Ardil 22

O jardim amanhece sob uma fina camada de gelo. Dias frios como hoje são sempre uma prova de perseverança. O ano começa com ruídos de guerra e de instabilidade, a preencher os silêncios com uma nova dose de inquietações. Removi as redes sociais do telemóvel, protegendo-me um pouco do ruído incessante.

Antes que se preocupem, está tudo bem connosco! Esta pequena sombra é temporária, como todas as que a antecederam. As festas na companhia dos familiares e amigos trouxeram-nos o ânimo necessário para aguentar as noites compridas, os trabalhos mais complicados, os dedos dormentes e o caminho gélido para abrir e fechar a nossa querida trupe de galinhas.

Temos lido bons livros e visto bons filmes, e entre videojogos mais recentes, tiro o pó a alguns mais antigos. Adoro os ambientes tridimensionais da minha infância, com escassas contagens de polígonos, que ainda assim nos deslumbravam. Sempre me trazem um certo calor. Não é incomum dizer-se que revisitar alguns jogos, e os espaços que neles compreendem, é como que um regresso a um lugar da infância.

Por outro lado, o livro que ando a ler é o “Artigo 22”, de Joseph Heller, uma história satírica passada na segunda guerra mundial, sobre um esquadrão de pilotos americano baseado numa ilha italiana. É um livro absolutamente delicioso, que me faz rir muito.

Por exemplo, a respeito do “Artigo 22”: se um piloto estiver doido tem direito a baixa. Contudo, se o piloto alegar insanidade para ter baixa é considerado são (porque temer pela própria segurança é o processo de uma mente racional) e, como tal, apto para voar. Portanto, se o piloto não quisesse voar, era considerado são e tinha de voar. Se voasse, era considerado doido e não teria de o fazer. Isto é o “ardil 22” do título do livro, a manha que garante que os pilotos, doidos varridos ou não, todos têm que voar.

Do pouco que sei sobre este ano, é que vai ser transformador para nós. Tenho a certeza, também, que dentro de algumas semanas relerei este texto a partir de um lugar de maior tranquilidade — e é essa certeza que me compele a escrevê-lo.

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