Crónica

Pequenos papéis

Passa-te pelos olhos uma vaga de tristeza. Cais as mãos do parapeito e descais os olhos sobre os discos, os livros, pequeninos papéis.

Fossem os dias aquele sol que te banha a casa e te abre as cortinas de par em par. Que se refugia entre as tuas pálpebras e os olhos nelas inquilinos, esses teus pedaços de tempo, descidos ao presente após os risos, remetidos ao passado após os choros, e ao futuro após os gemidos.

Querias os dias assim. Perdidos pelas horas, teus, e dos teus livros. Teus e dos teus vestidos, das rendas com que tens casos, mantas com que te encasacas, e de todo o mundo de pessoas que te passam à janela sob os discos, os livros, os pequenos papéis.

És tua e da bicicleta, da tua caixa de correio, das frutas que te adornam os cantos, dos postais que recebes. Frutos dos mimos que plantas pelo mundo.

Quantos de nós te vimos, por uma vez, num vislumbre? A ti e à tua harmonia, num jeito de gente, em amor contigo mesma?

Deixas-te depois verter entre os pensamentos de quem te testemunhou, como tinta que cai entre as páginas. Fazes-te cair, peso morto, e a gravidade que te ampare. Vertes, sangue dos sonhos, qual crime irresoluto dos suspiros, qual aroma indecifrável da memória, poema transparente em páginas caídas. Não há como escapar-te.

Até que te escapas tu a ti. Cais tu nos teus olhos, na vaga de tristeza que os tomou. Cais no nada dos pequeninos dias.

Restarão os discos. Os livros. E a papelada.

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Crónica

O das irmãs gémeas

Há um espelho entre nós que me murmura: vou partir. Pressinto stress nos seu ranger, uma tensão em crescendo destinada a libertar-se. Em vez de fazer algo quanto a isso, antecipo a chuva de vidro após a quebra, e o nosso estado: sempre tão idênticas, gémeas irreflectidas, irremediavelmente cortadas uma da outra.

Naquele dia, fiquei séculos na cozinha a fumar cigarros teus. Havias de ver a forma como tremia nos sapatos e nadava dentro de mim, num estupor estuporado. Deixara café a fazer, ia para o emprego — já me conheces os turnos — blusa, batom, saia travada, cabelo apanhado, dedos acelerados. O mar fervilhava, aluminado, entre as gruas de arame, e a selva de vegetais macacava por entre o postal da mãe, que bebemos num batido. Roçavam as oito num dia feliz, e eu caída num banco, de olhar a monte, à pesca de pensar.

Momentos antes, invadi-te o quarto porque sabia as minhas chaves contigo, e o sorriso com que te recebi foi toda uma inocência que me abandonou. Dormias com aquela tua calma idílica que cobiço, um par de olhos tão meus sob um par de pálpebras tão distantes, e quem dormia com os tentáculos em teu redor era ele. Nunca umas chaves pesaram tanto.

Queimei o café e quinze minutos sentada. Ao passo que a cafeteira chorava, um cargueiro roubou-nos o sol, eu sequíssima de olhos. Fui trabalhar numa névoa que as horas não enxotaram. Ao almoço, o pobre do Stef desmascarou-me por entre duas frases, mas respeitou-me o silêncio tosco. Coisas, supliquei-lhe, depois conto-te. Passei-lhe as mãos pela face, para mim um pranto. Ele beijou-me a testa.

Dei-te oportunidades para abrires o jogo, mas bateste à porta do futuro. Eu que penasse. Eu que aguardasse. Depois falei-te do episódio das chaves, e aí, descoseste as tuas cozeduras. Que beberas naquela festa. Que ele te confundira comigo. Que te fizeste passar por mim. Que ele me amou através do teu corpo.

Contaste-me da sua surpresa em acordar contigo, sóbrio, refém de uma ferida que reabrira, vítima de um papel e da miopia das misturas. Cozinhaste-lhe um prato de fraquezas que ele fingiu comer, e daí a nada, voara do nosso ninho, mais violado que eu.

Deixa-me estar. Já te ouvi as lágrimas, eu afogada num mar de mantas, intrigada com a tua recente transparência. Volta a dormir como dormias, peço-te, e poupa-me às tuas explicações. Sim, conheço a solidão, e sim, a tentação é forte, a pressão é avassaladora, a passagem de ano um fósforo seguido da secura do natal.

Compreendo tudo isso, mas desengana-te se esperas que te perdoe. Perdoa-me tu por pedir-te que me deixes. Se há algo que não consigo ultrapassar, e que condenará a mãe a escrever-nos dois postais em vez de um, é saber que, por mais que me jures em contrário, pousaste as chaves exactamente onde querias pousá-las.

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Crónica, Viagens

Texto ignóbil

Não há forma de fugirmos de nós próprios. Quando da família só restar a nossa carcaça periclitante, suspensa em pontes de batimentos cardíacos num hospital manhoso onde só o BI nos sabe o nome — ainda somos nós que lá estamos. Aquela vaga coleção de células, maioritariamente pele, onde dois globos oculares gastos rodopiam confusos por entre a nébula. Sim — essa é a nossa despedida parva a um universo que se está nas tintas.

Entre a procura de uma gargalhada no próximo e a tentativa de nos afastar dessa cama de hospital, há uma ligação ténue. Houvesse em mim motivos para me desligar desse catéter mental, tinido eterno da mente, fá-lo-ia num ápice. A verdade é que, por mais pessoas que conheça e por mais que me melhore ou tente fazê-lo, cada vez me sinto mais próximo de não conhecer ninguém. A cama sabe-me insistentemente a não minha. Perco apegos — hortas humanas que deixo cair em descuido. Digo-me desprendido de materialismos, e refugio-me nesse pensamento como se de um pequeno forte mental se tratasse. Valorizo artes de fazer e esqueço-me, conscientemente, das de deixar ser. Sou vão e desconsiderado, e não se espante quem me ler a escrever assim. É das coisas mais optimistas que escrevi em anos, fora toda a maluqueira que me sai quando invento personagens.

Todos os dias me sabem a viagens entre um A e um B, cíclicos, onde a minha batalha entre o sono e a vigília dá lugar a uma dança de cores e trocas de palavras às quais chamam dia. A e B trazem-me, ao fim de contas, um certo valor X, que por si só, me traz uma mão-cheia de nada. Sucedem-se sorrisos e palavras amigas a meses repetidos de semanas sofridas.

Não estou deprimido, nem sequer triste, e essa é a pior parte. Estivesse triste e este texto seria um manifesto, uma constatação do estado das coisas e do antagonismo destas a uma harmonia. Como não estou triste e não estou feliz, só posso habitar num meio termo neutro, amansado, conformado. E isso é o que me assusta.

Na minha insistência por um lugar no mundo há mil uma dúvidas. De que, ao certo, somos merecedores, só por cá estarmos? Qual é o mérito meu de ser respeitador dos valores que me construíram enquanto molde de gente? Qual é o mérito de seguir impulsos, físicos e intelectuais, se estes resultam de uma cadeia infinda de impulsos desprovidos de livre arbítrio?

Há nas minhas viagens uma sede em descobrir pistas de um propósito que me valha o tempo, que traduza os dias em algo efectivamente meritório. Porém, nessas deambulações entre mil e um universos de outras pré-carcaças iludidas, apercebo-me da imensidão da minha ignorância, e da futilidade e frustração de qualquer tentativa minha em unir o meu esforço numa tapeçaria coerente.

Quanto mais viajo, mais ignorante me torno. Mais ciclos completos de vidas conheço, e mais incompleto me descubro. Gostava de, como quem vai a um supermercado, poder obter uma solução que me satisfizesse. Hindu, cristã, budista, qualquer crença que me preenchesse os dias e me fizesse ir para a cova mais contente. Façam fila para mas vender, e deixem-me pesar os prós e os contras das vossas religiões. Oxalá me tragam algum conforto — sim, porque, vamos ser sinceros aqui, isto é uma procura egocêntrica e ignorante de alguém que nunca passou uma única dificuldade.

Não posso é observar o meu crescente cinismo e incompreensão de braços cruzados, e ceder ao ímpeto de julgar desmesuradamente, de castrar a compreensão por esta me tomar tempo. Não posso desistir das pessoas que me irritam, daquelas que me enfastiam, das que me azucrinam a incompreensão, das que enchem o mundo de um ruído que não sei interpretar.

Quantos pontos desci na vossa consideração? Quantos de vocês leram até esta frase? Com estas duas perguntas, digo mais de mim do que no resto. A verdade é que não acredito em vocês. Escrevo no blog por vaidade e para me certificar de que ainda tenho palavras nas pontas dos dedos. Escrevo para ver até onde vai a minha honestidade para comigo, mas posto tretas indulgentes como esta com o mesmo narcisismo com que se muda uma fotografia de perfil no Facebook. Reitero a minha vaidade, o meu gosto em ler-me e a minha acepção de que, realmente, estou melhor a inventar personagens.

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Crónica, Viagens

Puzzle

Começamos com uma caixa de madeira. Não nos deixemos seduzir pelos seus veios estruturais, pelo seu toque quente e carícia envernizada. É uma caixa destinada a arder no fim, e como tal, algo passageiro, de uma fugacidade trágica.

Abrimo-la, de olhos virgens e vazios, e, num pasmo de estupidez, vemos um puzzle com um milhão de peças. Não compreendemos o que são porque não temos nada na cabeça. Fechamos a caixa e sentimos algo a chocalhar no bolso — já lá temos algumas! Ainda vagas e a ganhar cor como um polaróide improvisado, pousamo-las sobre um tampo de alumínio estéril, e banhamo-as com a luz de um candeeiro clínico.

São peças importantes, que para sempre figurarão no nosso centro. Os nossos pais, irmãos, língua materna, terra, avós, primeiros amigos. Ligam-se e desligam-se. Como todas as seguintes, transformar-se-ão com o tempo e as experiências que lhes fizermos, boas ou más, consciente ou inconscientemente.

Dependendo da sorte, e do nosso empenho e ciência, teremos ligações mais ou menos férteis entre peças, e oportunidades de abrir a caixa e de lá retirar outro bocadinho do nosso futuro eu. Em muito este abrir e fechar da caixa parte de nós, mais do que por vezes damos conta. Do abrir um livro, ao fazer amigos despreocupado, arriscar a medo, ou até embarcar num comboio — todos os elementos que encaixamos na fronteira de quem somos fazem crescer a obra. Dão-lhe cor, textura, motivo, reflexão. Tocam-se peças, tocam-se mãos e lábios. Dizem-se palavras, pisam-se solos, levantam aviões. Umas vibram de cor, quais faróis por entre o misto, outras perdem-se, desvanecem, deixam de encaixar direito.

Há em nós muito, e esse muito trabalha-se e regenera-se tanto quanto queremos. Tanto quanto nele ainda acreditarmos. Tanto quanto as peças ainda se liguem, se queiram.

Pouco a pouco na amálgama começa a afigurar-se algo, tenuemente, tímido, por entre o caleidoscópio desorganizado. Onde haverá aqui uma vitória, uma vez que o puzzle nunca estará completo, e a caixa e todas as suas peças arderão muito antes de o entendermos?

No meu entender presente, a vitória está na descoberta. No acto de levar as mãos à caixa, de nos deixarmos abismar como no primeiro dia com a imersão dos nossos dedos em infinitas combinações, histórias, sorrisos e lugares, e, encaixe a encaixe, no imenso prazer de crescer e aprender.

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Crónica

Ano novo

Já há algum tempo que não escrevia aqui, ainda para mais na nudez do português e nas minhas próprias palavras (e não as de uma personagem, recortada dos remendos da minha ignorância). Há nisso algum pudor da minha parte — como se sentisse que não mereço a leitura, ou que o quadro que tenho tendência a pintar ia cair inevitavelmente na repetição.

Sinto que vou descendo numa espiral da escrita mordaz, macabra, de desejos soturnos e rebaixados. Há em mim algum cinismo a emergir, numa torrente de pensamentos gastos e acizentados que reprovo. São as três bruxas imaginárias do costume, as três controladoras do miolo a estrangularem-me os pensamentos. A Cínica, a Céptica e a Ociosa. Três grandes antagonistas de quem sou — fracções de mim com verruga, cara verde e chapéu pontiagudo, riso estridente e hálito de um só dente.

“Caia o Gui já agora ao chão, mal eu finde esta poção. Quer ele passear pela mão, no sistema solar pois então, despreocupadamente como um cão? Não-ão-ão! Não quer ele levar tiros? Nem de raspão? Levá-los-á pois então! E se o estômago é um balde, sem ordem que o salve, porque não será o coração?”

Era quem as cozesse, às três juntas, na mesma sopa que inventam. Que fiquem para sempre em 2016, mesmo que na tranquilidade de uma esplanada, a emborcar cocktails de mal-estar e a conjecturar a uma distância aceitável. Não lhes guardo rancor. Afinal de contas, são partes de mim.

A verdade é que 2016 foi um ano fantástico, a respeito do qual não ouso sequer principiar uma descrição. Nem sonhava com a possibilidade de metade do que aconteceu, ou com um décimo das pessoas incríveis que conheci, algumas das quais verdadeiramente especiais. E, como tantos, há muito que desejo para o próximo ano. Como tantos, metade do que desejo fica bem desejar. Metade dessa metade não é sequer exequível, só que fica bem mencioná-la. Pouco do resto não é palha, e desse pouco, pouco resta.

Posto isto, não vos maço com o que vou exigir de mim… mas de uma coisa podem ter a certeza. As bruxas ficam para trás. Feliz ano novo.

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