Domingo de Páscoa

A primeira cafeteira borbulhou logo pela manhã. Duas fatias de pão afundaram na torradeira, dourando no tempo que levou ao comedouro do cão para se encher e esvaziar. Uma chama aqueceu o ar entre as pedras da cozinha antiga. Abriram-se as portas do armário da sala, banhando de luz as louças de festa. Um a um, os pratos do serviço alinharam-se na mesa, quais casas delimitadas por cercas de talheres. Quando o forno ligou a luz, choveu sal sobre a travessa das batatas. Pela casa viajaram porções de vinho em veículos de vidro.

A segunda cafeteira borbulhou uma hora depois da primeira. Quando um sino perambulante se ouviu pela vizinhança, formou-se um montículo de pétalas de rosa em frente ao portão. O sino foi tocando mais e mais perto, até que cruzou aquele mesmo portão, ladeado de uma cruz e água benta. O piano e o saxofone harmonizaram a mesma música várias vezes consecutivas. Não relacionado, um buzinar de fora chamou a atenção para a chegada de um carro. Abriu-se o portão, e a trela do cão tornou-se uma linha recta, apontando à suas portas. Pelas escadas, subiram caixas de cartão com bolos e comidas; bolsas e casacos taparam bancos e cadeiras. A trela enrijeceu novamente, apontando para novos carros, e depois voltou a deitar-se no chão, pacífica como um cordeiro.

A luz do forno eclipsou-se pela chegada da carne, que aqueceu junto das batatas. Saltou a tampa ao queijo da serra quando uma broa recheada se materializou na mesa e tostas de todos os tamanhos, ao passo que aperitivos e sobremesas preencheram os móveis da sala de jantar.

Pratos dos quatro cantos da mesa peregrinaram para a carne e os seus acompanhamentos, enquanto se dava o bailado dos talheres. Pouco depois, foram-se escusando para a cozinha, um ou outro garfo ainda dando piruetas na porcelana. Os doces perderam frações. O tripé esticou as pernas para apoiar a câmara fotográfica. Sempre quente, a água do banho da louça foi reposta, uma e outra vez, na barriga do termoacumulador.

A terceira cafeteira aqueceu uma nova população de chávenas. Animou-se o trio do piano, saxofone e guitarra. Três livros antiquíssimos abriram-se na mesma página, a 106, onde uma igual assinatura podia ser encontrada sobre o número. A ponta azul de um taco precipitou-se sobre uma bola branca, que gerou o caos nas demais. Nisto, os telemóveis iam-se carregando pelas paredes, os copos pingando sobre os panos, os pratos de festa regressando à base.

A quarta cafeteira foi a menos cobiçada. As suas chávenas passearam pela casa, cruzando-se nos corredores, esperando sobre os móveis, cafés arrefecendo. Bolsas e casacos destaparam bancos e cadeiras, a água escorreu pela branquidão das louças, a trela retesou-se, o portão castanho foi-se abrindo de par em par, até que finalmente fechou e ficou fechado. Rodaram-se chaves antigas, apagaram-se luzes novas, e os objectos por fim descansaram.

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