Luvas de tinta

A nudez das minhas mãos expõe a sua fragilidade. Observo a elegância dos ângulos do pulso, da amplitude dos nós, daquele mindinho que me incomoda, e aprecio a viagem das falanges, falangetas e falanginhas pelo mundo. É uma de aventura e de muitos uniformes e fazes-de-conta.

Se os olhos espelham a alma, as mãos dão-lhes corpo, digito eu ao teclado, numa chuva de caracteres liderada pelos meus polegares, indicadores e médios. Ocorre-me pensar nas minhas mãos e em todas as luvas com que as disfarço. São luvas de mergulho, luvas de combate e luvas de neve.

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Amanhãs de improviso

Foi antes de ontem, e de ontem, e de ontem. O cenário era algo simples, com um divã básico e uma secretária à antiga, junto da qual conferenciavam cadeiras almofadadas de um encarnado vivo. Ao centro, uma janela fosca, ladeada de cortinas pouco insuspeitas, e estantes falsas compunham as paredes ocas.

À boca de cena, uma pianista de colete e laço improvisava músicas misteriosas, e do lado oposto, num cadeirão parcamente iluminado por um miserável candeeiro, encontrava-se uma detective. De cabelo loiro apanhado e pernas cruzadas sob uma gabardine pastel, preenchia as palavras cruzadas num jornal, indiferente às centenas de pessoas que se iam aglutinando ao longo das fileiras da sala de espectáculos.

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A viagem do pára-quedas

Em outubro de 2017, a Lightbox deu-me a oportunidade incrível de realizar um documentário sobre um evento de moda muito interessante.

A estilista Katty Xiomara idealizara um desfile da sua mais recente colecção (a Parachute Trip) no antigo matadouro industrial do Porto, e mediante a sua relação prévia com a Lightbox, propôs uma parceria para registar o acontecimento. Este documentário é o resultado.

Para o concretizar tive o apoio de uma equipa fantástica, desde as primeiras ideias na pré-produção até aos últimos retoques do cartaz. O produto final é um trabalho do qual me orgulho muito, e que pode ser visto aqui. Espero que gostem.

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Palavras perdidas

Custa-me falar-te. Ao que chegaram os nossos dias. Ter-te numa sombra de quem eras, anos a fio defronte da televisão a um volume ensurdecedor. Queria eu que me ouvisses como te tento ouvir, incapaz que estás de trazer coerência aos sons, perdido e encurralado nas vicissitudes da velhice. Foste de tudo um pouco. Polícia, músico, sapateiro, amolador. Cuidavas de um pomar remoto para o qual percorrias quilómetros de bicicleta. Criámos uma geração de gente que nos quer, ainda que nunca nos baste o seu querer, e fizemos da nossa casa um lugar feliz.

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O filme de uma viagem

Não é fácil para mim exprimir o quanto aprendi nas minhas viagens até Santiago de Compostela.

A primeira vez que fiz o Caminho não estava nada preparado para a experiência. Desde então, todas as viagens foram diferentes, mas tão enriquecedoras como a primeira. Já fiz o Caminho duas vezes com o Colégio Luso-Francês do Porto, uma vez com dois amigos próximos, uma vez sozinho, e uma com a minha mãe.

Agora, com um misto de vergonha e saudade, posso partilhar a curta-metragem que fiz sobre aquela vez que comecei o Caminho sozinho.

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