Ruído e sinal

Esta semana decidi mudar a forma como escuto música.

Ao conduzir, em vez de suportar meia hora de rádio, ouvi metade de um álbum dos Dire Straits. Em vez de almoçarmos ao som da Sic Notícias, escutámos um dos Madredeus. Ontem, ao conduzir para a Póvoa, revivemos o Pulp Fiction através da sua incrível banda sonora, polvilhada com excertos de diálogos do filme.

Pink Floyd, Simon & Garfunkel, Supertramp… foi um mero incremento na minha semana, mas que já me enriqueceu um pouco. Eu e a Mari partilhámos, revivemos, conversámos, desfrutámos. Com meia dúzia de decisões muito simples, criei mais oportunidades de deslumbramento, descoberta e recordação: retirei ruído e introduzi sinal.

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Dia de sol

Onde estavas, sol? Esperámos por ti durante meses e meses. “Mais vale tarde que nunca”? Não. Há um momento em que é demasiado tarde. Precisámos do teu conforto e não estavas lá.

Estou zangado e triste, mas isso não me serve de nada. Sou apenas mais uma voz no coro dos indignados. Depois de uma campanha patética, ontem fomos a eleições legislativas, e o resultado foi um desastre. O nosso sistema político resvala para o mesmo ódio, o mesmo racismo, a mesma ignorância que tantos outros países. O cancro da extrema direita é organizado, ruidoso, e metastatiza-se por todo o lado. Entretanto, o mundo é uma ferida aberta para a qual a multidão cospe.

Por isso tudo, e mais: põe-te à vontade, sol. Bebe uma mini. Nós vamos estar no escritório. As galinhas vão estar pelo quintal.

Não fales comigo. Agora que finalmente chegaste: o mal está feito. Não queremos o teu calor, as tuas sombras, as tuas cores, a ligeireza que trazes aos dias. Só queremos pôr as mãos ao trabalho e esquecermo-nos de que existes.

Hoje não consigo ser optimista. Amanhã, talvez.

A vida a cores

Dou por mim assombrado pela capacidade que as cassetes têm de nos fazer viajar no tempo. Que dádiva esta, a de voar para os lugares que eu conheço, populados com versões mais novas dos seus habitantes e de tudo o que os rodeia.

São versões mais ágeis, mais risonhas, mais inocentes de todo um mundo; réplicas de tantos adultos de hoje em bebés de outrora, cujos frágeis inspirares e expirares (prova de uma ténue existência!) ficaram para sempre registados pelo microfone da câmara do meu pai. Naquele momento, em que a criatura eleva o olhar para um borrão que reconhece, existe toda uma vida em potência — desconhecida ao bebé em si, mas patente no olhar sonhador dos pais.

Penso muito na fragilidade dos bebés e dos idosos quando reproduzo os vídeos de família. Vejo bebés a existir num mundo que se abre para eles e os convida de braços abertos e sorrisos, ao lado de idosos que desfrutam do seu dia, contam as suas histórias, felizes por estarem com os familiares.

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Meu velho, aguenta

Revisitei algumas cassetes de Video 8 (Hi8) da coleção do meu pai. Este conjunto específico de cassetes, filmadas por uma guerreira Sony Handycam CCD-F335E de 1990, consiste em:

  • 17 cassetes assinadas pelo meu pai que vão desde 1990 até 2002;
  • 4 com o meu nome, de 2001 até 2006;
  • 1 cassete pela minha mãe;
  • 4 cassetes pelo meu tio João, entre 1990 e 1993.

Estas dezenas de horas em banda magnética, que compreendem quase 20 anos de nascimentos, infâncias, casamentos e de tantos outros momentos importantes do nosso núcleo familiar, são evidentemente de um valor inestimável. De quando em quando, volto a mergulhar nestes vídeos e a redescobrir coisas antigas à luz do presente.

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Luz credo!

Ontem estava no escritório a escrever o meu texto para este blog quando ouvi o apito das nossas UPS (para quem não conhece, umas baterias grandes para proteger o equipamento informático de picos ou quedas de corrente). Fui até ao quadro perceber se este tinha disparado, mas vi os disjuntores todos em cima, e o ecrã de cristais líquidos desligado — o corte era geral. Ainda assim, não lhe dei muita importância. Às vezes a luz ia abaixo, era uma questão de minutos até voltar a funcionar. Voltei ao computador e continuei a trabalhar, depois de desligar a baía de discos rígidos, que ligara para escolher uma boa imagem para o meu texto. Já ia com ele bem adiantado quando a Mari veio ter comigo e me disse que Portugal, Espanha e mais países estavam sem luz.

Depois de carregar um pouco o meu telemóvel na minha UPS, desligámos as duas e aos computadores para poupar bateria. Pusemos os telemóveis em modo de poupança, com o Wi-Fi e Bluetooth desligados. Ainda tinha dados da Internet, que usei para ler na app do Público que também havia problemas em países como a França, Bélgica, Países Baixos e Reino Unido, e que as falhas estavam a afectar as comunicações. Ora, já todos sabemos que a luz foi restabelecida ao fim do dia de ontem (dia 28 de abril de 25), mas o exercício de 10 horas sem luz foi um bom abre-olhos para nos precavermos para situações futuras.

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