Amanhãs de improviso

Foi antes de ontem, e de ontem, e de ontem. O cenário era algo simples, com um divã básico e uma secretária à antiga, junto da qual conferenciavam cadeiras almofadadas de um encarnado vivo. Ao centro, uma janela fosca, ladeada de cortinas pouco insuspeitas, e estantes falsas compunham as paredes ocas.

À boca de cena, uma pianista de colete e laço improvisava músicas misteriosas, e do lado oposto, num cadeirão parcamente iluminado por um miserável candeeiro, encontrava-se uma detective. De cabelo loiro apanhado e pernas cruzadas sob uma gabardine pastel, preenchia as palavras cruzadas num jornal, indiferente às centenas de pessoas que se iam aglutinando ao longo das fileiras da sala de espectáculos.

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A viagem do pára-quedas

Em outubro de 2017, a Lightbox deu-me a oportunidade incrível de realizar um documentário sobre um evento de moda muito interessante.

A estilista Katty Xiomara idealizara um desfile da sua mais recente colecção (a Parachute Trip) no antigo matadouro industrial do Porto, e mediante a sua relação prévia com a Lightbox, propôs uma parceria para registar o acontecimento. Este documentário é o resultado.

Para o concretizar tive o apoio de uma equipa fantástica, desde as primeiras ideias na pré-produção até aos últimos retoques do cartaz. O produto final é um trabalho do qual me orgulho muito, e que pode ser visto aqui. Espero que gostem.

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Palavras perdidas

Custa-me falar-te. Ao que chegaram os nossos dias. Ter-te numa sombra de quem eras, anos a fio defronte da televisão a um volume ensurdecedor. Queria eu que me ouvisses como te tento ouvir, incapaz que estás de trazer coerência aos sons, perdido e encurralado nas vicissitudes da velhice. Foste de tudo um pouco. Polícia, músico, sapateiro, amolador. Cuidavas de um pomar remoto para o qual percorrias quilómetros de bicicleta. Criámos uma geração de gente que nos quer, ainda que nunca nos baste o seu querer, e fizemos da nossa casa um lugar feliz.

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O filme de uma viagem

Não é fácil para mim exprimir o quanto aprendi nas minhas viagens até Santiago de Compostela.

A primeira vez que fiz o Caminho não estava nada preparado para a experiência. Desde então, todas as viagens foram diferentes, mas tão enriquecedoras como a primeira. Já fiz o Caminho duas vezes com o Colégio Luso-Francês do Porto, uma vez com dois amigos próximos, uma vez sozinho, e uma com a minha mãe.

Agora, com um misto de vergonha e saudade, posso partilhar a curta-metragem que fiz sobre aquela vez que comecei o Caminho sozinho.

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O ritual nocturno

À noite, um par de criaturas deambula pelos cantos daquela praça. Entre blocos e blocos de apartamentos, a mitologia urbanística rasgou do chão uma desculpa de jardim. Sob a luz bolorenta dos lampiões, esta feia clareira de cimento subsiste, num vaivém de desconhecidos que nos desvia o olhar.

A natureza morta dos carros é até perder de vista. Ignora-se um ou outro parquímetro. Em bancos de jardim, partilham-se charros ou litrosas sob as cabeleiras das árvores em snooze, que filtram a noite amarelenta. Ao longo das reentrâncias escuras de cimento, enjauladas por colunas medíocres, dormem escritórios de estores corridos, maquilhados por pichagens desinspiradas. Há sempre quem deixe restos em embalagens de plástico para os mesmos gatos invisíveis. Quando chove, afogam-se os paralelos da estrada, e a relva do jardim perde-se numa profunda sopa de lama. E, por fim, podemos encontrar regularmente um vidrão, um papelão, um plasticão, eu e um cão.

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