Marcadores de areia

À terceira tentativa frustrada, levantei os olhos do parágrafo. Um grupo de seniores discutia dinheiros e apartamentos que alguém deixou em herança ao sobrinho. Respirei fundo. Por mais que eu ande, por maior que seja a minha peregrinação até ao lugar perfeito para a minha toalha, há sempre um grupo.

Longe de mim querer mal aos sábios de bronze perfeito, ao defunto ou ao seu herdeiro. Plantei a testa na toalha, ouvindo inadvertidamente o evangelho dos bens deixados ao rapaz como lhe fizesse as vezes de advogado ou confessor.

Lembrei-me do filme Tenet, onde duas personagens discutem uma intriga nuclear de fim de mundo em pleno autocarro. Só me apetecia gritar para o ecrã. Há pessoas à vossa volta, seus imbecis. Uma delas deve estar a tentar ler. Ninguém quer saber da vossa vida privada!

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Casa de pedra

Ontem foi um dia de aniversário e a casa encheu-se. É uma casa antiga, eu diria orgulhosa, e ainda assim descortinei-lhe nas faces um certo rubor de excitação. Vi-a surpreender-se com o aparato dos carros, após o qual rapidamente se recompôs, já entretida a identificar os convidados que lhe subiam as escadas de pedra. Acordou os músculos discretamente, como que um mestre de sala acordado ao serviço, obstinadíssimo em dar o melhor de si. Senti a sua felicidade por ter um dia generoso para receber os familiares, numa gratidão imensa de os ter juntos. A uns, conhecera infâncias e adolescências, sermões, educações e namoricos. A outros, dificuldades de viagens, de distâncias, de acidentes e de velhices encurtadas. Aniversários, longas férias de amigos, curtas passagens de visita. Copos de água em longas mesas no quintal, após um curto caminhar a partir da igreja. Primas rebeldes em fugas momentâneas, agora vizinhas de coração. Filmes rolando pelas horas da noite, pianos alegres, pianos tristes. São incontáveis os fragmentos de ligações humanas incrustadas na sua pedra. É através dos olhos dos outros que vejo a casa de novo, agora como a anfitriã que verdadeiramente é, sábia para além do seu olhar terno. Do pó das caves ao do sótão, por entre as fotografias e os livros temporariamente empilhados, ela sabe, mais que eu, para que momentos ligavam estas mesmas portas, para que bigodes, coletes, vestidos, casacos e bibes rodavam estas mesmas esquinas, e que pesadelos de criança serpenteavam ou gargalhavam pelos corredores de noite. Frescura das sombras, abafos de verão e desabafos de inverno, navego pelos corredores da nossa casa como se por eles nadasse, num naufrágio que não naufragou mas resistiu aos tempos, tal é o assombro que me apanha desprevenido, tal é a nostalgia que me chega em segunda mão. Rangem as madeiras à minha passagem, como se comigo falassem, procurando despertar-me do hipnotismo vago do dia-a-dia. Não consigo deixar, por vezes, de me sentir um impostor a seus olhos. Sou uma de muitas personagens que lhe caiu para o colo, e que à data não lhe trouxe nada senão uma parte de si, e uma parte de pouco é nada. Pergunta-me a casa, não alheia aos anos que passam, se entre o verão anterior e este construí algo. Ela, que me conhece até aos ossos, sente o meu silêncio. Tantas vezes fora laboratório de sonhos, palco de experiências, vidro de objectivas de câmaras e telescópios. A minha incapacidade de a descrever contrasta com a sua facilidade de me descrever a mim. A cada verão que cá venho, ouve-me um suspiro. Abraço o cão, deliciosamente alheio à personalidade da nossa casa, e pergunto-me, se um dia lhe serei merecedor de um quarto.

Luvas de tinta

A nudez das minhas mãos expõe a sua fragilidade. Observo a elegância dos ângulos do pulso, da amplitude dos nós, daquele mindinho que me incomoda, e aprecio a viagem das falanges, falangetas e falanginhas pelo mundo. É uma de aventura e de muitos uniformes e fazes-de-conta.

Se os olhos espelham a alma, as mãos dão-lhes corpo, digito eu ao teclado, numa chuva de caracteres liderada pelos meus polegares, indicadores e médios. Ocorre-me pensar nas minhas mãos e em todas as luvas com que as disfarço. São luvas de mergulho, luvas de combate e luvas de neve.

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Amanhãs de improviso

Foi antes de ontem, e de ontem, e de ontem. O cenário era algo simples, com um divã básico e uma secretária à antiga, junto da qual conferenciavam cadeiras almofadadas de um encarnado vivo. Ao centro, uma janela fosca, ladeada de cortinas pouco insuspeitas, e estantes falsas compunham as paredes ocas.

À boca de cena, uma pianista de colete e laço improvisava músicas misteriosas, e do lado oposto, num cadeirão parcamente iluminado por um miserável candeeiro, encontrava-se uma detective. De cabelo loiro apanhado e pernas cruzadas sob uma gabardine pastel, preenchia as palavras cruzadas num jornal, indiferente às centenas de pessoas que se iam aglutinando ao longo das fileiras da sala de espectáculos.

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A viagem do pára-quedas

Em outubro de 2017, a Lightbox deu-me a oportunidade incrível de realizar um documentário sobre um evento de moda muito interessante.

A estilista Katty Xiomara idealizara um desfile da sua mais recente colecção (a Parachute Trip) no antigo matadouro industrial do Porto, e mediante a sua relação prévia com a Lightbox, propôs uma parceria para registar o acontecimento. Este documentário é o resultado.

Para o concretizar tive o apoio de uma equipa fantástica, desde as primeiras ideias na pré-produção até aos últimos retoques do cartaz. O produto final é um trabalho do qual me orgulho muito, e que pode ser visto aqui. Espero que gostem.

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