EN, Travels

Magic air

A timid sun lurked between rows of distant, sleepy houses. The raincoats shone from the constant pouring, and the mud on our boots clinged for dear life. You’d see clearly, by the way we moved, how sore our feet were. Compared to past days, they were strolling gently through freshly cut grass, drinking camomile tea and being massaged to the soothing sound of generic oriental new age monk music.

We had arrived on the tiniest of grocery stores. The old lady running it didn’t care much for light, as half her universe was as dark as a coal mine, and the rest dimly lit. The small collection of fruit and food was everything you could hope for in the middle of the Camino. I picked up some bananas, apples and grapes, and ordered coffee. Scratch that — saying I ordered coffee will sound like I was in a Starbucks, selfie’ing shamelessly around my badly written name on the paper cup. I wasn’t.

As I limped my way across other wet bastards lost between translation and incomprehension, and sat my tired ass on a coca-cola chair by a coca-cola table, I noticed my aching friends laughing at me for buying and eating grapes before a giant walk. That’ll work out fine, they said. You’ll shit yourself numb. Well, as it turns out, it did work out fine, you idiots, thanks for the advice.

Well, this was the part I was intending to reach with all the glamorous introduction. I notice how the tone I used right up to this moment is completely wrong for what i wanted to convey. Oh boy. Let’s see. I have to keep on being a jerk, while expressing something as delicate as my poker face while people talk about important things. That’s tricky.

Maybe if I flash forward to the point I am at now? Riding a moving metro train on my way to edit video in Porto, twenty minutes to nine in the morning, powered up by two non-shareable coffee cups. Turns out the nice weather had them too, as the rain and occasional thunderclap soars through my drug-induced morning. No August for you!

That day on the tiny little shop is three years old, and yet here I am remembering it.

The rain. The fruit. The jokes. The wet pilgrims resting, eating and relieving themselves before a reluctant outdoorsy shower. And of course, the table by our side, where two girls sat, in a smoky daze of slow DIY tobacco with a portuguese health label on its yellow package.

The mix of relaxation, coffee and beauty was as inviting as it was subtle. You could see the two were in a zen state, and the rain was merely a passing train in the distance, carrying other people’s worries.

When I asked where they came from, the girls brought their eyes back to this reality, and smiled. That was it. From that point on, we had two extra friends. Laughter and wine-enhanced happiness were to come a lot during the next few days. Further details are unimportant for the purpose of this text.

Or are they?

A memory is a detail. So is time, and the purpose of dreaming. The day-to-day hurry to gather invisible money, and the feeling of uneasiness inherent to feeling disconcerted, absent, disconnected, as a cog in the irrelevant machine, writing on a fucking phone.

Be all that as it may, there she was. Amidst all my failures and dreams, driving magic air through her lungs. Wet, dirty and beautiful, drinking a beverage she absolutely loved, cheaper and better in Portugal by a lot.

Details, details. How I long for them. How they populate and paint a gray mind. How they visit, like relatives do, floating around our minds’ living rooms, all flourish and smiles, spreading stories from other times and places.

Ah shit. Here’s my stop.

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PT, Quadro

Quadro #5

PERSEPHONE 4 MC, 7/31/2071, GET 123:43, CST 09:45 54/1, AMC ALICE

  • James /
  • Aqui Alice /
  • Envio mensagens pequenas porque não sei se tenho tempo /
  • Vídeo talvez nunca conseguisse /
  • Antes de mais amo-te /
  • Estou muito longe /
  • Imagens também fora de questão /
  • Imagina-me a sorrir-te /
  • Escrevo tudo seguido /
  • Mas cada mensagem vai demorar um pouco mais a chegar que a anterior /
  • Minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, até ao infinito /
  • Quero que saibas que nunca me vais perder /
  • Embora vagueie de encontro ao fim /
  • Levo-te a ti no peito /
  • Longa história, infiltração na nave /
  • Equipa morta, última sobrevivente /
  • Consegui conter a ameaça, temporariamente /
  • Salvamento é impossível, ameaça contagiosa /
  • Destruição da nave última solução /
  • Tracei rota de encontro ao Centaurus C /
  • É um buraco negro /
  • Dentro de horas cruzarei o seu horizonte de acontecimentos /
  • Lembras-te de quando to expliquei /
  • É a linha que separa a esperança do seu contrário /
  • O ponto sem retorno, a fronteira /
  • A partir da qual nem a luz escapa à gravidade /
  • E se ela desiste, quem sou eu /
  • Quanto mais me aproximo /
  • Mais difícil é para as mensagens emitirem /
  • Até chegar à derradeira que não conseguirá alcançar-te /
  • E que morrerá comigo /
  • Comprimida na inconsciência /
  • Num ponto de massa infinita /
  • Longe de ti /
  • Há muito que nunca te disse /
  • Que te amo não incluo nesse muito /
  • Amo-te um amar humano /
  • De formiguinha /
  • És-me tudo, ainda que dentro de pouco /
  • Toda eu seja um nunca eterno /
  • A criatura ruge, mas está contida /
  • Os corpos da equipa pairam inertes /
  • As luzes falham, lavo a cara de lágrimas /
  • Faz frio /
  • Aqui, no maior dos silêncios /
  • Onde a vida é uma teoria distante /
  • O meu pesadelo termina contigo no pensamento /
  • Não fizemos um futuro juntos /
  • Fá-lo-ás com alguém que te ame /
  • Promete-mo /
  • É uma ordem /
  • Sê feliz /
  • Enquanto eu pairo infinitamente /
  • E os meus amos-te se estendem /
  • Por muitos e muitos anos /
  • Indefinidamente, incondicionalmente /
  • Por este espaço fora /
  • Para sempre /
  • Amo-te /
  • Amo-te /
  • Amo-te / 
  • […]

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Quadro #4

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

Revistou-o à luz de uma lanterna de manivela. Fósforos, boa. Um canivete suíço, óptimo. Uma carteira – quem é que ainda usa uma carteira…? – tinha dinheiro – uma inutilidade nos dias que correm – e fotos de “família”. Tsc. Bernhard já nem sabia o que era isso. A sua família de agora era um conjunto de cicatrizes, resquícios da família anterior. Cicatrizes, isto é: tatuagens tridimensionais, símbolos de liberdade, que gritavam algo como “salve-se quem puder, alimente-se quem conseguir. Estes não são tempos de civilização. São de selvajaria, de presas e predadores”.

Cuidadosamente retirou o fio de arame do pescoço de Albert e limpou-o do sangue e muco. Guardou-o com estima, enrolado num novelo. Sempre apreciou a perfeição das ferramentas certas nos pescoços certos. Reuniu os seus pertences, pegou nos alimentos que Albert recolhera e pôs-se a caminho. Dentro de minutos seria dia, e convinha afastar-se dali antes que o odor daquele petisco flatulento viajasse.

Um sol improvisado nasceu por entre as ruínas do bairro. Restos carbonizados de carros serviam de canteiros, e as silvas cresciam descontroladamente pelos ladrilhos. Autocarros tombados cediam passagem aos tons alaranjados de um novo dia. Mascando os restos ressequidos de uma desculpa de pão, Bernhard deparou-se com um vulto negro, tenuemente recortado na contraluz. Estava sentado, nem a cinquenta metros, e olhava na sua direcção. Era um Rottweiler.

Bernhard sacou da 45. Sem movimentos bruscos, retomou a marcha, enveredando por duas vivendas numa tentativa de o distrair. Mal saltou uma cerca entre quintais, estremeceu. Um Boxer fitava-o silenciosamente sob um baloiço de brincar. Bernhard acelerou o passo, mergulhando entre uma vedação improvisada de uma antiga horta, e começou num caminhar atabalhoado. À sua esquerda esperava-o um Grand Danois. Atrás de si trotava um atraçado de Pastor Alemão. Bernhard já investia numa corrida, desesperado por encontrar uma casa antes que fosse tarde. Ao saltar uma sebe o corpo de um Husky ergueu-se, fazendo-o tropeçar e cair redondo na terra.

Ergueu a cabeça e percebeu que estava completamente cercado. Os cães aproximavam-se impavidamente. Deu um tiro para o ar. E depois outro – não arredaram passo. Sabendo que não tinha balas para todos, apontou para um à sorte e matou-o, mas em vez de os assustar, uma forte pontada nas pernas foi o resultado. De novo no chão, os cães apunhalavam-lhe os braços e os pés, desfazendo-lhe a mão da arma. Depois pararam, de pose acabrunhada – e isso não se deveu aos seus gritos de dor, mas sim ao cão que se lhes juntou. Por entre um Doberman e um Pastor Alemão, surgiu um cão sujo, velhíssimo, que fez o seu caminho até Bernhard.

Este viu um conjunto de patas a aproximar-se. A muito custo, subiu os olhos e paralisou, horrorizado, reconhecendo aqueles olhos gelados. Por entre as peladas do pescoço, impossível de passar despercebida, figurava uma imensa cicatriz.

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Quadro #1

A televisão vociferava ao lado da lareira morta. Os raios de luz invernosa, filtrados do frio pelo duplo vidro, coloriam a sala de quente, a começar pelos tapetes convidativos a pés descalços, e acabar nos sofás achagados em mantas.

A mesa permanecia por levantar, adormecida desde a véspera com os restos de peru, apontamentos de vinho, e uma população de pinhões perdidos sobre os padrões de vermelho. Muitos teriam caído para o chão, mas desses só reza a lenda, visto que um aspirador canino – agora deitado aos pés da dona – se encarregou de os erradicar. O pinheiro reluzia, com as suas tradicionais luzinhas chinesas. Não seria este o cenário natalício perfeito, se faltasse o braço carinhoso do pai de família sobre a filha, sob mais um cobertor, este por sua vez sobre o sofá que ofereceram num casamento emoldurado. Todos de olhos fechados, pai e mãe, filha e cão, não prestavam atenção a mais um daqueles clássicos filmes que importunam horas de anúncios com a sua narrativa.

Não fará parte do quadro familiar e enternecedor, supomos, o estremecer de paredes que se seguiu ao terceiro bloco de publicidade. Quadros não figurativos quase se desprenderam de pregos figurativos, um livro pretensioso tombou na estante, e as pancadas continuaram. Gritos também se espalharam pelo espaço, esses um pouco mais indiferentes aos objectos. Por fim, eis que a porta de entrada da casa voa de encontro à almofada de casacos do bengaleiro, mas quem entrou não foi o Pai Natal.

Posso estar enganado, mas esse não tem por costume levar um machado e entrar por arrombamento. Nem aquela máscara estranha. Não traria ajudantes, e uma multidão de familiares e vizinhos na retaguarda. Fora de questão igualmente está entrar pela sala adentro sem convite e encontrar nesta quatro vítimas. Verificar-lhes os sinais vitais. E dizer ao seu estupefacto chefe, lutando lágrimas de frustração, que já não há nada a fazer.

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Huskies and wolves

Recently I watched a cheerful movie also named Frozen where, spoiler alert, a skier is ripped apart by wolves. Between the horror, blood and gore, I found myself cheering for them. No, I’m not a sociopath. You see, two weeks ago, my dog Indy died of leishmaniasis. He was a beautiful three-year-old Siberian Husky.

Although not the sharpest of dogs (Average Working/Obedience Intelligence), huskies are an amazing breed full of history and heroic feats, very friendly and joyful. Bred for speed, work and agility by the Chukchis (semi-nomadic, reindeer-hunting people of extreme north-eastern Siberia), huskies have a happy disposition and work incredibly well together. They’re fierce in extreme conditions and low-maintenance in terms of food (thanks to their closeness to wolves). If you needed more power, you could add more dogs: 18 or 20 dogs could be hitched to a single sled, without fighting, which wasn’t possible with other breeds. And I find it adorable that their husky mothers would help train entire litters in the art of sledding.

In the 1930s, the Soviets tried to destroy every vestige of non-Soviet culture, including the dog breeds. Thankfully, the artic explorer Olaf Swenson exported the huskies to North America, saving them from disappearance. In 1909, very few people knew the Siberian Huskies in Alaska, when, against all bets made, a team of nine huskies arrived at third place in the All Alaska Sweepstakes Race. They couldn’t believe it. The small and light huskies proved them all wrong. Balto, the husky, and the Great Race of Mercy is an incredible story of perseverance, in which a great relay sled race took place across Alaska, to provide medical serum essential to assist in a deadly epidemic.

Last, but not least, Siberian Huskies are gorgeous. They have triangular, upright ears, and their double coating can have any color, from pure white to pure black, combinations included. Their eyes also have a lot of variety: blue, brown, green, amber, etc., and even mixed. They’re very silent, and when they make some noise, it’s mainly a howl. Our dog howled when he wanted to go outside. Their fluffy, fox-like tails evolved that way to protect their noses in extreme coldness: they lie with the nose covered in tail fur, making the famous and beautiful siberian swirl.

I know, I know. Nowadays, buying a dog isn’t the right thing to do. Ironically, the right thing to do is to adopt the bought dogs other people abandoned. I get that. Honestly. Mixed dogs are genetically superior, more intelligent, and will love you as deeply as any full-breed dog would. Buying or adopting a mixed dog is better for the species as a whole. Still, I loved owning a Siberian Husky.

With breeds, you can read all about them, where they came from, their expected personality, who they fit best, and so on. I loved watching a friendly wolf stretch in my living room. It was funny every time. I loved even more when he had the hiccups, snored, or breathed with his tongue out. He wasn’t very obedient, but he was the friendliest. I miss him deeply. How many times did I sing this while hugging him? Not enough, that’s how many.

I found out that their howl, at full power, could be heard at great distances. I shivered, thinking what could the animal be feeling, so tragic, or alarming, that he’d have the need to howl in such a way. I thought that I wouldn’t want to see that happening. Thankfully, it never did. The last painful howl wasn’t his.

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