Ano novo

27/12/16 — 2 Comments

Já há algum tempo que não escrevia aqui, ainda para mais na nudez do português e nas minhas próprias palavras (e não as de uma personagem, recortada dos remendos da minha ignorância). Há nisso algum pudor da minha parte — como se sentisse que não mereço a leitura, ou que o quadro que tenho tendência a pintar ia cair inevitavelmente na repetição.

Jola

Sinto que vou descendo numa espiral da escrita mordaz, macabra, de desejos soturnos e rebaixados. Há em mim algum cinismo a emergir, numa torrente de pensamentos gastos e acizentados que reprovo. São as três bruxas imaginárias do costume, as três controladoras do miolo a estrangularem-me os pensamentos. A Cínica, a Céptica e a Ociosa. Três grandes antagonistas de quem sou — fracções de mim com verruga, cara verde e chapéu pontiagudo, riso estridente e hálito de um só dente.

“Caia o Gui já agora ao chão, mal eu finde esta poção. Quer ele passear pela mão, no sistema solar pois então, despreocupadamente como um cão? Não-ão-ão! Não quer ele levar tiros? Nem de raspão? Levá-los-á pois então! E se o estômago é um balde, sem ordem que o salve, porque não será o coração?”

Era quem as cozesse, às três juntas, na mesma sopa que inventam. Que fiquem para sempre em 2016, mesmo que na tranquilidade de uma esplanada, a emborcar cocktails de mal-estar e a conjecturar a uma distância aceitável. Não lhes guardo rancor. Afinal de contas, são partes de mim.

A verdade é que 2016 foi um ano fantástico, a respeito do qual não ouso sequer principiar uma descrição. Nem sonhava com a possibilidade de metade do que aconteceu, ou com um décimo das pessoas incríveis que conheci, algumas das quais verdadeiramente especiais. E, como tantos, há muito que desejo para o próximo ano. Como tantos, metade do que desejo fica bem desejar. Metade dessa metade não é sequer exequível, só que fica bem mencioná-la. Pouco do resto não é palha, e desse pouco, pouco resta.

Posto isto, não vos maço com o que vou exigir de mim… mas de uma coisa podem ter a certeza. As putas das bruxas ficam para trás.

Feliz ano novo.

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