Escrita furtiva

Ando destreinado em conversas de elevador, fruto talvez de não ser utilizador habitual desses engenhos. A verdade é que tenho cada vez menos paciência para navegar nas convenções sociais, e por mais que o meu apreço pelas pessoas esteja lá, dou por mim a usar os truques do costume para me livrar das conversas o quanto antes. Após a menção ao estado do tempo, invariavelmente dou um update sobre as nossas galinhas, mas isto é em si um desafio.

Não posso distrair-me dos sinais do meu interlocutor, mesmo que tenha sido ele a perguntar por elas. Até que ponto está engajado na conversa? O olhar corresponde às palavras? Já se terá arrependido de puxar o assunto? O problema aqui é de eu falar demasiado, o que é absolutamente um risco nos temas que me interessam. Temo já ser “o das galinhas” para algumas pessoas, o que não tem mal nenhum, excepto quando sinto que me estão a dar corda.

A solução é fácil, e passa por deixar o pessoal falar de si e entre si. Após falar sobre mim o minimamente aceitável, sou hábil em passar a bola para os outros, e em 99% das situações isto remata o problema. A minha ineptitude em manter uma conversa é inversamente proporcional à minha aptidão em ser um editor de vídeo social.

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Bom dia, Carol

A primeira coisa que fazemos de manhã é ligar o aquecedor do escritório. Depois, pomos a água a aquecer na cozinha. Enquanto isto, há tempo para calçar as galochas e ir abrir as galinhas que, já bem acordadas, desatam a correr pelo quintal. Preparar a cafeteira com água quente corta um bom tempo ao café, que não tarda a subir. Na gélida cozinha de pedra, o aquecedor a gás demora segundos para funcionar em pleno. Leio notícias com a ponta do indicador. Conversamos. Pouco depois, são 9 e tal e estou ao computador, de óculos, cachecol e gorro, pronto para trabalhar (mas provavelmente não vou fazê-lo já). 

Os dias não são todos iguais, mas na maioria seguem esta receita. A diferença está nos pormenores, e na quantidade de roupa em que nos embrulhamos. À medida que o tempo vai aquecendo, os aquecedores funcionam cada vez menos, e é mais fácil para mim concentrar-me. Ao almoço e ao lavar da louça, ouço as notícias no meu telemóvel. Raramente são boas.

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Galinhas, novamente

Seis ovos, seis cores. Qual Pantone, Benetton ou panettone — as nossas galinhas são a verdadeira campanha pela diversidade. Mais bicada menos bicada, na hora de dormir acabam sempre por se entender. Para além disso, põem todas os ovos no mesmo sítio. O querido leitor pense no que faz durante a sua manhã, e lembre-se de que, a cada uma dessas horas, há pelo menos uma galinha das nossas a pôr o ovo, com outra aflitinha para o fazer.

Lembro-me das viagens intermináveis de metro que fazia da Póvoa para o Porto, das multidões na hora de ponta, e do que me esperava na ponta daquela hora. Estava eu longe de imaginar que de bom grado trocaria aquilo tudo por uma existência mais simples. Rio-me sozinho, só de pensar na quantidade de gente insuportável que troquei por galinhas. Isso era uma óptima app. Plim! Mais uma galinha.

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Ardil 22

O jardim amanhece sob uma fina camada de gelo. Dias frios como hoje são sempre uma prova de perseverança. O ano começa com ruídos de guerra e de instabilidade, a preencher os silêncios com uma nova dose de inquietações. Removi as redes sociais do telemóvel, protegendo-me um pouco do ruído incessante.

Antes que se preocupem, está tudo bem connosco! Esta pequena sombra é temporária, como todas as que a antecederam. As festas na companhia dos familiares e amigos trouxeram-nos o ânimo necessário para aguentar as noites compridas, os trabalhos mais complicados, os dedos dormentes e o caminho gélido para abrir e fechar a nossa querida trupe de galinhas.

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