Seis ovos, seis cores. Qual Pantone, Benetton ou panettone — as nossas galinhas são a verdadeira campanha pela diversidade. Mais bicada menos bicada, na hora de dormir acabam sempre por se entender. Para além disso, põem todas os ovos no mesmo sítio. O querido leitor pense no que faz durante a sua manhã, e lembre-se de que, a cada uma dessas horas, há pelo menos uma galinha das nossas a pôr o ovo, com outra aflitinha para o fazer.
Lembro-me das viagens intermináveis de metro que fazia da Póvoa para o Porto, das multidões na hora de ponta, e do que me esperava na ponta daquela hora. Estava eu longe de imaginar que de bom grado trocaria aquilo tudo por uma existência mais simples. Rio-me sozinho, só de pensar na quantidade de gente insuportável que troquei por galinhas. Isso era uma óptima app. Plim! Mais uma galinha.
Uma vez vi um gráfico do número de amizades de uma pessoa em função da sua idade. A pessoa começa a vida com muitos amigos. Na vida adulta já conta com menos amigos, mas tem um par de galinhas. Os anos passam e a dada altura tem zero amigos, mas um exército de galinhas. Não digo com isso que queira ter menos amigos e mais galinhas, ambos os grupos estão bem como estão, mas que empatizo com essa tendência, lá empatizo.
Eu sei que nem todos podem desfrutar da sua companhia, mas para todos esses eu dou uma dica. Quando o dia estiver chato, longo, ou inquietante, olhem para o lado e imaginem uma galinha. Pode ser no supermercado, na sala de reuniões, no trânsito, onde quiserem — uma força sobrenatural transportou uma galinha para aquele lugar durante uns minutos. Pensem em como todos os vossos problemas aos olhos daquele animal são absolutamente invisíveis.
Ansiedade, trabalho, dívidas, eleições, luto? Ela vai procurar minhocas no chão. Vai tentar esgravatar o soalho e perceber por A+B que ali não há por onde esgravatar. Vai esticar as asas, olhar em volta, ver se há uns verdes ali ao pé. Pondera um cocó. E depois, puf! Volta para o galinheiro de onde veio.