Crónica

Livros e cães, cães e livros

Sua Inutilidade, o excelentíssimo príncipe dos Mesquitas, sempre em horário de experiente, imitava a esfinge de Gizé por entre as raízes da mesa e pilhas de livros por arrumar. Estávamos a reorganizar a estante da sala. Nós. O cão nem por isso.

Envolvido até ao ponto que conseguia, olhava-nos com a habitual expressão de quem está a ver o telejornal em russo. Por maior que fosse o seu esforço para compreender e ajudar-nos, contribuía pouco mais que zero. Livros e cães são — como dizê-lo? — profundamente, irremediavelmente incompatíveis. Há toda uma realidade de compreensão que os separa. Independentemente do quanto gostemos de cada um e desfrutemos da companhia de ambos, não há ali qualquer margem para reconciliação.

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Conto

Quadro macabro

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

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Crónica

Leishmaniose

Deparamo-nos com a ideia de não mais ver móveis arruinados. Comandos mordidos. Sofás babados. Escovas de dentes desfeitas e sapatos esventrados, já para não falar nos pães misteriosamente desaparecidos, entre outros géneros alimentares praticantes da arte da evaporação.

É economicamente apreciável, este fim do prejuízo. O término daquele diário fechar de portas preventivo, ou da limpeza de divisões da casa, e mesmo o deitar ao lixo de objectos até horas antes perfeitamente funcionais. Há, no horizonte, a possibilidade dos nossos bens respirarem de alívio pela primeira vez em três anos.

É o afastar definitivo de um par de olhos azuis cuja ignorância, inocência, instinto e orgulho vão contra as garantias e códigos de utilização de uma miríade de coisas mortas. Um par de olhos que nunca compreenderá o que fez de mal, o que se passou, porque se sente desta maneira, e porque tem dormido tantas noites numa gaiola, ligado a um tubo, na companhia de animais desconhecidos. Imagino-o em silêncio, por entre uma multitude de gemidos, latidos e mios confusos. “Onde está o meu dono? Porque tenho tanto sono? Será que estão a jantar lá por casa? Até quando vou ficar aqui?”

No entanto, a possibilidade acentua-se no horizonte. Ei-la, impassível, a aproximar-se a passos de gigante. Mesmo que tenhamos feito tudo para a prevenir. Mesmo que chegue anos antes do previsto. Mesmo que seja tão triste.

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