Ela não estava bem. Diz quem a viu que bastava vê-la para perceber isto. Dizem que o olhar lhe denunciava um certo apetite em fazer das coisas bocadinhos. Que o seu movimento desgovernado, comparado por testemunhas oculares ao de um comboio prestes a descarrilar, dava mostras de tudo menos de considerar o apedaeiro da reflexão.

Ora, é verdade que por entre um manancial de caracóis loiros residia uma moça cheia de virtudes. É verdade também que em 99% do tempo esta jóia chamada Aninhas se pode garantir como expoente máximo da sensatez, aquela amiga cinco estrelas digna de qualquer abafo ou desabafo. Dizia quem a conhece por terras da Póvoa de Varzim, que é de uma riqueza que Deus menino, ai que rica. O problema reside naquela fracçãozinha do tempo em que ninguém lhe põe a mão, com medo de ficar sem ela.

Naquela terça-feira, por exemplo. Deus nos livre, pensou a Póvoa em peso. Não caía um alfinete num raio de 500 metros da casa da Aninhas sem a Rádio Onda Viva perder a cabeça e enviar os seus correspondentes em peso, todos os dois, e os pôr a fazer horas extraordinárias, aí uns dez-quinze minutos, a tentar perceber os contornos da situação, que era bastante dramática por sinal.

E vão por mim, caríssimos leitores (que não têm culpa nenhuma disto tudo), quando vos digo (e isto é verdade) que não há rigorosamente nenhum motivo para tanto alarme (há talvez um fundinho apenas). Foi tudo um daqueles clássicos incidentes de uma tempestade num copo de água, ou a gota que transborda o copo. Qualquer coisa com um copo.

E não me peçam para ser construtivo, isso não dá em nada. Posso armar-me em carapau de corrida e reunir-me com especialistas para teorizar a respeito do que trouxe a Aninhas a semelhante estado de alma. Serão para sempre o equivalente intelectual a grunhidos organizados em frases que nunca darão à luz uma explicação daquele fenómeno que Deus botou ao mundo. A Aninhas aninhocas não é do tipo de acontecimento para o qual o universo tenha redigido uma explicação. Como muitas coisas que se passeiam contentes pela rua, se ela não existisse, não havia alminha que a inventasse.

A vizinha do lado, que os mais próximos chamam de Velha Insuportável, não a ouviu a sair — o que é compreensível, porque é um pouco dura de ouvido. O vizinho da frente não a viu a descer as escadas, porque vê mal, e o homem do café da frente não a viu a tirar o carro da garagem, o que acaba por fazer sentido, uma vez que a Anocas não tinha garagem.

Terça-feira! Sai a moça de casa, incandescente, e bate a porta com uma violência tal que incomodou a arara do quinto esquerdo, e lhe deu motivos para lançar impropérios para a p*** da dona (palavras da arara), e por sua vez deu motivos à dona para chamar p*** à p*** da arara (palavras da dona). Vai daqui, a p*** da arara (palavras do Gui) levantou voo e acordou o Pulgas. O Pulgas, que é um cão incontinente, não pode acordar sem ir à rua. Toca a chatear a chata da dona, fula com a arara, que por sua vez, estava farta de morar ali.

Vai daí, foi a vizinha de cima da Aninhas levar o desgraçado do cão a dar o seu giro higiénico, sem antes trocar dois dedos de conversa com a Velha Insuportável. Reuniu-se, portanto, o concílio do vão das escadas — e o Pulgas, em pulgas para mijar, a dizer mal da sua vida, dona, e da p*** da sua arara (palavras do Pulgas).

— Credo, a Aninhas está de todo — disse a Velha Insuportável para consigo (mesmo com a dona do Pulgas à frente). Vai daqui, e como não tinha nada para fazer à tarde (e nem 10 da manhã eram), foi imediatamente ligar à tia Titi.

Meia hora depois, estavam em linha.

— Tia Titi, não vai acreditar no que eu acabei de ver.

O que era uma aposta fácil de fazer, porque a tia Titi era tão burra, coitadinha, que Deus a tenha por antecipação.

— Foi o Zé. Viste o Zé?

— Qual Zé?

— O da frente.

— Não vi o Zé da frente, tia Titi, nem o Zé de trás, nem o Zé de nenhum lado. Vi a Aninhas da frente.

Não tinha visto coisíssima nenhuma, mas quem não sabe é como quem não vê. No caso da Velha, também não ouve.

— A Aninhas? Oh. Não me diga uma coisinha dessas. A Aninhas está a passar mal?

— Veja lá a Titi. Saiu de casa, e ia nuns preparos, que a tia Titi nem imagina.

— Imagino pois. Ia ter com o Zé.

— Você também. Ia lá ter com o Zé.

A Velha não tinha paciência para a Titi, mas como boa cristã que é, poupava-se a uma confissão sempre que não a insultava.

— A Aninhas não se dá com o Zé faz tanto tempo. A Titi não soube? Ela andou com o genro do da farmácia. O que se mudou para a Junqueira. Ao lado da Minerva, quem vem da Praça do Almada. Onde vive o Júlio. Aquele que perdeu o pai de câncaro, irmão do Sousa que vive em Toulouse. Não está a ver onde é?

A Titi estava a ver tanto como vocês, apesar de toda a gesticulação precisa da Velha Insuportável.

Enfim! O telefonema geriátrico ainda durou uma valente meia hora. Chegaram à conclusão de que se tinham enganado no genro da farmácia. Era outro rapaz, filho de uma outra pessoa, mudado para outra rua, onde vivia outra família, na qual faleceu uma certa pessoa xis, primo do que foi para Toulouse. E falar da Aninha, que é bom, esqueceram-se.

Ia a moça a caminho de Vila do Conde no seu calhambeque, esfumando-se sem tabaco como uma desalmada pela estrada nacional, chamando nomes aos domingueiros, às bestas que não punham o pisca, e às outras também.

Já vos disse que gosto muito da Aninhas? É tão querida. De uma delicadeza, de uma sensibilidade… não reparem agora. Se ela está a sair do seu carro aos berros com um camionista, posso garantir-vos que foi só desta vez. Mesmo que o camionista a tenha reconhecido de outra situação semelhante.

A Aninhas é uma rapariga impecável e é muito minha amiga. Gosto de desabafar com ela, mesmo que as pessoas da rua a tivessem de segurar para não bater no camionista. Gosto do riso dela, e da forma como é amiga dos seus amigos. Mesmo que o camionista, já a temer pela sua integridade física, já estivesse a dar à Aninhas toda a razão do mundo, que realmente a culpa era sua, e que não voltava a acontecer nada semelhante.

Isto porque (como explicá-lo?), por esta hora a Aninhas (tão fofa a Aninhas), por entre todos os palavrões (ela conhece mesmo muitas formas de dizer asneiras), já estava a amaldiçoá-lo, à mãe dele, ao periquito…

— Minha senhora, minha senhora, vamos ter calma! — benzia-se o desgraçado do camionista, por agora já bastante ciente da pessoa com quem se tinha metido. Ah, ainda não vos disse? A Aninhas é uma bruxa.

— Gui, deixa de ser estúpido!

Então Ana! Tudo bem?

— ‘Tá tudo. Olha. Moço. Achas mesmo que quem te está a ler ainda não percebeu que há bruxas nesta história?

Por acaso tinha ideia que não.

— Deixa de ser totó. Não achas que eles leram o título do post? És tão energúmeno.

Devo dizer-vos, caríssimos leitores, que a Aninha está a falar comigo enquanto está a insultar o camionista, na estrada nacional a caminho de Vila do Conde. Oh sim. As bruxas conseguem fazer directos televisivos.

— Não é qualquer bruxa que consegue isto, tu pensas que quê?

As bruxas boas, vá.

— As melhores, e as mais boas. Ai. Estás-me a cansar a beleza. Não vês que estou ocupada a amaldiçoar um estropício?

Sim, mas diz-me a mim e aos nossos leitores, porque é que estás tão aperaltada? O que se passou contigo?

— Então és tu que estás a escrever isto e ainda não sabes?

Achava que sim. Entretanto esqueci-me. Estás a deixar-me tão confuso Ana. Isto não era suposto ser tão complicado.

— Então vai mas é pôr as tuas ideias em ordem e pega nesta história quando souberes o que se está a passar.

Combinado. Encontramo-nos depois? Algures num post?

— Post, posta de pescada, Nossa Senhora dos Navegantes, onde quiseres. E anima-te, ó carequinha. Estás muito tristinho.

Estava a pensar e sou capaz de escrever isto de forma diferente. Talvez deixe de publicar coisas no blog por uns tempos — talvez, quem sabe, me dedique a esta história com mais tempo.

— Ainda não conseguiste pegar naquela de que me falaste?

Não.

— Sabes que tens de escrever alguma coisa Gui. E que há anos que dizes que é tempo de o fazer.

Eu sei.

— Vai lá. Vemo-nos em pouco tempo. Certo?

Certíssimo. Até já.

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No meu ninho vivemos seis. Eu, um Dono que me passeia, três mini-donos que passeiam comigo, e uma dona que eu permito que me passeie. Cada um lida comigo de forma diferente.

‘Estás com soninho, cãozinho?’, diz o palerma do mini-dono Um, ao que respondo com uma expressão impassível. Tenta abraçar-me, põe-se a cantar ao meu ouvido, e eu que o ature.

O mini-dono Dois toca piano, e manda-me acalmar quando eu tento acompanhá-lo num dos estudos de Liszt. E se eu, de orelhas baixas e focinho ao alto, me entusiasmar nas minhas lamúrias–

‘Epá, ó Jola, está calado!’

Depois, temos o mini-dono Três. É o único que me leva a ir ter com os amigos. Fico horas a vê-los a deitar fumo. Também gosta muito de mim, mas tem a mania que é mais duro que eu. Esquece-se que eu tenho dentes.

‘Pensas que mandas, Jola? Pensas que mandas?’

Tudo considerado, sou um cão de sorte, não me posso queixar. Cumprir missões quando me apetece, dormir, comer e passear — eis a vida de um verdadeiro lorde. Já sei o que a casa gasta, e a quem fazer olhinhos para conseguir o que quero. Por exemplo, se der o toque ao mini-dono Um para que chova um pouco do seu jantar, sei que não tenho sorte nenhuma.

‘Baza daqui, Jola.’

Se, por outro lado, fizer o mesmo ao Dono,

‘Shh. Já vou ter contigo.’

O mini-dono Um não gosta muito destas minhas manipulações, e critica-o, ‘Pai, depois não digas que ele está gordo.’

‘Coitadinho, olha para ele, fica triste.’

Quando o meu olhar se cruza com o do mini-dono Um, ele nunca fica sem me dirigir a palavra.

‘És tão cretino.’

Ah, e os passeios! Doces idas à rua. Mananciais de cheiros, de vida, de desafios! Os melhores passeios são mesmo os do Dono, dão cem a zero aos restantes. Vamos ladrar os patos, fugir das ondas, apanhar búzios no areal (que seca), faça chuva ou faça sol, a rédea é livre e até me solta de vez em quando. Só desaprova que eu ladre aos outros cães no carro (vai daí, zangamo-nos em quase todas as viagens, mas isso — pronto, é algo ao qual ele vai ter de se habituar).

‘Não te trago mais! Estás a ouvir, morcão?’

Os mini-donos Um, Dois e Três são mais ou mesmo a mesma coisa durante os passeios. Levam-me aos meus afazeres caninos e não me dão grande trela. À minima transgressão estou a ouvi-los, e às vezes apanho secas em que tenho de ficar sentado a aturá-los durante uma eternidade, ali plantado no meio da rua.

‘Isto tem algum jeito, Jola? Hã? Feio!’

Disciplinadores de meia tijela. Isto faz-se a um descendente de lobo? Fosse eu o alfa e haviam de cantá-las. Assim, não. O Dono é o boss, e estes, a julgar pela assinatura do cheiro, são a ninhada dele. Não há nada pior que os filhos do patrão.

‘Agora vem junto e nem pies.’

A dona já é uma situação completamente diferente.

‘Oh, cãozinho.’

Fico muitas horas do dia com ela, o que eu adoro, porque há uma data de coisas proibidas que já posso fazer. Eles nunca me deixam subir para o sofá, mas a dona deixa (mesmo que não queira). Faço a pré-lavagem da máquina de lavar sem nenhuma censura, ladro aos cães da varanda, durmo o que quiser e onde quiser — e se lhe roubar um sapato é quase certo que mo vai trocar por comida. Nas raras situações em que me leva a passear, só tenho de puxar um bocadinho para onde quero ir, e lá vamos os dois.

Mas, agora que falo nisso: no outro dia aconteceram coisas muito estranhas, todas umas a seguir às outras, justamente num passeio dos nossos.

Estava eu a encaminhar a dona pela rua fora, num dia normalíssimo, com um céu bonito, cinzento. Tinhamos acabado de comer, àquela hora em que o sol está mesmo por cima de nós, e eu ocupei-me a ir deixando a minha assinatura nas árvores. Olhando para o outro lado da rua, deparei-me com um cão escuro. Cruzámos olhares, e zás!, percebi que não era apenas um cão escuro. Era O cão escuro, e eu não gosto nada do cão escuro. O cão escuro também não gosta de mim.

Entrei logo em modo de ataque! Alfa, beta, charlie, preparar o Jola para o combate. Inchei o peito e ericei o pêlo, como qualquer cão que se preze.

‘Não és bem-vindo, ó pulguento’, ladrei-lhe, com todos os meus três anos de autoridade. Pude sentir a dona a puxar-me a trela, mas ignorei-a.

‘Tu é que estás a mais, ó fedelho, este é o meu território’, disse o escuro do outro lado da rua, ‘Não leste o cartão de visita que te deixei ontem? Quem manda aqui sou eu, e não é um cão sem odor de macho que me mete medo.’

‘Eu digo-te o odor de macho, ó uma-bola!’, e desatei a correr na direcção dele. Um momento depois, ouvi um ruído surdo, e senti-me estranhamente leve e livre. Olhei para trás, e caiu-me o coração. Não vi a dona.

Ainda abananado de adrenalina, abortei a investida e voltei à procura dela. Qual não foi a minha surpresa quando a vi estendida no chão, a sentar-se junto a um dos contentores do parque, muito calada, com sangue a manchar-lhe a cara.

Estava com dores, e até pelo cheiro eu conseguia percebê-la em apuros. Esqueci-me do cão escuro e procurei quem tinha feito aquilo à minha dona. Que raio de cão que eu sou, que não a pude proteger? Não mereço estar acima dela na hierarquia. Não mereço o respeito do Dono.

‘Senta! Senta!’

De repente, tínhamos muitos humanos em volta, a cercarem-nos como uma alcateia, em conversas com a minha dona de um jeito tão agitado que me inquietou ainda mais. Ladrei-lhes, para que se afastassem! Qual deles era o alfa? Eu não sabia, e ela continuava sem me dizer nada.

‘Ele puxou a dona.’

‘Credo, coitada…’

‘Senta, cão!’

Continuei a cercar a minha dona, indefesa, qual cão em guarda. Eles, sempre de atalaia, a quererem aproximar-se, e eu firme, não deixava. Subiram a voz. Foram berrando missões para fazer, tipo Senta, Deita, Sai — sim, eu percebia-os bem, mas não obedeci. Não ia cair na esparrela de obedecer a estranhos.

Depois chegou um daqueles carros grandes que uivam muito alto, e dele saltaram mais humanos. Também tentaram aproximar-se da dona. A princípio continuei a não deixar, mas um humano de entre deles foi mais razoável. Olhou-me nos olhos e mostrou que estava tudo bem — estava calmo. Era o alfa deles, e um alfa eu entendo.

‘Boa, está tudo bem. Não queres sair da beira da dona? Tudo bem.’

Eu tinha medo do que estava a acontecer, mas ele não. Os mini-donos? O Dono? O que fazer?

‘Deixa-me só tratar da tua dona. Posso?’

Acabei por ceder, e deixei o humano mais compreensível chegar-se a ela. Sentaram-na numa cadeira de rodas, empurraram-na, e eu segui-a de perto pela rua fora, com medo do que pudesse acontecer-nos.

‘Boa, cãozinho. Está tudo bem.’

Quando dei por mim, estava no veterinário da esquina, e do nada — prenderam-me. Traição! Nunca confiar numa matilha alheia. Meteram a dona no carro grande logo a seguir, e eu a ladrar para que a deixassem, para que me soltassem, que eu estava responsável por ela…

Passei horas terríveis à espera numa jaula, sem saber o que era feito de nós… até que ouvi o Dono, que me veio buscar. Regressámos a casa em silêncio. Não estava muito contente por me ver, mas não me ralhou.

‘Vai para o ninho, Jola.’

E eu fui. Durante dois dias, não vi a dona em casa. O mini-dono Um olhou-me muito tempo, com aquela expressão de quem me vai dar missão mas não o faz. Abraçou-me e coçou-me as orelhas, desta vez em silêncio.

Quando a dona voltou, trazia um dos braços ao peito, e andava muito lentamente. Que estranho. Contra a minha vontade, fui inúmeras vezes para a marquise enquanto recebiam visitas, e por mais que ladrasse aos donos para que me deixassem fazer a vistoria de segurança, era em vão. Ocasionalmente as visitas olhavam-me através da porta de vidro, como se eu fosse o elo fraco da matilha.

Chegou uma tarde em que eu voltei a ficar sozinho com a dona. Ela não me quis passear, nem brincar comigo. Lia no sofá da sala. De mansinho, subi para o seu lado e pousei o focinho sobre o seu colo.

‘Jolinha…’, disse-me, parando de ler.

Fez-me festinhas com a mão boa. Fechei os olhos enquanto me coçava as orelhas.

‘Boa, Jolinha.’

A dona é uma fixe.

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