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Puzzle

23/06/17 — Leave a comment

Começamos com uma caixa de madeira. Não nos deixemos seduzir pelos seus veios estruturais, pelo seu toque quente e carícia envernizada. É uma caixa destinada a arder no fim, e como tal, algo passageiro, de uma fugacidade trágica. 

Abrimo-la, de olhos virgens e vazios, e, num pasmo de estupidez, vemos um puzzle com um milhão de peças. Não compreendemos o que são porque não temos nada na cabeça. Fechamos a caixa e sentimos algo a chocalhar no bolso — já lá temos algumas! Ainda vagas e a ganhar cor como um polaróide improvisado, pousamo-las sobre um tampo de alumínio estéril, e banhamo-as com a luz de um candeeiro clínico.

São peças importantes, que para sempre figurarão no nosso centro. Os nossos pais, irmãos, língua materna, terra, avós, primeiros amigos. Ligam-se e desligam-se. Como todas as seguintes, transformar-se-ão com o tempo e as experiências que lhes fizermos, boas ou más, consciente ou inconscientemente.

Dependendo da sorte, e do nosso empenho e ciência, teremos ligações mais ou menos férteis entre peças, e oportunidades de abrir a caixa e de lá retirar outro bocadinho do nosso futuro eu. Em muito este abrir e fechar da caixa parte de nós, mais do que por vezes damos conta. Do abrir um livro, ao fazer amigos despreocupado, arriscar a medo, ou até embarcar num comboio — todos os elementos que encaixamos na fronteira de quem somos fazem crescer a obra. Dão-lhe cor, textura, motivo, reflexão. Tocam-se peças, tocam-se mãos e lábios. Dizem-se palavras, pisam-se solos, levantam aviões. Umas vibram de cor, quais faróis por entre o misto, outras perdem-se, desvanescem-se, deixam de encaixar direito.

Há em nós muito, e esse muito trabalha-se e regenera-se tanto quanto queremos. Tanto quanto nele ainda acreditarmos. Tanto quanto as peças ainda se liguem, se queiram.

Pouco a pouco na amálgama começa a afigurar-se algo, tenuemente, tímido, por entre o caleidoscópio desorganizado. Onde haverá aqui uma vitória, uma vez que o puzzle nunca estará completo, e a caixa e todas as suas peças arderão muito antes de o entendermos?

No meu entender presente, a vitória está na descoberta. No acto de levar as mãos à caixa, de nos deixarmos abismar como no primeiro dia com a imersão dos nossos dedos em infinitas combinações, histórias, sorrisos e lugares, e, encaixe a encaixe, no imenso prazer de crescer e aprender.

Trabalhei durante muitos anos na Google a destruir informação. Passava os dias dentro de uma jaula especial a reformar os discos rígidos defeituosos de um gigantesco servidor. Sempre apreciei a arte da destruição. Com recurso a processos sofisticadíssimos, garantia que nenhum registo binário sobrevivia para contar a história – digital, magnética e fisicamente falando.

Gosto de destruir discos maus, porque são desnecessários, mas o que me dá maior tesão é acabar com informação declarada desnecessária. Todos os dias atravessava três sistemas de segurança apertada só para poder trabalhar, e não me importava, porque não eram sistemas redundantes ou desnecessários. Coisas desnecessárias ou redundantes irritam-me profundamente. Não admira que teras e teras e teras declarados lixo e postos de parte me dêem uma ponta descomunal.

Por falar em ponta: quando acabei com a minha definitiva namorada senti um prazer intenso a fazê-lo. Ela chorou muito, apesar de chorar ser redundante. Ela não era de todo redundante, mas podia classificá-la como desnecessária a partir do momento em que deixei de achar piada àquele corpo. Vai daí, eliminei dos contactos toda a gente que conheci em associação a ela. Desnecessários. Ela tentou falar comigo depois, mas eu não lhe respondi, porque já tinha dito o que tinha a dizer. Responder-lhe seria redundante. Nem nunca mais voltei a pensar nela – seria desnecessário.

Desfaço-me de tudo o que me oferecem, e só compro um objeto se ele me livrar de pelo menos dois. Durante muito tempo, ao acordar, removia duas a três pessoas nas minhas redes sociais. Elas nunca davam conta disso, e se por acaso notavam eu borrifava-me, porque era desnecessário agir de outra forma. Se depois me pediam amizade de volta, não aceitava (aceitar seria redundante). Quando vi que tinha zero amigos, deixei as redes sociais de todo. Não senti falta delas porque também não tenho amigos fora, e não sinto falta de amigos porque ainda me resta família.

Família? Vamos a ver… não digo com isto que pense muito nos meus velhotes. Eles lá vão sobrevivendo. O ato de pensar neles é desnecessário desde que deixei de lhes atender as chamadas – porque, vamos ser francos, eles não duram muito e não têm nada a deixar-me. O que só retirou a última utilidade ao telefone fixo – e o aposentou de vez. Também não tenho televisão, nem na sala nem no meu quarto, que se resume a um colchão e uma lâmpada.

Tornei-me o maior adepto da Cloud! Quando já tinha armazenado tudo lá, deitei fora os meus discos externos. Mais tarde comecei a apagar os ficheiros da Cloud que classificava como desnecessários. Demorei algum tempo até eliminar as fotografias de família: primeiro as redundantes, depois as desnecessárias, até que já não tinha fotografias. Com o Spotify igual. Ao subscrevê-lo deitei toda a música que tinha ao lixo, só para depois cancelar a subscrição. Já tive contas Dropbox Pro, OneDrive e Box, mas removi as últimas duas por redundância, e a primeira porque já estava a mais. Já não tinha mais uso algum a dar à Cloud.

Mas isso já não me preocupa muito. Na mesma viagem em que comprei um smartphone, desfiz-me da máquina fotográfica, do GPS, relógio, lanterna e agenda. Quando cheguei a casa e olhei para o meu computador, apercebi-me da sua redundância face à aquisição do telemóvel. Lixo com ele. Depois percebi que com wireless gratuito em cafés não precisava de um serviço de Internet em casa. Vai daí, destruí o telemóvel à martelada, porque já não tinha utilidade para ele. Deitei-o fora, e aproveitei para dar o mesmo fim ao martelo.

Antes de sair para o trabalho, parava em média dez minutos a pensar na utilidade das minhas restantes coisas, e esse tempo foi aumentando e aumentando. Entretanto, fui despedido da Google. Deram-me muitos, muitos motivos: chegar atrasado; não obedecer ou falar com os colaboradores; tresandar por não tomar banho nem mudar a roupa – entre outras coisas que é desnecessário mencionar. Ralei-me pouco, porque pude dedicar-me a tempo inteiro ao meu passatempo preferido.

Assim, fui eliminando da minha vida tudo o que considerava redundante e/ou desnecessário, e estou muito contente com o meu progresso. Vejam lá que já só me restam seis itens.

1) 1 corpo nu, depilado e de crânio rapado (eu);

2) 1 apartamento;

3) 1 garrafão de 5l de gasolina;

4) 1 isqueiro;

5) 1 pistola Glock 42;

6) 1 bala.

ACTO II. CENA II. Jardim do Capuleto.

Entra ROMEU

ROMEU — Que suave que é, a luz qu’aquela janela bota cá pra fora! Vai já numa selfe pro feisse. Ui, ficou brutal a foto, tás a brincar? A Julieta é tão linda… parece um sol. Levanta-te, solinho bom, e dá uma abada de luz à Tixa, a minha ex, que já está com dor de coto filha da puta, porque tu és mais bonita qu’ela! Num queiras ser amiga daquela aziada que num cabe nas calces e gosta de mostrar a perseguida! Ai, queria tanto que a Julieta soubesse o amor que tenho por ela. Os olhos dela são tão brilhantes que as duas estrelas mais brilhantes do céu foram substituí-los por serem tão brilhantes, tás a brincar maninho? Mas… ela tá-me a dizer qualquer coisa qu’eu num consigo perceber! Ai, qu’é dela? Foi pegar no telemóvel. Pera aí, tá-me a vibrar o cu. Tou!

JULIETA — Tou?

ROMEU — Ela fala! Fala mais p’ra mim, sardinhinha da minha broa, que voas pelo céu do meu mar!

JULIETA — Romeu, Romeu! Num tou a apanhar rede, Romeu! Tás m’ouvir? Vê se me entendes. Tens de cagar no nome do teu velhote… ou então, se num o fizeres, jura que me amas, e eu deixo de ser uma Capuleto e entrego-me a ti para sempre.

ROMEU — Num tou toubir! Fosga-se pá merda do telemóvel. Pera aí, vou subir à tua varanda que num t’ouço.

JULIETA — Só o teu nome é meu inimigo. Ca punha de nome, Montéquio! Qu’é essa merda? Num é mão, nem pé, nem braço, nem fronha, nem qualquer outra parte que pertença a um ome, entendes? Oh, se tivesses outro nome em antes…! Que mal tem um nome? Uma rosa pode ter outro nome e também cheirava docinho. Também tu cheiravas docinho, se num te chamasses Romeu. Fica com o perfeito que és sem esse nome! Bota-o para o passado, e depois sou toda tua.

ROMEU — Eu aquerdito-me em ti. Se deres p’ra mim o teu amor, eu deixo de ser Romeu para sempre. Vou-te ser sincero, eu odeio o meu nome porque é teu inimigo. Se tivesse sido eu a escrevê-lo, rasgava-o e botava-o fora. Ai nets. Logo. Tu sabes que sim. Eu, quando digo que faço e aconteço num estou a mandar postes de pescada para o ar, como há muitos aí.

JULIETA — Ai e como entrastes? Os muros são altos e dificiles de subir. E aqui é tão perigoso para ti! E se a minha família te vê?

ROMEU — Subi os muros com as asinhas que o amor me deu, e o escadote do meu cunhado. Li no feisse, escrito numa foto com um pôr-do-sol, que num há limites que o amor num consiga ultrapassar. O amor tira-me o medo, eles que nem venham que eu vou-me a eles.

JULIETA — Mas se fores apanhado matam-te!

ROMEU — Há mais perigo no teu olhar do que em vinte das naifas deles. O escurinho da noite ajuda-me a passar despercebido. E se num me amares, os ménes que me encontrem! Mais vale ser chinado pelo seu ódio, que viver sem o teu amor.

JULIETA — E como conseguistes dar com a minha casa?

ROMEU — Foi o amor que me ajudou! Ele me fez procurar, e me aconselhou e eu por ele vi… eu num tenho carta, mas pelo teu tesouro viajava se fosse perciso até à Senhora dos Navegantes.

JULIETA — Se tu me amas, diz-me de verdade. E se pensas que sou uma fácil, tu fala, que eu faço-me de difícil. Quero mostrar que sou de bem e num uma desembergonhada, mas num consigo porque te amo tanto e tanto que nem imagines ome! E tu sabes, Romeu, que eu te amo pa caralho, porque também viste no meu feisse no comentário que fiz na música do Zezé que postaste depois de ires buscar arsago para o quintal.

ROMEU — Eu juro-te, fofinha! Juro-te… uh… pela lua…

JULIETA — Num jures pela lua, aquela indecisa, que está sempre a mudar, a num ser que o teu amor por mim mude também.

ROMEU — Ai, então juro pelo quê?

JULIETA — Num jures por nada. Ou então jura por ti, que eu aquerdito.

ROMEU — Tasse. Coração, amor da minha vida—

JULIETA — Olha, caga para o juramento! Eu curto milhões de ti, mas num quero que façamos pormessas assim tão rápido, como o trovão que desaparece após brilhar. Vai agora! Este amor tem que ser como uma linda flor! Mais linda e frondosa de cada vez que te vejo. Bem, vou-me adoçar e entrar na caminha ca velhota tá a pé. Falamos por mensagem. Tens grátis para 91?

ROMEU — Sou ganza, claro. Mas… ai, que dizes, tchopa? Vais-me deixar assim, a olhar para o ar? Quero ouvir-te dizer que me amas e que queres namorar pa mim.

JULIETA — Eu disse que t’amava antes de me perguntares. Mas morzinho, se quiseres, eu digo outra vez. Eu amo-te muito. Jóiinha, amo-te um amor tão lindo, tão lindo, como o do André Sardet que vai até à lua e depois vem da lua até aqui. Punha de lindo, num é? O meu amor por ti é infinito como o horizonte e porfundo como o mar. Quanto mais amor te dou, mais amor eu tenho, porque são os dois infinitos, tás a ver?

ROMEU — Lindo, mor. Lindo. Até chorei, tás a brincar? És uma poeta. Vou apontar isso para depois tatuar no cu das costes.

Quem és tu?

Olha para mim, que vergonha. Feita maluquinha, a falar contigo. Nem sequer sei se estás acordado. Paulo, Paulo…

O teu médico disse-me uma coisa engraçada. Bem, engraçada é uma força de expressão, porque não tem piada nenhuma. Para que é que estou a tirar um cigarro, se não posso fumar aqui? Não percebo isto, se há gente que merece a merda de um cigarro… mas não vou fumar, isto é um hospital.

A coisa engraçadíssima que o médico me disse foi que tens os ouvidos intactos, apesar de tudo o resto estar no estado em que está. Ouvidos intactos: o oposto de sempre, portanto. É tão triste termos de chegar a isto para me dares alguma atenção. Não foi o estupor do médico que se casou comigo, foste tu, era de esperar que me ouvisses sem ser preciso ter-te nesse estado. Olha para mim. Ia pedir-te desculpa por estar a chorar. Ridícula, ridícula, ridícula.

O que é que te deu? Francamente, Paulo, o que te passou pela cabeça? Levaste a Ritinha à minha mãe e nunca mais te vi. Isso faz-se a quem quer que seja?

Passaram-se tempos e tempos, corri a agenda toda à tua procura. Eu, que nunca uso aquela merda! Até liguei ao teu pai. Havias de o ouvir, a culpa parecia minha.

A Júlia obrigou-me a ir para casa dela quando me apanhou à porta do nosso apartamento, de pijama, sem conseguir dormir. Quando entrámos para pegar em roupa ela irrompeu em lágrimas, porque tal era a confusão de folhas e documentos teus, que não se via o chão. Gostava que percebesses o meu desespero. Tantas vezes te imaginei a esvair em sangue num beco, numa autoestrada, ou na merda de uma nacional, e eu sem poder fazer absolutamente nada quanto a isso.

Custa-me, sabes? Custa-me ver o teu corpo desfigurado. Ossos em cacos. Os restos de uma cara. Cego, desdentado. Parte de mim sofre por ti, a outra ri-se.

Ridícula, ridícula! Pobre Ritinha. Nunca pensavas nela? Eu pensava.

No meio daquela cena deprimente a Ritinha disse-me que a última vez que te viu, cheiravas como o tio Joca. Como o tio Joca? Cismei com aquilo. Perguntei-me se seria a tabaco, uma vez que nunca fumaste.

Vou fumar eu, foda-se. Estou para ver o que me podem dizer. Expulsam-me? Era um favor que me faziam…

Um mês depois de nos teres deixado, tocou o telefone. Nunca nos ligam para o telefone, só podia ser o teu pai. Nunca o ouvi naquele estado, sinceramente, o que não veio ajudar em nada. Disse-me para virmos até aqui, ao Pedro Hispano, que era onde te tinham trazido… e que sobreviveste a um acidente. Um acidente? Um mês depois?

Apanhei o teu pai e voámos até aqui, num silêncio horrível. O porquê de terem ligado ao teu pai e não a mim ultrapassou-me completamente, como podes esperar. Há mil e uma coisas que nos passam pela cabeça numa situação destas, e por incrível que pareça, nunca fazemos as perguntas certas.

Quando cheguei aos cuidados intensivos, disse quem era. A sujeita da secretaria ficou muito surpreendida. Não procurava antes outro Paulo? Insisti que não, que eu era a mulher do tantos de tal, nascido assim e assado. O olhar estúpido da rapariguinha estava-me a dar uma vontade de mandar tudo pelo ar, e ela deve ter percebido isso. Disse que ia chamar o doutor tal tal, e que pedia desculpa, porque tinha percebido mal, e que provavelmente tinham confundido as informações que recolheram do local.

Perguntei-lhe o que raio tinham confundido.

E ela disse-me, que tanto quanto sabiam, e todos os documentos indicavam, a mulher do Paulo era a sujeita da cama do lado.

Aquela que me escondeste durante anos e anos…

Não vou pedir-te desculpa por estar a chorar. Vou-te mandar à merda por me obrigares a fazê-lo. Agora não sei para que lado me virar quanto a ti. Dou por mim a desejar que o acidente tivesse dado conta do recado. Mas também queria que nunca o tivesses tido…  para eu continuar à procura do Paulo que nunca perdi.

Graça era senhora dos seus setenta anos — magrinha, dócil, de cabelos prateados, pairava-lhe um vestido florido sobre o corpo frágil. António não podia ficar mais contente por ver a aparência terna da sua irmã, teletransportada daquela África que lha levara — porque sabia exatamente quem lhe entrava pelo apartamento.

A luz da manhã fosca desenhava cones de luz através das divisões empoeiradas. Pilhas de livros adornavam as paredes e as estantes. Sobre a mesa da cozinha, amontoavam-se embalagens de cartão com inquilinos por abrir, revistas por retirar do plástico e postais por alfabetizar. Livrando os cadeirões da sala de um punhado de jornais entremeados de apontamentos a esferográfica, o velho professor deu à sua aparente irmã lugar para se sentar. Conversavam tranquilamente — sobre as suas aulas de matemática, sobre o estado do país, e aquela distante Angola…

Nadavam as folhas de chá na porcelana quando ela lhe explicou ao que vinha. António estava prestes a ter o terceiro e derradeiro golpe no coração. Seria durante a aula de substituição que ia dar ao seu 12º ano na tarde daquele mesmíssimo dia — por entre exercícios de probabilidades e a combinatória.

— Um acontecimento certo, portanto.

O sorriso dele deu lugar a alguns momentos de introspeção. Estava calmo, e assim continuaria: a Morte não lhe trazia uma novidade. Intrigado, questionou-a a respeito da transição.

Era muito simples. Após a cessação de funções do corpo não existe consciência — dá-se o término absoluto da vida. Porém, imediatamente antes, acontece um fenómeno peculiar: o cérebro, ciente do seu iminente fim, entra numa fase de hiper-funcionamento, em que joga com a percepção do tempo e constrói uma realidade aparentemente eterna a partir da imaginação. Era um processo inteiramente biológico — uma recompensa da mãe natureza para os seres-vivos.

— Todos temos um período de graça diferente — dizia a Morte, pacificamente, entre tragos de camomila — No cristianismo, por exemplo, o cérebro do crente constrói uma espécie de céu momentâneo, e quando perde os sentidos, fá-lo em êxtase junto das pessoas que ama e que tanto ansiou reencontrar. Os que têm a sorte de viver este tipo de morte, a lenta apercebida, vivem uma intensa paz interior, uma profundíssima alegria, como nunca antes tinham experimentado.

— Eu não mereço tanto — murmurou António, após uma longa pausa.

— Mereces mais.

Passou a mão na face da irmã, passando-lhe os longos cabelos de prata atrás da orelha.

— Decerto percebeste que a minha visita já faz parte da despedida, Tó. Temos algo por resolver. O teu último exercício de matemática.

— Junto de vou quem partir.

Graça desceu as mãos dele para o seu colo, e segurou-as com firmeza.

— Podes desejar quem tu quiseres.

Porque a Morte era um fragmento da sua fértil imaginação, António já tinha pensado naquilo. Consciente e subconscientemente se viu no bloqueio em que se encontrava agora. A despedida dos pais, e da irmã, já as fizera, cada qual a seu tempo. Não queria ressuscitá-los enquanto produto das suas frágeis memórias. Queria-os no coração, e não na fugacidade dos olhos.

Levantou-se, e deu o braço à Morte para um passeio pelo apartamento, enquanto juntos pensavam no seu desfecho. Viajaram a passo lento pelos recantos da poesia. Aventuraram-se pelo jardim dos romances históricos, peças, ensaios, livros técnicos, de banda desenhada e, por fim, a ficção científica — a bancada com a maioria absoluta naquele imenso parlamento de tinta.

— E os teus alunos? Trouxeram-te tanta felicidade.

— Minha querida, foram às centenas e centenas…

— Algum amor? — tentou ela.

— Como assim?

— Por uma mulher?

— Não sei o que é sentir amor por uma mulher. Sempre senti falta do sexo oposto, não vou negá-lo… é a nossa condição de bichos, não é? Vivi anos com uma, meses com outra… até me aperceber de que, efectivamente, era mais feliz sozinho. Filhos, contudo…! Dava tudo para poder brincar na imaginação de um filho — e da sua forma leve, puxou a mão da Morte para uma pequenina marquise de arrumos.

A nobre vista das traseiras dava para um autêntico anfiteatro de apartamentos velhos. Donas de casa enfezadas recolhiam a roupa. Gatos malhados, empoleirados sobre um canteiro de cimento alto, controlavam uma frincha de rua. Um miúdo gordo olhava da janela do quarto para todo um universo que não compreendia.

António mantinha ali uma escrivaninha gasta. Sob e sobre o tampo, imperava a mais rigorosa ordem, contrária à desordem natural do apartamento. Papéis manuscritos contavam-se aos milhares, entre os pousados em pilhas, maços, e guardados em gavetas. Nunca ninguém os lera. A expressão do professor amansou-se, e a Morte sentiu-lhe a tranquilidade, enquanto passava os dedos trémulos pelos aros de café impressos sobre a caligrafia. Ao lado, esperava-o uma bolsa de tabaco sob o fiel candeeiro metálico. Eram companheiros de longa data, marujos de imensas travessias pelo imaginário… por entre o fumo místico das cachimbadas.

— Amor puro, cristalino, nutro-o pelas minhas personagens. Recordo-me delas com carinho, e calor no coração.

E foi no silêncio consequente que o velho professor leu, no olhar da sua irmã, a resposta para o seu último problema.

Eram quatro e meia da tarde e o António esperava que os alunos acabassem uma ficha de trabalhos particularmente exigente, quando a sala começou mudar de cor. Ninguém dera por ela — a luz transformava-se a olhos vistos. O pardacento céu transfigurava-se em subtis fenómenos de cor, brilhando em tons de púrpura. As nuvens trabalhavam tons de amarelo, e o nosso professor percebeu a deixa.

Uma última vez, passou os olhos pela sala, igual a tantas outras onde ensinou. As cabeças jovens debatiam-se com os conceitos invisíveis, articulados em enunciados claros, e António não pôde deixar de sentir um profundo amor por todos eles. Deixando para trás os seus robustos sobretudo, mala e guarda-chuva, caminhou até à porta e através do corredor vazio. Apoderava-se dele uma leveza indiscritível.

Fortes feixes de luz atravessavam o céu, quando António irrompeu, correndo, pelo imenso campo de jogos. Por entre a chuva que subia, viu um dinossauro azul sobre a cidade. Riu, reencontrando-se com um amigo bonacheirão! Olhou em volta, maravilhado — um foguetão laranja de marcianos pousado sobre o telhado da escola! Barcos quinhentistas voavam de seu encontro, sob um pintalgar celeste de cem para-quedistas lunares. O mar de gente que corria em seu encontro ria-se! Adolescentes vieram-no abraçar, excitadíssimos, com uma rapariga de olhos azuis a roubar-lhe os óculos e a rir-se! Peles-vermelhas e caras-pálidas monossilábicos sorriam por o reencontrar, erguendo a mão em paz. Um tigre falante! Três leões gaguejantes. Uma gárgula e um curiosíssimo escafandro vivo. Dois soturnos detetives do ano 3000 reviam notas junto aos astronautas da nave, que aceitavam cartões de visita Lobo & Bruxa Má Lda.! Mordomos algemados! Papagaios com piratas ao ombro! Todos estavam ali por si. Junto deles, vivia o velho professor um reencontro. Um universo cheiinho de aventuras com bons, velhos amigos. As lágrimas felizes que chorava a eito voavam para o ar, dispersando-se em mil fragmentos de luz.