uma anedota.

2015-04-26 03.01.58

26 de Abril

Hoje andámos pouco. Todos precisávamos de recarregar baterias… E acordamos bastante tarde. Fomos visitar a catedral, é fantástica.

Catedral de Burgos

Catedral de Burgos

Depois tivemos 11 kms feios por entre a lama. Não há problema. Amanhã há mais.

À saída de Burgos: desvios pela lama, linha ferroviária. Disse o hospitalero este adágio --

À saída de Burgos: desvios pela lama, linha ferroviária. Disse o hospitalero este adágio — “En Burgos no hay más que dos estaciones: el invierno y la estación del ferrocarril”

A cada momento do ano, há alguém a começar o caminho do zero. Há alguém a sofrer imensamente nos últimos quilómetros do seu dia inaugural – há quem sorria, há quem chore. Há alguém a fazer um novo amigo. Alguém com frio, na neve dos Pirinéus, e com calor, nas planícies de Espanha. Há alguém a aprender a sua primeira palavra numa língua nova. Alguém que desiste. Outro alguém a falar com a sua família, desejoso de voltar para eles. Alguém em lágrimas a chegar a Santiago. Alguém a entrar nas urgências de um hospital. Alguém com outro alguém, escondidos por entre as camas, ligados sob os sacos-cama. Alguém a cozinhar para um grupo, outro só para si. Alguém a tentar dormir, a lavar a roupa, ou frustrado por não conseguir secá-la. Alguém a encontrar o amor da sua vida. Alguém a sonhar com casa. Bem, vou dormir.

27 de Abril

30 kms hoje. Em Castrojeriz.

Entre Tardajos e Castrojeriz

Entre Tardajos e Castrojeriz

Entre Tardajos e Castrojeriz

Entre Tardajos e Castrojeriz

Entre Tardajos e Castrojeriz

Entre Tardajos e Castrojeriz

Castrojeriz

Castrojeriz

Castrojeriz

Bem, foi estranho. Havia um ronco tão espalhafatoso que o pessoal começou a rir-se no dormitório. Esta é nova.

Ardem-me os pés. Furei as bolhas e pus betadine, é por isso. Hoje andámos 30 kms. Aprendemos muito sobre a holandesa. Ela pagou-nos uma rodada de cañas porque o rei do país dela, o Rei William, faz anos hoje. Diz que normalmente gastaria muito mais dinheiro, e que por isso não faz mal. Partiu de Harlem, estudou economia, e anda há 50 e tal dias. Só voltou a casa para uma entrevista de emprego e um casamento. Sentiu que precisava de voltar a ser como antigamente, mais divertida e feliz. Sente que já mudou muito no caminho e já o conseguiu. Vai gerindo os grupos com quem anda. É capaz de fazer 40 km para renovar ares de pessoal. Já esteve no Porto e em Lisboa, e uma seis ou sete vezes em Faro para provas de atletismo. Tem um dispositivo junto ao peito para afugentar cães, já o usou uma vez em França, pôs 3 cães a correr dela depois de correrem a seu encontro. Fantástico. Foking Tec-noroji, como diria o Joo.

Ouço outra vez o riso. Acho que é ela. Diz que no outro dia o ressonar de um sujeito era tão alto que atravessava os tampões dos ouvidos. Agora tem muito cuidado com onde se deita e marca pessoas. Afasta-se dos gordos e, se possível, vai para o meio das mulheres. É tudo uma questão de estatística.

28 de Abril

29 de Abril

Ainda vivo

Ontem não tive possibilidade de escrever nenhum e-mail. Digamos que depois de 46 kms torna-se muito complicado de pensar noutra coisa excepto na dor dos pés.

SantiagoGui-035

Não tínhamos inicialmente intenção de fazer 2 etapas numa, mas o Joo (sul-coreano) pediu-me para o tentar a meio do dia, quando faltavam 26, para nos reencontrarmos com outras duas personagens. Eu sabia que ia ser difícil, e não me enganei.

2015-04-28 14.02.00

A recuperar energias. Chocolate, Carimbo e Caña

Foi um dia muito estranho. Quando dissemos o que íamos fazer acharam-nos loucos.

A meio do fatídico dia de 46 km. Uma foto de despedida. Acabei por voltar a ver alguns

A meio do fatídico dia de 46 km

Despedimo-nos deles como se não os voltássemos a ver no Caminho –  o que pode acontecer, mas se torna menos provável, uma vez que fizemos duas etapas numa só. Fomos parando. Eu e o Joo parámos num albergue em Villamentero de Campos que era mesmo engraçado – demonstra a variedade que podemos encontrar. Era um albergue meio hippie, com várias casinhas pequenas dispostas por uma propriedade. Uma lua recortada da porta da casa-de-banho. Cães a dormir ao sol. Um bar enorme, cheio de cadeiras, algumas reaproveitadas de um cinema ou teatro. Não víamos dois objectos iguais, desde a louça reaproveitada, até à mobília remendada. As paredes estavam preenchidíssimas com assinaturas de todo o mundo. Atendeu-nos um sujeito australiano. Alto, escanzelado, cabelos grandes e brancos, dentes péssimos e um sorriso enorme. Disse que fez o Caminho uma vez e que gostou tanto deste albergue que resolveu ficar como hospitalero nele. Serviu-nos duas cervejas e foi preparar o jantar para a cozinha, separada do bar por uma cortina de contas. Antes de irmos, agradeci-lhe a bondade (…kindness) e ele disse que não me deu mais do que aquilo que recebe no Caminho.

2015-04-28 18.30.24

4 km depois, fizemos mais uma paragem antes dos 6 km finais, num café, onde um grupo que já conhecíamos de franceses de meia-idade estava a jantar. Bebi uma caña, falei c/ a mãe e o João via Facetime e depois os franceses souberam do nosso dia de 46 kms. Bateram-nos palmas.

“We are camino star”, disse o Joo. Ri-me. E depois concentrei-me para mais uma hora a andar.

Chegar a Carrión de los Condes foi um feito. Chegámos às 21h30, depois de andar desde as 8 e meia, parando muitas vezes. Não te preocupes mãe que não vou voltar a fazer nada deste género. Não tenho interesse nenhum em repetir a empreitada.

 

No fim do dia dos 46 km, já não podia dos pés. Como precisávamos de carimbar a credencial e tínhamos chegado às 21h30 a um albergue gerido por freiras, tentámos encontrar o carimbo. Percebemos que estava numa gaveta fechada à chave. Ora, o coreano não se deixou intimidar por isso. Com um clip, abriu a gaveta. Carimbámos todos a credencial e depois ele voltou a fechá-la...

No fim do dia dos 46 km, já não podia dos pés. Como precisávamos de carimbar a credencial e tínhamos chegado às 21h30 a um albergue gerido por freiras, tentámos encontrar o carimbo. Percebemos que estava numa gaveta fechada à chave. Ora, o coreano não se deixou intimidar por isso. Munindo-se de um clip, abriu a gaveta. Pasmados, carimbámos todos a credencial e depois ele voltou a fechá-la sem deixar qualquer traço…

Nisto, acho que vou chegar a Santiago um dia mais cedo, o que não é mau de todo.

Ontem à noite foi a primeira vez que tive de tomar alguma coisa. Não conseguia adormecer com as dores nos pés, e a sinfonia de roncos à minha volta não ajudava. Tomei um brufene, e depois tive de tomar outro. Sentia dores, até frio, mesmo com um cobertor extra. Foi muito violento.

A melhor parte foi o acordar. Acordei como novo. Não me doíam os pés! Um milagre.

À saída de Carrion de los Condes

À saída de Carrion de los Condes

Hoje foi um dia normal. Ouvi música o dia todo. Cheguei pelas 16h. A roupa está a secar.

Em Carrión de los Condes estava a meio do caminho para Santiago. Amanhã, a dada altura, devo passar a metade do caminho para Finisterra.

SantiagoGui-037

Hoje vou deitar-me mais cedo para recuperar totalmente. A partir de agora todos os dias vão ser dias fáceis, comparando com o de ontem.

Tenho conhecido muita gente mas isso vai ter de ficar para outro e-mail. Agora posso falar-vos da conversa que tive com o sul-coreano sobre o seu serviço militar, que surgiu quando eu reparei que ele nunca formava bolhas.

Fiquei pasmado. “Korea military is no people, only money. 2% die every year in military? No problem.”

Ele contou-me que o serviço militar obrigatório são 2 anos, e os jovens podem escolher 2 anos entre os 21 e os 30 anos, altura em que são obrigados a ir. Como seria de esperar, os horários são extremamente sufocantes. Têm dias de marcha de 40, 50 km, a ritmo constante, sem paragens, com 40 quilos em cima, que contêm comida, máscara de gás, arma…

Há quem chore, há quem esteja doente e queira parar, mas não se para, nunca. “No stop, no stop.”

Depois disto, acho que não tenho nada de me queixar.

E os cromos, como eu já ouvi, que se queixam do Dia da Defesa Nacional que temos, acho que mereciam ir dar um “passeio” de um dia à Coreia do Sul.

E parece que na Coreia do Norte o serviço obrigatório são 10 anos. O Joo riu-se. “Crazy people.”

30 de Abril

Estou em El Burgo Rañero, 32 km depois de onde ficamos ontem à noite.

SantiagoGui-040

Acho que se eles continuarem a querer fazer dias de 30 km eu vou separar-me deles e fazer o resto sozinho. Já começo a ficar farto de dias intermináveis. Mais de 25 km vou simplesmente deixar-me de fazer. Chegar desfeito aos albergues, tarde, sem tempo de sol para secar a roupa e sem tempo para escrever e descansar não é para mim.

E a verdade é que não me importo de começar mais cedo. Não me importo de acordar mais cedo do que toda a gente. Se me separar deles vou fazê-lo mais vezes, sem dúvida.

E estou farto que esperem por mim e de ter de perguntar se podemos parar. O grupo tem mudado tanto, acho que agora posso dispensá-lo de todo, já foi bom enquanto durou.

Não quero chegar a Santiago e estar à procura de um supermercado. Prefiro comer agora um menu num restaurante a comer uma francesinha às três da manhã na Póvoa num fim-de-semana qualquer.

Sim, hoje não estou de bom humor. Jantei tortellini que comprei no supermercado. 90% do que eu sei fazer numa cozinha é tortellini, e já é a segunda vez que o faço no caminho. Ando a evoluir: desta vez comprei queijo ralado e o resultado final já não ficou tão deprimente.

Amanhã secalhar já não vou estar tão escaldado com eles. Eu sei disso, sei também que não fazem por mal e que estão dispostos a ouvir-me e a levar-me em consideração. Mas por outro lado isto não é um casamento! Cada um vai a seu ritmo e não é por falta de amigos que eu faço o caminho.

Mãe mandei dois mails hoje. Um foi um currículo, para uma empresa de vídeo e publicidade. Outro foi por mail normal. Mandei o Dom Quixote para teu nome, numa caixa pelo correio. Tem outras coisas minhas… Deixa-me em cima da secretária do meu quarto sff. Ao lado da bandeira lunar do Pedro e do xixi do Indy no meu computador.

Não consigo ler o Dom Quixote. Não há tempo! O tempo em que não estou a definhar pela estrada estou a massajar os pés e a perguntar-me porque é que comecei isto. Fora de brincadeiras, a melhor parte em ter trazido o Dom Quixote foi poder perder 1,5 kg em mandá-lo para casa.

Agora estou no café em frente ao albergue, a beber um chá de chinelos, como um doente do manicómio local. Não há, agora que penso, muitas diferenças entre um peregrino moderno e um maluco. Um flagela-se sem motivo e diz coisas sem nexo, outro é um maluco.

Sim mãe hoje não estou de bom humor. Estou bem (os pés mandam cumprimentos), mas como pessoa sã que se preze, num mês tinha de haver um dia em que me ia apetecer mandar isto tudo para um sítio que eu cá sei.

E o raio do chuveiro cheirava a esgoto. Os albergues são assim, o oito e o oitenta — uns oficiais que cobram 5, 6, 7 euros e outros que são geridos por voluntários/amigos do caminho e que só aceitam donativos. Dá-se o que quer. Eu dou 5. Acho razoável.

Ui, isto é que foi um mail alegre né? Nada como deixar o pessoal descansado com um chorrilho de disparates.

 

Selfie do Joo. O Nori, o Joo, o Gerardo e eu! 376 km restantes

Selfie do Joo. O Nori, o Joo, o Gerardo e eu! 376 km restantes

1 de Maio

SantiagoGui-038

Hoje andei 20 kms e fiquei em Mansilla de las Mulas. Vai ser bom para me recompor. Amanhã vou até León, são outros 20 kms. Assim os dias são melhores.

Eles foram já até Leon. São malucos. Disseram-me que vão ficar lá mais um dia; assim eu reencontro-me com eles. E parece que alguns dos que ficaram para trás fizeram um dia maluco também– ou seja, vou reencontrar muita gente brevemente.

Acho que depois destes dois dias de 20 km vou estar como novo.

Hoje não tirei quase nenhuma fotografia. A paisagem era chuvosa, sempre igual a ontem… E as aldeias são todas iguais. Acho que depois de León o caminho vai variar mais e voltar a tornar-se interessante.

2 de Maio

Já tenho o mail original a funcionar! Obrigado Pedro.

Cheguei a León. Reuni-me com o grupo e ainda fiquei a conhecer mais uma espanhola e uma japonesa muito simpáticas.

À tarde creio que vamos conhecer a cidade e o jantar será comum. No hostel onde estamos não há hora de entrar, o que é óptimo.

Estou bem dos pés. Tenho algum receio de uma dor de ouvido ténue que tenho tido, por causa do vento e dos últimos dias que têm sido mais frios. Sou capaz de passar por uma farmácia e espero que no meu portunhol eles percebam que tipo de gotas me dar. Estou convencido de que com cuidado a dor de ouvido vai fazer como a dor do joelho direito e vão as duas esperar-me num bar da Galiza.

Mãe, reencaminhas este e-mail para a tia Laura, a tia Lena e o tio João? No mail que me mandaste com os mails deles esqueceste-te de pôr os mails deles, mas não há problema, manda-me outro que eu a partir de amanhã mando-lhes os e-mails. Estou a criar aqui uma mailing list considerável. Tenho de pensar em pôr aqui algum tipo de publicidade e até pode ser que recupere o dinheiro do caminho!!

Estou a brincar, é tudo família.

Obrigado por todo o apoio que me têm dado. Nos dias mais monótonos, menos soalheiros, são um consolo enorme, que me dá um pouco mais de força.

Ainda estou a cheirar a cavalo, tenho de tomar banho, tratar da roupa, massajar os pés, que mandam saudades. Não tenho fotos decentes hoje, tal como ontem. Chegar a León foi monótono. Percebo as pessoas que aconselham os peregrinos a apanhar um autocarro de Burgos para León e saltar esta etapa aborrecida.

Estou quase a acabar de escrever o primeiro caderno que trouxe, de um total de dois. Tenho anotado as nacionalidades das pessoas que conheço, as piadas que vão surgindo, etc. Há quem aponte coisas toponímicas, a morfologia do terreno, etc., eu acho que os livros já fazem um bom trabalho com isso — prefiro anotar as palhaçadas que vão acontecendo com as pessoas e as conversas fantásticas que tenho tido com todo o tipo de pessoas.

Por exemplo, uma americana chamada Patty com 6 filhos, a quem morreu o marido há pouco tempo, após 45 anos de casamento. Ela gostou de conversar comigo. Eu fiz-lhe uma lavagem cerebral sobre Fado e Portugal — a fazer a minha parte para salvar a nossa economia! Perguntaram-lhe se estava a fazer isto pelo marido. “Oh, no, he’s fine! I’m doing it for myself.”

3 de Maio

Olá a todos!! Se preferirem que tire o vosso e-mail desta lista ou que acrescente outro, digam-me. Não quero encher caixas de correio de trabalho! Por outro lado é muito bom ter a vossa companhia.

Feliz dia da mãe mãe!!

Ontem passeei por León à tarde e depois de comer qualquer coisa que o francês Marc-Antoine (prof. de história arábica, tem 30 anos) e o pai dele fizeram, fomos andar um pouco de estabelecimento em estabelecimento a comer tapas. León, tal como Burgos, tem muito movimento à noite. Foi agradável — e estávamos em frente à catedral quando à meia noite cantámos os parabéns ao Gerardo, o espanhol de Valladolid que está a trabalhar no Canadá — e embora tenhamos cantado ao mesmo tempo cada um usou a sua versão. Sul coreana, italiana, francesa e portuguesa.

2015-05-02 23.39.50

Catedral de León

À tarde passei por uma farmácia e expliquei o que tinha no ouvido. Deram-me um calmante em gotas e disseram que se tivesse muitas dores para tomar brufene — e que era melhor ver um médico ao chegar a casa. A dor era ténue apenas, nada de mais, mas com as gotas já deixo de reparar nela. E o responsável do espectacular hostel em León deu-me hoje algodão para tapar o ouvido do frio e vento.

Uma italiana deu-me a conhecer a homeopatia. Homeopatia? Só me vinha à cabeça o Homeopatix, um druida médico dos livros do Asterix. Na Wikipédia vi que não era uma medicina muito standard e comprovada, mas para ela não ficar chateada comigo, pus uma espécie de mini-rebuçados debaixo da língua e fiz-me ao caminho. Não devo ter disfarçado muito bem o meu cepticismo!

Antes de sair de León encontramos a Leslie e a Skye. A Skye tinha saudades minhas. Elas apanharam um comboio para León porque a Leslie precisava de comprar um impermeável para a Skye urgentemente.

Eu, a Sky e a Leslie. Foto do Nori

Eu, a Skye e a Leslie. Foto do Nori

O dia correu bem, porque estava em boa companhia, porque foi mais uma vez cinzento e monótono, com algumas visitas da chuva.

Tenho caminhado com o Marc-Antoine e o pai (que só fala francês mas conseguiu explicar-me que uma vez foi ao Porto dois dias, no primeiro foi fazer degustação de vinho do porto e por isso não se lembra do segundo), com o Gerardo, com o Joo (sul-coreano) e também o Nori (japonês que já viveu em Barcelona).

A tropa

A tropa

A certa altura, estava eu a sair de um café à face da estrada e a apertar a mochila, reparei que o grupo estava a aglomerar-se junto a um camião.  “Look!! Your truck.”

Olhei para o camião. Matrícula portuguesa. Nossa senhora de Fátima XXL no tablier. Uma medalha enorme com as cores da bandeira portuguesa, e uma chapa grande tipo matrícula em frente ao lugar do condutor, que em letras garrafais dizia “LUÍS MENDES”.

Vi um sujeito de barriguinha a aproximar-se, vendo gente a olhar-lhe para o veículo. “É seu?”, perguntei. Relembro que não vejo um único português desde que saí do ex-sudexpresso em Hendaye. Ele riu-se e abriu os braços —

“Foda-se, um português!!”

Tenho de confessar que este foi o “foda-se” mais agradável que já ouvi. Ele percebeu que eu ia a Santiago, desejou-me boa viagem e eu fui embora a rir-me.

Chegámos bem a San Martin del Camino. Dois cafés, um com Wi-Fi e outro sem, com velhotes a jogar à canastra nos dois. O supermercado misteriosamente fechado, e eu sempre a olhar para o céu a ver se chove — e me molha as meias de amanhã.

2 bares, um de cada lado da rua. Um não tem Wi-fi e o outro tem uma palavra-passe que é literalmente isto:

jB4oMhpRmT29MYIbRtpX

(…filhos da puta!!)

Jantei com o Joo, o Gerardo, Nori, o Marc e o seu pai. O Marc cozinhou esparguete. Falámos de países, de diferentes comidas, de serviços militares.

4 de Maio

Em Astorga, à espera da minha vez para usar a máquina de secar. Se não a uso estou lixado. Já só devem faltar uns 45 minutos, mas eu tenho com o que me entreter.

A caminhada de hoje foi muito chata. 24 km naquilo que parecia um aquário. Choveu o dia todo, e a lama cansa imenso, porque o pé desliza e cola, e nunca estamos safos de ir de cara para o chão e fazer uma máscara artesanal. Mesmo com impermeável e protecção para a mochila, molhei-me até aos ossos. Como se isso não bastasse, a certa altura pus-me a ouvir um best-of da Marisa e começou a dar a música “Chuva”.

A chegar a Astorga

A chegar a Astorga

Faz-me lembrar o americano de Houston, Texas que conheci. Muito simpático! Estava todo empenado, coitado. Contou-me que recebeu uma mensagem de um amigo que dizia “quando voltares, vamos dar um passeio a pé para me contares tudo”.

Ele respondeu ao amigo, “Haha, you’re so funny.”

Riu-se com a minha imitação do Forrest Gump. Eu perguntei-lhe que lugares ele recomendaria dos EUA a um turista. Ele respondeu categoricamente New York, San Francisco e Boston.

Fomos a um restaurante de Astorga que o espanhol nos recomendou. Comemos um prato que só não era exactamente o cozido à portuguesa porque não tinha legumes. Estava muito bom. Depois do prato comemos algum grão-de-bico com legumes, depois disso a sopa, e depois a sobremesa. Ele explicou-me que a ordem vinha de tempos de guerra — comiam o mais substancial primeiro porque não sabiam quando iam entrar em combate.

Casa Maragata, cocido maragato!

Casa Maragata, cocido maragato!

Hoje não sei o que mais escrever. Tenho pensado muito mas a maior parte do que penso não se escreve. Ah — ri-me muito ontem à noite quando o cromo do sul-coreano nos explicou porque é que fez o serviço militar. Ao que parece ele não precisava de o ter feito!

Aos 18 anos, estava ele a andar de mota quando um bêbado de carro o atingiu e o mandou direitinho para a cama de hospital durante um ano. Aos 21, todo remendado, podia usar isso como desculpa válida para não ir ao serviço obrigatório de 2 anos! Mas não quis. Quis ser homem!! E alistou-se voluntariamente naquilo a que ninguém quer ir. Toda a gente lhe chamou de doido, incluindo a mãe mas excluindo o pai — que estava muito orgulhoso.

O cromo não precisou sequer de 2 semanas para perceber o enorme erro que tinha feito. Mas já era tarde! Tinha 2 anos de inferno pela frente.

“Stupid! Stupid! Stupid!!”

5 de Maio

A caminho de Fontebadón

A caminho de Fontebadón

Mais 25 km e eis-me em Fontebadón. Amanhã é sempre a descer até Ponferrada, 26 km acho eu. Hoje o tempo estava muito melhor, pelo menos a princípio. Foi muito agradável! Parti primeiro que eles de Astorga e andei algumas horas até se cruzarem comigo.

(Já que falei em Astorga — o cozido regional de que falei ontem chama-se cocido maragato, e recomenda-se na Casa Maragata.)

Depois as horas foram avançando e devo dizer que não cheguei àquele estado de cansaço trágico dos outros dias. Com o tempo melhor, mais quente e menos chuvoso, e com uma paisagem muito mais colorida, fui alegremente dando um passo atrás do outro. As nuvens pareciam algodão.

E curvas no caminho! Benditas curvas. Com as curvas distraímo-nos e as horas passam melhor — houve um dia anterior em que andei, sem exagero, 45 minutos na mesma recta de alcatrão! Já me estava a espumar quando a acabei, só para descobrir que tinha outra igual a seguir.

Hoje não. Rasgámos por entre montes, arrefecemos pelas sombras das aldeias e penámos por subidas cheias de cascalho, intercalando entre sombras de nuvem e um sol tímido — antes de chegarem os aguaceiros que duravam aos 2 minutos de cada vez e não molhavam ninguém.

Após Astorga

O albergue de Fontebadón é muito humilde. Poucas camas, uma casa de banho com duche para cada sexo, e um hospitalero voluntário que nos faz o jantar e o pequeno-almoço se quisermos. Tudo isto somos levados a considerar ao escolher o donativo — porque não há tabela de preços, damos que achamos justo.

Chegou o suíço! Neste momento na sala de jantar do albergue há duas raparigas coreanas a cortar legumes. O coreano a secar a roupa no aquecedor. O francês e eu à espera de ordens. Músicas aleatórias a passar numa aparelhagem à entrada. Estava no quarto e presenciei algo espectacular. Roncos ao som de Vangelis! Épico. Acho piada a albergues pequeninos como este, meio improvisados. Há aqui muito carinho. Fotos de peregrinos na neve, um maço delas em A4. Bonecos de neve… deve ser terrível peregrinar no Inverno. Uma fotografia da catedral de Santiago. Mais fotos de grupo.

Mais uns dias e vamos entrar na porção do caminho francês que já fiz duas vezes com o Colégio Luso-Francês do Porto. A convite de um professor meu muito especial que nos dava mundividência cristã na Universidade Católica, em Som e Imagem, fui com alunos do 7º ao 12º fazer os últimos cento e poucos km do caminho francês.

A primeira vez que fiz isso foi um choque de todo o tamanho. Um abanão terrível, na altura em que estava mesmo em baixo de forma e não sabia no que estava a meter. Mas isso fica para outro e-mail. Vai ser giro relembrar os sítios por onde passei.

Como disse ao meu professor por e-mail há alguns dias, de Sarria a Santiago tenho-o comigo, mais centenas de alunos do Luso-Francês e uma dúzia de professores e pais da casa.

Até lá tenho-vos a vocês todos, mais um sul-coreano, um japonês, dois franceses e um espanhol.

 

6 de Maio

Estou em Ponferrada. Hoje andei qualquer coisa como 26 kms, e posso afirmar que foi dos melhores dias que já tive a caminhar de sempre.

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Estou neste momento num café cheio de velhotes a jogar as cartas em mesas de feltro. Os pés a descansar nus, um sobre o outro, sob a mesa onde a minha caña morre. Já tomei banho e a roupa seca ao sol. Dentro de uma hora passam por aqui para me apanhar para irmos ver o castelo.

Dormi com frio, ainda que ensalsichado no saco cama e ensanduichado por uma manta. Tive preguiça de ir buscar outra. Às seis e meia o hospitalero pôs música a dar e abriu a porta. A mensagem era clara. Comam e ponham-se na alheta antes das 8!

Mas o corpo já se habituou a essa rotina. Esse mecanismo já passou para o hábito, e o conforto de casa a uma memória. Nos primeiros dias, em que se verificava o contrário, as coisas eram mais difíceis, e mais tarde, quando eu voltar a casa, até as coisas mais básicas vão parecer prendas de Natal. Roupa seca?! Obrigado!! Lençóis?? Oh, vocês estragam-me com mimos.

Saímos e estava muito frio. O coreano disse-nos que Foncebadón é a aldeia mais alta de Espanha. Podem ver pelas fotografias os sinalizadores/níveis da neve pelo caminho fora.

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Subimos um pouco pelo cascalho e alguma névoa, e fomos presenteados com paisagens generosas. Foi um deslumbramento. Andar assim é fácil. Os pensamentos sobem, o olhar não se prende ao chão.

Quando parávamos para um café ou comer qualquer coisa nas aldeias ainda sabia melhor. Foi indescritível. Ainda que tenha apanhado umas poças aqui e ali, e subidas e descidas em rocha inconstante. As botas valeram o seu peso em ouro, assim como quase tudo aquilo que trouxe. O engraçado é que já se estejam a estragar, por dentro, sob os pés. Parece que os meus pés são mais fortes que as botas.

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Ouvi muita música portuguesa, quando não estava a conversar com eles. Carminho, Mariza, Fausto. O caminho permite-me ouvir álbuns na íntegra, e pasmar-me com a escrita fantástica das canções.

Sinto-me extremamente orgulhoso por ser português e feliz por isso!

Ontem expliquei ao francês três palavras portuguesas essenciais. Fado, saudade e desenrascanço. Disse-lhe que se houvesse um super-herói português, o seu nome era Toni e essa era a sua habilidade especial!

Ele explicou-me expressões francesas, e eu ri-me que nem um perdido. Il pleur comme vache que pisse — chove como uma vaca mija. Faut pas pousser mamie dans les ortier – não mandar a avó às urtigas! (o sentido desta é interesseiro –Tratar bem da avó porque senão lá se vai a herança…). Para uma moça jeitosa: J’ai souvent vu des avions de chasse mais celui la me fait mal au coeur — já vi muitos aviões de caça mas este ataca-me o coração.

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A chegar a Ponferrada

Mais uma que me desmontou a rir. Há alguns dias perguntei ao coreano se era mito que os chineses comiam cão.

Ele disse-me que não, que uma minoria chinesa e mesmo coreana achava saudável comer cão. Ora, alguns dias depois, depois de uma pausa para reabastecer, eu andava a mostrar fotos do Indy ao pessoal. Ele abanou a cabeça–

“No thanks, i’m full.”

Tiveram de me ajudar a levantar do chão do tanto que me ri.

Já só faltam 200 kms! Depois mais 90 para Finisterra.

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A Cruz de Ferro

7 de Maio

[…] Nisto, chegámos a um café onde estava uma rapariga que em Astorga eu ajudei, falando em espanhol por ela ao hospitalero. Perguntei se estava tudo bem, ela foi simpática […]

Alemã, enfermeira numa ala de neurologia e psiquiatria, 23 anos, vive perto da República Checa, ruiva, bonita, tem tido problemas no joelho. Falámos sobre neurologia – tudo o que vou sabendo um pouco – Parkinson, sobre a memória, o sono, o que fui lendo. Foi interessante, acho que a pus a pensar no que faz de forma diferente (pelo que me disse). Fiquei contente. Depois parámos num café e aí percebi que os nossos caminhos iam-se separar. Ela tinha de parar já, e se eu o fizesse, ficava a uma distância impossível do resto do grupo. Ela parecia genuinamente triste, mas não me pediu para ficar, ou considerou avançar […] Trocámos e-mails, tirámos umas fotos. Acabámos em muito boa nota, e e eu fui alguns kms a pensar na decisão que tinha feito. Ou continuava com eles e talvez não a voltasse a ver, ou ficava com ela e perdia-os de certeza.

Continuei com eles.

O Joo perguntou-me porque é que tinha gostado de uma gorda.

Ri-me.

Hoje foi mais um dia bom! Não tenho muito para vos escrever hoje, talvez por esta vez deixe as fotos falarem por mim. Também mando fotos da visita que fizemos ontem ao castelo de Ponferrada.

Mãe e pai já tenho o carregador de iPhone. Crise evitada.

Um beijinho e um abraço a todos

Espera! Afinal vamos andar mais 5 kms. Quanto mais andarmos hoje menos andamos amanhã, que terá uma subida difícil até O Cebrero. Não há problema.

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Ponferrada, vista do castelo

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O castelo

8 de Maio

Já estou em O Cebrero. Lindíssimo!

A chegar a O Cebrero, lindíssimo

A subida, ainda que enlameada e pedrada, não foi tão difícil como eu esperava. Nem me doem muito os pés; cheguei num estado invejável. Já não pareço um Quasimodo a subir escadas! Tomei banho e a roupa está aos tombos na máquina. Máquina de lavar — e com detergente automático!! Wow! Só faltava tirar cafés.

O albergue de O Cebrero dá para 100 peregrinos e as condições são excelentes. Só não tem internet, o que era a cereja no topo do bolo, no topo da montanha, a uns míseros 150 kms de Santiago.

Já agora — e como poderão ver pela fotografia, já entrei na Galiza.  Depois de França, e das regiões da Navarra, La Rioja e Castilla y León, eis-me entre nuestros hermanos gallegos, na última etapa da odisseia do Peugeot Lapatte de 26 anos.

Na Galiza!

Na Galiza!

Hoje ri-me com o espanhol a descrever um peregrino independentista da Catalunha que conheceu, meio avariado da cabeça. “Eu sou contra a independência, mas tenho amigos próximos independentistas e não há problema nenhum com eles, mas este em específico é um cabrón hijo puta! […] A Catalunha não quer ser independente. Lá vivem 8 milhões de pessoas e entre eles, um milhão quer ser independente. Só em Espanha!”

Creio que amanhã me vou separar do grupo. Esta última fase quero fazê-la ao meu ritmo… Foi uma experiência espectacular estar com eles mas agora preciso de tempo para mim. E já me ofereceram estadia e visita guiada no Japão e na Coreia do Sul! Oh pá. É uma pena que os bilhetes sejam um balúrdio, senão era já. Tenho guia local para Tóquio, Osaka, Quioto, mais a Coreia!

Ontem falámos muito sobre a China, as Coreias, o Japão… Tenho aprendido muito. E se houve coisa que ficou claro, é que tanto o japonês como o coreano viajaram e viajam e vão viajar muito e não têm vontade nenhuma de ir à China. “Tanto para visitar, porquê a China?” Curioso!

9 de Maio

A caminho de Triacastela

A caminho de Triacastela

Já estou em Triacastela!

Hoje foi mágico. Descendo sem pressa, alternando entre sol e sombra, por entre caminhos cuidados, muros de pedra bonitos, uns cães a dormir satisfeitos, outros felizes a conduzir vacas pelo mesmo caminho que faço — e que pacificamente o partilham comigo lado-a-lado.

A caminho de Triacastela

Adoro cães... especialmente cães felizes

Fontes vão adornando as esquinas, e a água corre por entre as pedras das aldeias que, enfeitiçadas pela siesta, vão surgindo a par e passo, e quando vive gente na rua, são pacatos que nos cumprimentam. As pessoas a falar fazem cada vez mais lembrar o português da Póvoa! Perguntei a um velhote se já tinha feito o caminho.

“Sí, de coche.”

Amanhã, Sarria.

10 de Maio

“Portugal es Galicia libre!”

Disse-me isso um espanhol quando eu comentava o quanto me sinto em casa na Galiza.

Hoje foi mais um dia exemplar, como ontem… Nem sequer ouvi música, fui o caminho todo a desfrutar.

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Estou em Sarria, onde comecei o caminho as duas primeiras vezes que o fiz. Amanhã cruzo os últimos 100 kms até Santiago!

Há diversas perguntas que todos os peregrinos fazem e que todos tiveram de responder pelo menos uma vez.

1) De onde és? 2) Onde começaste? 3) Em que dia? 4) Onde pensas acabar?

O americano, religioso, cantor e escritor de anteontem ao jantar, Michael, pergunta às pessoas qual é a memória mais antiga que têm. Um sujeito respondeu-lhe que tem uma memória nítida da morte do irmão, quando tinha apenas 1 ou 2 anos de idade […]

21:15 – Agora estou deitado no albergue público de Sarria. Cama 3, dormitório A, e li uma inscrição nas tábuas do beliche que me fez rir.

“Tu vida es una puta mierda y tu lo sabes”

Foi a primeira inscrição que me provocou uma reacção emocional. Como seria a pessoa que escreveu isto? Claramente dormiu nesta cama. Estaria farto, como eu estou, de todas as frases vagas e pretensiosas que inundam o Caminho? […]

Os australianos que conheci logo no 1º dia a caminhar sentaram-se comigo. Quase não me reconheciam, após ter rapado o crânio. A Hisako teve de passar a mão pela minha careca duas vezes. “Oooohh! Ooooh!” porque é que os orientais estão sempre a fazer “Ooohh!”?? Epá, a cara de espanto chega, ou o 1º “Ooohh!”.

Passou por nós a holandesa. Vinha airosa. É gira, voluptuosa. Abraçámo-nos e ela passou a mão pela minha careca. Bem, isto está a tornar-se um fenómeno. Vou começar a cobrar.

TU VIDA ES UNA PUTA MIERDA Y TU LO SABES

11 de Maio

Hoje a cigarra ganhou à formiga. Fiquei na cama até às 7 e meia.

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À saída de Sarria

Não seria problema se só fizesse os 22 kms planeados para hoje, mas eu quis avançar mais um pouco, para aliviar os últimos dias e poder chegar a Santiago sem ter muitos kms nas pernas nesse dia. Gostava de dormir no Monte do Gozo na noite anterior — a 5 kms do destino; mas para isso tenho de fazer trabalho de casa.

Quando cheguei a Portomarin, fi-lo na companhia de um brasileiro. Elder, 57 anos, engenheiro — há 30 que queria fazer o Caminho, mas nunca teve oportunidadji.

Eu e o Elton junto a Minho, a chegar a Portomarín

Eu e o Elder junto ao Minho, a chegar a Portomarín

É simpatiquíssimo, cómico. Tal como eu, pôs mais 7 kms em cima de Portomarin.

Ora, hoje estava um dia muito, muito quente. Julguei que pelas 5 já fosse abrandar a dose, e nem me lembrei de verificar a água que tinha. Conclusão, 7 kms de forno e crescente sede. Quando cheguei a Gonzar bebi água como nunca antes, e jurei para mim mesmo nunca me pôr numa situação semelhante. Mãe não te preocupes, a situação não foi grave. Passei muitas vezes por uma estrada frequentada e teria pedido ajuda se fosse necessária.

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Sem água…

E como se não bastasse, por ter preferido vir para uma aldeia mais pequena, dei com o albergue cheio! Lá me deram uma cama, que reservam para deficientes acho eu. Um australiano a seguir a mim também teve essa sorte. Se surgir outro já não tem hipótese.

Conclusão, amanhã acordo às 6.

Começa a ser gente a mais. Grupos. Famílias. Putos a ziguezaguear à minha frente, que me desconcentram. Não há problema com pessoas a velocidade constante! O problema são aqueles que exigem atenção, e me interrompem as ideias.

Epá. Estava a jantar e o brasileiro veio ter comigo. Enquanto bebia o seu Mate (chimarrão, uma coisa da qual eu nem ideia fazia — uma espécie de cachimbo de chá, que parece que no Rio Grande do Sul no Brasil e no Uruguai é muito popular) desatou a contar uma história. Eu não percebi a princípio onde é que ele queria chegar. A moral da história é

“Boa sorte ou má, só o tempo o dirá”

Falou no facto de eu o ter conhecido. Boa sorte!

Falou no facto de eu ter chegado e não ter encontrado um lugar. Má sorte.

Depois foi entrando pelo pormenor de ele me ter ajudado a encontrar um lugar, porque tinha metido conversa e era amigável com as pessoas. Boa sorte.

Depois falou no australiano que ficou no mesmo quarto que eu. Má sorte.

E eu, “má sorte porquê?”

Ele riu-se, enquanto despejava mais água quente (mas não a ferver!) do seu termos para a cabaça do Mate.

Parece que o australiano é o terror entre os peregrinos. “O cara é famoso!”O maior roncador deste lado do Kansas. Há quem considere ir para outro albergue só para o evitar. Internacionalmente conhecido (todos o conhecem), o ressonar dele é uma arma de destruição maciça que atravessa paredes e deixa crianças órfãs. Os brasileiros que estavam atrás de mim meteram-se na conversa.

“Cê está falando do Roncador?”

Eram testemunhas vivas da força do ressonar dele a dois quartos de distância.

“Aqui o meu amigo Guilherme vai dormir sozinho no quarto com ele.”, disse Elder, sério.

Olharam para mim como se eu estivesse no corredor da morte.

Eu ri-me. Bem, boa ou má sorte, só o tempo o dirá. Depois lembrei-me de ter falado com o John (sim, o Roncador Implacável tem nome) a respeito da hora de acordar e ele avisou-me do seu problemático ressonar. Eu disse que não havia mal, que eu dormiria através de uma tempestade, especialmente após o dia que tive hoje. Ele fez uma expressão que só agora eu percebo. Foi do género “pobre coitado, não sabe o que diz.” Perguntei-lhe, uma vez que era tão grave, se tinha considerado alguma forma de o tratar, e nisto perguntei-lhe se era casado. Ele olhou para mim com a sua careca resplandecente.

“Two ex-wives.”

Estou na cama. No mesmo quarto que eu, está um australiano chamado John. Ele já dorme. Está debaixo de mim, como é que eu sei que ele dorme? Bem – ele ressona. 

12 de Maio

Hoje acordei às 6, e levantei-me sem procrastinar. Contrariamente ao que os meus chapas Elder e Eberton esperavam, o Super-Roncador não fez mossa no meu sono. Foi um espectáculo de sonoplastia, contudo! Os roncos dele tinham uma amplitude invejável. Uns pareciam um tractor atolado, outros uma batedeira a fazer claras em castelo, outros um motor de barco a arrancar. Havia roncos introspectivos, roncos interrogativos, roncos declamativos, e de vez em quando dois roncos punham-se a conversar, à espera de outros dois para uma partida de sueca. Foi fantástico. Não resisti a pegar no meu microfone portátil e gravar para a posterioridade — se alguém por algum motivo obscuro precisar de ficar acordado uma noite eu posso mandar-lhe o som por mail.

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Pus-me a andar ainda escuro. O dia aqueceu muito, e à medida que foi aquecendo eu fui parando mais. Foi bonito, mas nada como alguns dos dias que já tive.

Estou em Melide! Famosa pelo polvo, ou pulpo, e como gastrónomo ferrenho que sou, estou a comer uma pizza. Faltam-me uns metros para o albergue mas eu mando já o mail, aqui na Galiza não acham que os peregrinos mereçam internet no albergue. Onde é que já se viu! O que diria Tiago?

São cinco e meia. Estou a comer já para ficar jantado. Não tenho tido paciência para ir a supermercados. Há um limite para a quantidade de vezes que uma pessoa pode comer tortellini no mesmo mês.

A fotografia de mim junto a um rio que enviei ontem era com o mui nobre rio Minho! Assusta-me o que já andei, desde St. Jean-Pied-de-Port. Os pés não doem nem um bocadinho! Resignaram-se à sua condição inferior. Ou isso ou estão a congeminar um sindicato para se manifestarem mais tarde.

Um momento alto de hoje foi passar por Palas de Rei, onde fiquei com o colégio Luso-Francês duas vezes. Mando duas fotos que me são sensíveis — uma de uma árvore e uma outra de um ginásio. Dormi no primeiro ano no chão do ginásio, em colchões de espuma.

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No segundo ano, o professor sentou-se junto a essa árvore, no centro de mais de cem alunos, eu incluído, e tocou guitarra. Todos cantavam, a maior parte sabia as canções de cor. Canções religiosas, lindíssimas — mas a mais cantada era a “um pouco de céu”, da Mafalda Veiga, que resumia o sentimento comum a todos, e que eu comecei a ter após voltar a casa.

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Palas de Rei

O professor ajudou-me muito a abrir os olhos — ainda que eu não me considere religioso. Há muito a aprender nas religiões, e se fecharmos os olhos a elas por não partilharmos da sua fé, estamos a perder uma grande parte da riqueza do mundo novo e antigo. Os brasileiros e americanos passam-se quando entram em igrejas românicas! Mais velhas que o país deles. A riqueza humana que provém da religião é fascinante. Custa-me dizer que não sou cristão, embora isso seja tecnicamente correcto — custa-me porque os meus valores são cristãos.

Admiro a religião, não partilho da fé, e estou alheio à Igreja — mas tenho muito respeito pelos três. É curioso que, fale com quem fale, religioso ou não, os pensamentos que eu partilho vão de encontro aos deles, e já me elogiaram a sua lucidez.

Pode ser que isso me perdoe a ignóbil vez, em Fátima, em que me enganei no nome da Jacintinha e lhe chamei Jaquinzinha.

13 de Maio, quarta-feira

Sexta-feira chego a Santiago. Está mesmo quase.

O sono desta noite foi reparador, algo de que muito precisava após os 30 kms de ontem. Hoje não estava muito motivado para andar, por isso descartei os 25 que tinha programados e só galguei 15.

Estou em Arzúa, o que me obriga a repartir entre amanhã e sexta aproximadamente 40 kms. Eu podia andar dois dias pacíficos de 20 — mas amanhã, acordado bem cedo, já mais recomposto e com outra motivação (que eu já explico) tenho a certeza de que vou andar uns bons 30. Quem sabe 35, e entro directamente para as urgências do Monte do Gozo. No dia seguinte era só deixar a minha maca rolar pelo monte abaixo até à praça do Obradoiro.

Porque estou tão contente? Ora, andar sozinho é libertador. É uma consolação para o corpo. É uma oportunidade espectacular para pôr o pensamento em dia. Ouvir muita música (estou a meio da discografia dos Pink Floyd!), acordar mais cedo se quiser, chegar mais tarde se me apetecer…

É, também, ao final de alguns dias, uma tremenda seca.

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Talvez por isso tenha tido menos motivação para andar hoje. O alento que tinha era o de chegar a Santiago e lá ter o meu amigo Sérgio para principiarmos a viagem até ao Fim do Mundo Plano — Finisterra e Múxia.

Mas hoje recebi uma mensagem do japonês, e para meu espanto, eis que descubro que o resto do grupo vai ficar mais uma noite em Santiago.

Ou seja, vou revê-los. A todos! E vou com eles e com o meu amigo até Múxia. Está bem que eles andam muito, mas eu posso com isso! Já tive o meu momento a sós.

Não caibo em mim de contente. Só tenho tido sorte. Sorte pela tremenda oportunidade de fazer isto, sorte pela forma como está a correr, sorte pela família que tenho, pelos meus amigos de sempre, e pelos meus amigos do Caminho.

Amanhã vão ser os 35 km mais rápidos que já fiz na vida.

14 de Maio

Acordei por volta das 6 um pouco menos motivado. Depois do e-mail de ontem percebi que eles não iam ficar mais um dia em Santiago afinal de contas.

Mas não fazia mal — pus-me ao caminho, ainda focalizado nos meus 20 a 35 kms para hoje. Fui ouvindo os álbuns dos Pink Floyd por ordem, e o tempo foi passando — passou de uma névoa chuvosa a um dia soalheiro com nuvens, nada quente. Nisto andei quase 20 kms, e pensei para mim mesmo,

“Porque não?”

Conclusão — hoje andei 40 kms e já cheguei a Santiago. Deitei-me no Obradoiro pelas seis da tarde, com os pés a arderem dentro das botas — e pedi a gente que passava para me tirar a fotografia.

Assim que cheguei a Santiago

Assim que cheguei a Santiago

Estou a jantar. Depois vou para o albergue público, que suponho ter um lugar para mim.

Acho que amanhã vou acordar mais contente do que estou agora. Vi gente a chorar à chegada. Não foi tão emocional para mim. Santiago não me diz muito. Fiquei contente.

Mas continuo com dores e a cheirar a cavalo.

Implorei para me porem o nome em português no certificado, e eles lá o fizeram. 770 kms. Mãe, ao contrário da minha foto de Belém, este certificado podes emoldurar.

A comida está a ficar fria. Talvez amanhã vá à missa do peregrino — só porque sim.

Beijinhos a todas e abraços a todos. Amanhã começo a andar para Finisterra, e pode ser que com a multidão de Santiago longe eu comece a aperceber-me de que a viagem está a chegar ao fim.

E vou reencontrá-los! Isso é uma certeza agora — e um prémio maior do que um carimbo e um papel.

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15 de Maio

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Santiago, visto do Seminário Menor

Já estou em Negreira, e com o meu amigo da Póvoa mais o grupo.

Não tenho muito tempo, porque chegámos tarde — temos meia hora para comer e regressar ao albergue, onde não tenho net.

Eu prometo escrever um e-mail mais completo para amanhã!

16 de Maio

Ontem foi um dia enorme.

Acordei mais que reconstruído, pelas 8 e meia. Fui lentamente fazendo a barba (e a cabeça!!) e arrumando as coisas. Depois, caminhei do Seminário Menor até à parte mais antiga de Santiago, onde comi o pequeno-almoço nas calmas. Fui até à catedral, cruzando as ruas tão medievais, reencontrando pelo caminho peregrinos acabados de chegar. Uns nem me reconheciam, com o cabelo rapado — outros irrompiam logo num abraço.

É uma sensação muito boa encontrar peregrinos por entre a multidão de turistas. Mesmo que só nos conheçamos de vista — o sorriso é retribuído e vale algo.

Disseram-me que podia pôr a mochila nos Correios durante a missa, por 2 euros, uma vez que na catedral não pode entrar. Já vi a missa variadas vezes (e jurei para mim não a voltar a ver), mas era bom poder filmar a catedral com a câmara que trouxe. Assim o fiz — e porque já sabia ao que ia, entrei cedo para ter lugar sentado e entretive-me a escrever e a ler até ao meio-dia. Sim, no fim fizeram o bota-fumeiro — e o público fez o bota-o-telemóvel-a-filmar.

Mas pronto. Esta missa é mais um processo maquinal do Caminho. Vira o disco e toca o mesmo. E irritou-me. Gente sempre a falar à minha volta, a discutir durante 10 minutos sobre a importância de chegar cedo à catedral, e a fazer juízos de valor sobre as outras pessoas do grupo delas que chegaram tarde. A certo ponto só me apetecia pegar nos auscultadores e ouvir uma ária do Roncador Australiano.

É bom estar em Santiago mas não é o final espiritual que o Caminho merece. É burocrática, inundada de gente, cara, barulhenta.

Depois fui comer qualquer coisa e em menos de nada estava no Obradoiro à espera do Sérgio, que chegou com pontualidade.

Apresentei-o ao pessoal, e pelas três da tarde principiávamos os 20 km até Negreira. Foram cansativos, especialmente aquela subida famosa — e chegámos tarde. As minhas pernas pediam santuário.

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Fiquei contente com a estadia em Santiago. Foi funcional, concisa — já sei onde ir e não perder tempo. Não comprei nenhum souvenir e tive oportunidade de matar saudades sem alongar a visita demasiado.

É claro que, já a tendo visitado 4 vezes, sempre em peregrinação, ainda não sinto que a tenha visitado a sério! O último lugar onde um sujeito com dores nos pés quer estar é num museu.

Ah, e quando na missa pediam para nos pormos de pé, eu dava-me uma enorme vontade de rir. Fiquei sentadinho do início ao fim.”De pie.” É preciso ter lata!

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À saída de Santiago

Hoje foram 33 km entre Negreira e Olveiroa. Foram penosos e quentes — mas valeram a pena pelas vistas generosas. O Sérgio já se ambientou ao grupo. Estamos sempre a rir.

Em vez de fazer duas etapas até Finisterra, vamos já amanhã até lá, e no dia seguinte não andamos. É mais um sacrifício (34 kms) mas no dia seguinte podemos ir um bocado à praia, e divertirmo-nos com o grupo. Vai ser, sob um ponto de vista, o meu primeiro dia de “férias” desde que saí da Cruz Vermelha! E o final espiritual que a viagem pede. Estou ansioso para ver o mar. Será algures no dia de amanhã.

Depois, uma etapa até Múxia, e acabou.

17 de Maio

Afinal, hoje ainda não chegámos a Finisterra. Voltámos ao plano inicial de fazer as duas etapas — porque o meu amigo está com muitas dores e o dia está muito quente. Está a ser muito duro para o Sérgio, que apanhou com um dia de 20 seguido de um de 33. Já tem um pé em dores terríveis, joelhos também, e quando dói um pé o outro começa a doer assim que tentamos evitar a dor e fazemos outra posição.

Andámos 20; faltam 14 para Finisterra. Vi nas notícias que era praticamente Verão na Galiza; hoje foi mais quente que ontem e amanhã será mais quente que hoje. O que são óptimas notícias para lá passarmos um dia a descansar na praia.

O plano é acordarmos recompostos, muito cedo, e caminharmos ainda durante o escuro fresco. Chegarmos lá pelas 9h30 da manhã, decerto antes do resto do grupo acordar (isto se não ficou num albergue municipal e de lá foi posto a andar a essa hora).

Hoje vi o mar pela primeira vez no último mês. A vez anterior foi em França, ao andar de autocarro para St. Jean, passando por aldeias lindíssimas da costa. É uma visão muito agradável para quem passa tanto tempo a subir e a descer montes.

A caminho de Corcubión, vemos o mar pela primeira vez

A caminho de Corcubión, vemos o mar pela primeira vez

Estou mais que bem. Hoje vou poder pôr a roupa em dia e tentar comprar uns calções de banho, que estupidamente não trouxe. Deitar cedíssimo e esperar que o Sérgio fique melhor. Ele já me disse que se não melhorar do pé que torceu, de Finisterra a Múxia apanha um autocarro, o que acaba por ser a solução mais sensata.

Ao longe, o mar!

Ao longe, o mar!

Estou ansioso por entrar na água, e boiar durante uma eternidade. Se a água for fria como o raio, melhor! É só fechar os olhos e sinto-me em casa.

Corcubión, 17 de Maio, 20:46, Albergue, Beliche de baixo

AMANHÃ FINISTERRA!!

18 de Maio

Já cheguei.

Na última etapa, o cabo de Finisterra!

Na última etapa, o cabo de Finisterra!

O cabo de Finisterra é lindíssimo, e o tempo ajudou imenso. Quilómetro 0.00!!

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O fim do mundo

O “fim do mundo”

Afinal não vou a Múxia amanhã — ninguém fazia questão, portanto apanhámos um autocarro e um táxi para Múxia e amanhã de manhã vamos de autocarro até casa do pai do Gerardo, o galego.

Amanhã vai ser o descanso definitivo. Praia, finalmente. Vai ser tão estranho acordar e saber que não tenho de caminhar, e que ao fim do dia vou dormir a casa.

Acabou a caminhada. Peço desculpa pelo e-mail rápido mas a minha cabeça não dá para mais hoje.

Em Finisterra, à espera do autocarro que nos levaria a Cee, para lá apanharmos um táxi para Múxia

Em Finisterra, à espera do autocarro que nos levaria a Cee, para lá apanharmos um táxi para Múxia. Aí, despedir-nos-íamos definitivamente do Marc-Antoine (3º a contar da esquerda).

Quando voltar a casa escrevo um e-mail final, definitivo, mais sumarento e melhor pensado.

Beijinhos e abraços

… E obrigado

Gui

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Múxia

[Acabámos por não ir à praia. Estava mau tempo. Ficámos em casa do Gerardo até o meu pai nos apanhar. O Joo despediu-se do Gerardo em lágrimas. Depois o carro arrancou para Portugal e os sul-coreanos ficaram duas noites na minha casa a dormir (no quarto dos meus irmãos). Mostrei-lhes a Póvoa e a Vila do Conde, estivemos com muitíssima gente, e dois dias depois eu e o Sérgio fomos ter com eles à noite do Porto, onde me despedi fisicamente deles. Antes de voltar a casa, ainda seguiram para Lisboa, Espanha, França… E nisto, nunca mais me lembrei de enviar o e-mail que tinha prometido, e o momento de o fazer passou. Ah, quase me esquecia — o Joo conheceu o Indy — e não o comeu!]

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“Oooohhh!!”

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