Crónica, Viagem

Puzzle

Começamos com uma caixa de madeira. Não nos deixemos seduzir pelos seus veios estruturais, pelo seu toque quente e carícia envernizada. É uma caixa destinada a arder no fim, e como tal, algo passageiro, de uma fugacidade trágica.

Abrimo-la, de olhos virgens e vazios, e, num pasmo de estupidez, vemos um puzzle com um milhão de peças. Não compreendemos o que são porque não temos nada na cabeça. Fechamos a caixa e sentimos algo a chocalhar no bolso — já lá temos algumas! Ainda vagas e a ganhar cor como um polaróide improvisado, pousamo-las sobre um tampo de alumínio estéril, e banhamo-as com a luz de um candeeiro clínico.

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Crónica

Ano novo

Já há algum tempo que não escrevia aqui, ainda para mais na nudez do português e nas minhas próprias palavras (e não as de uma personagem, recortada dos remendos da minha ignorância). Há nisso algum pudor da minha parte — como se sentisse que não mereço a leitura, ou que o quadro que tenho tendência a pintar ia cair inevitavelmente na repetição.

Sinto que vou descendo numa espiral da escrita mordaz, macabra, de desejos soturnos e rebaixados. Há em mim algum cinismo a emergir, numa torrente de pensamentos gastos e acizentados que reprovo. São as três bruxas imaginárias do costume, as três controladoras do miolo a estrangularem-me os pensamentos. A Cínica, a Céptica e a Ociosa. Três grandes antagonistas de quem sou — fracções de mim com verruga, cara verde e chapéu pontiagudo, riso estridente e hálito de um só dente.

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Conto

Quadro macabro

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

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Crónica

Leishmaniose

Deparamo-nos com a ideia de não mais ver móveis arruinados. Comandos mordidos. Sofás babados. Escovas de dentes desfeitas e sapatos esventrados, já para não falar nos pães misteriosamente desaparecidos, entre outros géneros alimentares praticantes da arte da evaporação.

É economicamente apreciável, este fim do prejuízo. O término daquele diário fechar de portas preventivo, ou da limpeza de divisões da casa, e mesmo o deitar ao lixo de objectos até horas antes perfeitamente funcionais. Há, no horizonte, a possibilidade dos nossos bens respirarem de alívio pela primeira vez em três anos.

É o afastar definitivo de um par de olhos azuis cuja ignorância, inocência, instinto e orgulho vão contra as garantias e códigos de utilização de uma miríade de coisas mortas. Um par de olhos que nunca compreenderá o que fez de mal, o que se passou, porque se sente desta maneira, e porque tem dormido tantas noites numa gaiola, ligado a um tubo, na companhia de animais desconhecidos. Imagino-o em silêncio, por entre uma multitude de gemidos, latidos e mios confusos. “Onde está o meu dono? Porque tenho tanto sono? Será que estão a jantar lá por casa? Até quando vou ficar aqui?”

No entanto, a possibilidade acentua-se no horizonte. Ei-la, impassível, a aproximar-se a passos de gigante. Mesmo que tenhamos feito tudo para a prevenir. Mesmo que chegue anos antes do previsto. Mesmo que seja tão triste.

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