Palavras perdidas

Custa-me falar-te. Ao que chegaram os nossos dias. Ter-te numa sombra de quem eras, anos a fio defronte da televisão a um volume ensurdecedor. Queria eu que me ouvisses como te tento ouvir, incapaz que estás de trazer coerência aos sons, perdido e encurralado nas vicissitudes da velhice. Foste de tudo um pouco. Polícia, músico, sapateiro, amolador. Cuidavas de um pomar remoto para o qual percorrias quilómetros de bicicleta. Criámos uma geração de gente que nos quer, ainda que nunca nos baste o seu querer, e fizemos da nossa casa um lugar feliz.

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O filme de uma viagem

Não é fácil para mim exprimir o quanto aprendi nas minhas viagens até Santiago de Compostela.

A primeira vez que fiz o Caminho não estava nada preparado para a experiência. Desde então, todas as viagens foram diferentes, mas tão enriquecedoras como a primeira. Já fiz o Caminho duas vezes com o Colégio Luso-Francês do Porto, uma vez com dois amigos próximos, uma vez sozinho, e uma com a minha mãe.

Agora, com um misto de vergonha e saudade, posso partilhar a curta-metragem que fiz sobre aquela vez que comecei o Caminho sozinho.

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A língua do pica-pau

Eu e a pedra da casa bebericávamos uma luz quente, de abraço, que se desprendia dos recortes da folhagem. Eram cinco e meia de um dia de setembro. Ouvia pássaros ocultos na azáfama das folhas, ao passo que caía uma sugestão de chuva de nuvens indecisas.

Que chuva? Abrigado sob as cabeleiras do jardim sonolento, nem a sentia. Que tempo estranho. Sobre mim pairava uma tentativa de névoa, e à distância torravam aldeias sob um sol solto. O calor, esse, banhava as terras por igual — um calor corpóreo, como se os meus órgãos se estendessem pela tarde, e o meu sangue encarreirasse pelas covinhas dos canteiros.

Passava das cinco e meia. O piano ecoava pelas ruelas da aldeia alaranjada. Passos tímidos raspavam as escadinhas do sótão. As cadelas dormitavam pelo chão da cozinha, onde pingava loiça na banca. Não se ligaram as luzes da casa, que também precisa de dormir. Agradecem as sombras acolhedoras, os livros poeirentos e a decoração dispersa, e assim, décadas e décadas de tardes quentes dormiam connosco.

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Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.
O hotel. Ainda estava no hotel.
A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.
Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

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Pequenos papéis

Passa-te pelos olhos uma vaga de tristeza. Cais as mãos do parapeito e descais os olhos sobre os discos, os livros, pequeninos papéis.

Fossem os dias aquele sol que te banha a casa e te abre as cortinas de par em par. Que se refugia entre as tuas pálpebras e os olhos nelas inquilinos, esses teus pedaços de tempo, descidos ao presente após os risos, remetidos ao passado após os choros, e ao futuro após os gemidos.

Querias os dias assim. Perdidos pelas horas, teus, e dos teus livros. Teus e dos teus vestidos, das rendas com que tens casos, mantas com que te encasacas, e de todo o mundo de pessoas que te passam à janela sob os discos, os livros, os pequenos papéis.

És tua e da bicicleta, da tua caixa de correio, das frutas que te adornam os cantos, dos postais que recebes. Frutos dos mimos que plantas pelo mundo.

Quantos de nós te vimos, por uma vez, num vislumbre? A ti e à tua harmonia, num jeito de gente, em amor contigo mesma?

Deixas-te depois verter entre os pensamentos de quem te testemunhou, como tinta que cai entre as páginas. Fazes-te cair, peso morto, e a gravidade que te ampare. Vertes, sangue dos sonhos, qual crime irresoluto dos suspiros, qual aroma indecifrável da memória, poema transparente em páginas caídas. Não há como escapar-te.

Até que te escapas tu a ti. Cais tu nos teus olhos, na vaga de tristeza que os tomou. Cais no nada dos pequeninos dias.

Restarão os discos. Os livros. E a papelada.