Pedra sobre pedra

As manhãs recebem-nos de braços abertos, o sol primaveril desenhando os muros sobre o alcatrão. Hortas surgem ordeiras e aprumadas, as suas fileiras demarcadas por garrafas de plástico em paus ao alto — lembram-me do quintal de um amigo do meu avô, na Póvoa, na rua das Hortas. Ele delimitava os seus canteiros com garrafas de vinho enterradas na terra, as suas bases ao alto. Desta feita, formava carreiros com rodinhas côncavas de vidro multicor. Nem o meu avô, nem o seu amigo, nem o quintal com as garrafinhas sobreviveram.

Lajes de pedra dormem ao sol, quentes, sob estendais vazios. Gatos vigiam-nos de longe, cães de perto, humanos de passagem. O autocarro da Marques faz inversão de marcha, carregado de estudantes para as escolas de Viseu. Do tractor vermelho, salta um senhor munido de uma enxada, que nos dá o bom dia. Acelera o carro da padaria, abranda o carro da associação. Pássaros deixam-se enganar por corvos postiços e tiras de alumínio ao vento. Ao longe, ouve-se um galo esganiçado — que acorda sempre a uma hora diferente.

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A ordem da bicada

Antes de mais, devo a esta página um pedido de desculpas pelo meu atraso — atropelada pela confusão dos trabalhos, a partilha desta segunda-feira fugiu-me da mão, mas eis-me rejuvenescido e cafeinado, prontíssimo para consertar a omissão.

Nauta dos vídeos, eis-me novamente em terra firme! Para mim e para a Mari foram duas semanas de viagem, e já sentíamos saudades das nossas penudas e das suas galinhodinâmicas. E porque já passou algum tempo desde que vos macei a escrever sobre elas, trago novas sobre a Guerra dos Tronos da Capoeira.

Tudo corria bem no nosso quintal, até há uns meses a poedeira cinzenta (a líder) começar a ter o papo muito inchado. Depois de nos informarmos, começámos a dar-lhe um antifúngico e a isolá-la pontualmente, a massajar-lhe o papo e depositar um antibiótico pela água. O problema aparentemente resolveu-se, o papo esvaziou, e ela voltou à sua actividade normal.

(Tudo isto, segundo uma senhora que vende galinhas no mercado de Matosinhos, podia ser resolvido em segundos com um cortar do pescoço).

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Observadores

Já escrevi aqui umas trinta vezes que não me cesso de pasmar com a capacidade dos filmes nos fazerem viajar no tempo. Digo isso a propósito do documentário Elis e Tom, Só Tinha de Ser com Você (2023) — que nos mostra o processo da Elis Regina e o Tom Jobim na criação do seu álbum conjunto, em Los Angeles no ano de 1974.

Quanta magia existe em testemunhar a criação daquele disco! Ver o contacto entre dois artistas gigantes que ultrapassaram os seus atritos, encontraram o seu equilíbrio, e desbravaram caminho num álbum que tocou gerações. Adoro ver este tipo de documentários, como o Get Back (2021) dos Beatles — uma janela para o seu processo, o seu método, a sua vida. Pela forma imersiva como foi filmado e editado, para mim tornou-se mais que um simples documentário: é uma janela para aquele momento.

Nem de propósito, durante estas semanas estive a filmar e a fotografar o Making Of de uma publicidade. O meu trabalho é registar o processo: ser parte integrante, mas com um olhar externo sobre a equipa. Eventualmente o trabalho final estará disponível e eu já poderei partilhar mais sobre ele.

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Ruído e sinal

Esta semana decidi mudar a forma como escuto música.

Ao conduzir, em vez de suportar meia hora de rádio, ouvi metade de um álbum dos Dire Straits. Em vez de almoçarmos ao som da Sic Notícias, escutámos um dos Madredeus. Ontem, ao conduzir para a Póvoa, revivemos o Pulp Fiction através da sua incrível banda sonora, polvilhada com excertos de diálogos do filme.

Pink Floyd, Simon & Garfunkel, Supertramp… foi um mero incremento na minha semana, mas que já me enriqueceu um pouco. Eu e a Mari partilhámos, revivemos, conversámos, desfrutámos. Com meia dúzia de decisões muito simples, criei mais oportunidades de deslumbramento, descoberta e recordação: retirei ruído e introduzi sinal.

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Dia de sol

Onde estavas, sol? Esperámos por ti durante meses e meses. “Mais vale tarde que nunca”? Não. Há um momento em que é demasiado tarde. Precisámos do teu conforto e não estavas lá.

Estou zangado e triste, mas isso não me serve de nada. Sou apenas mais uma voz no coro dos indignados. Depois de uma campanha patética, ontem fomos a eleições legislativas, e o resultado foi um desastre. O nosso sistema político resvala para o mesmo ódio, o mesmo racismo, a mesma ignorância que tantos outros países. O cancro da extrema direita é organizado, ruidoso, e metastatiza-se por todo o lado. Entretanto, o mundo é uma ferida aberta para a qual a multidão cospe.

Por isso tudo, e mais: põe-te à vontade, sol. Bebe uma mini. Nós vamos estar no escritório. As galinhas vão estar pelo quintal.

Não fales comigo. Agora que finalmente chegaste: o mal está feito. Não queremos o teu calor, as tuas sombras, as tuas cores, a ligeireza que trazes aos dias. Só queremos pôr as mãos ao trabalho e esquecermo-nos de que existes.

Hoje não consigo ser optimista. Amanhã, talvez.