Crónica

Ritual

À noite, um par de criaturas deambula pelos cantos daquela praça. Entre blocos e blocos de apartamentos, a mitologia urbanística rasgou do chão uma desculpa de jardim. Sob a luz bolorenta dos lampiões, esta feia clareira de cimento subsiste, num vaivém de desconhecidos que nos desvia o olhar.

A natureza morta dos carros é até perder de vista. Ignora-se um ou outro parquímetro. Em bancos de jardim, partilham-se charros ou litrosas sob as cabeleiras das árvores em snooze, que filtram a noite amarelenta. Ao longo das reentrâncias escuras de cimento, enjauladas por colunas medíocres, dormem escritórios de estores corridos, maquilhados por pichagens desinspiradas. Há sempre quem deixe restos em embalagens de plástico para os mesmos gatos invisíveis. Quando chove, afogam-se os paralelos da estrada, e a relva do jardim perde-se numa profunda sopa de lama. E, por fim, podemos encontrar regularmente um vidrão, um papelão, um plasticão, eu e um cão.

Continuar a ler

Standard
Crónica

Livros e cães, cães e livros

Sua Inutilidade, o excelentíssimo príncipe dos Mesquitas, sempre em horário de experiente, imitava a esfinge de Gizé por entre as raízes da mesa e pilhas de livros por arrumar. Estávamos a reorganizar a estante da sala. Nós. O cão nem por isso.

Envolvido até ao ponto que conseguia, olhava-nos com a habitual expressão de quem está a ver o telejornal em russo. Por maior que fosse o seu esforço para compreender e ajudar-nos, contribuía pouco mais que zero. Livros e cães são — como dizê-lo? — profundamente, irremediavelmente incompatíveis. Há toda uma realidade de compreensão que os separa. Independentemente do quanto gostemos de cada um e desfrutemos da companhia de ambos, não há ali qualquer margem para reconciliação.

Continuar a ler

Standard