Bico abaixo

Hoje dei uma limpeza às caixas de cartão que se amontoavam no sótão. Dezenas de cubos e paralelepípedos com miolos de plástico foram para a reciclagem. Fez-me lembrar a Póvoa de Varzim no São Pedro, e as montanhas de móveis velhos que se atiravam para as fogueiras na rua. As labaredas levavam consigo cadeiras e estantes velhas, libertando espaço nas casas.

Caixas e móveis são passageiros, movediços, como tudo o que flui. Envolvemos os nossos valores e projectos em plástico bolha, cientes da sua fragilidade, protegendo-os para a sua inevitável viagem. Este foi um ano de projectos. Dois dos meus foram documentários, que devido a sortes dos timings acabaram por se sobrepor na agenda.

Ouvir e escrever, cortar e colar, vou costurando as histórias metodicamente, palavra a palavra. Comigo a navegar nas vidas dos outros, acabo por relegar a minha para segundo plano, e com isto a confusão dos dias amontoa-se. Afundam-se as olheiras, seca-se a pele ansiosa, empoeiram-se os livros que quero ler. Abraço-me à Mari, também nas suas lutas, e juntos seguramo-nos por entre o turbilhão, sete galinhas esvoaçando em nosso redor.

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O fio do presente

Há dias em que dou por mim numa intersecção entre o passado aspiracional (“quem me dera um dia”) e o futuro nostálgico (“foi tão bom naquele tempo”). Basta o clima aligeirar um pouco para o cérebro conseguir pensar, e sensação de viver num presente idílico instala-se no corpo. 

É como se levitasse. Pouso o pé quente na pedra fria, bebo água gelada, descanso nas sombras da casa. Por entre a frincha da porta, uma faixa de sol entrecortado pelas árvores borbulha luz com sombra, sombra com luz. Na contraluz, brilha a teia de aranha. O ar viaja entre janelas distantes, e as cortinas, por instantes, também: como se estendessem a mão pelos espaços.

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Sopa de letras

Hoje fui à natação. Ao afundar-me na água amena, o corpo respirou de alívio. Deixei-me ali pairar, indefinidamente, protelando os crawls, os bruços e as costas. Por breves momentos, nada nadei.

Os dias estão tórridos, mas pela casa também há pouco refúgio. Os esquemas de ventoinhas e correntes de ar só nos ajudam até certo ponto. As galinhas passeiam-se de bico aberto. O computador parece que vai levantar voo, tal é a ânsia de se refrescar. Ontem quis escrever um texto e nem conseguia concentrar-me: as palavras borbulhavam no caldo do cérebro, como numa sopa de letras.

Só me vinham à cabeça as águas da praia da Póvoa, e no quanto me apetecia dar um mergulho e sentir aquela chapada de vida. Por falar nisso: este sábado esteve bom tempo por lá.

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Ciclos e contraciclos

Quando eu era miúdo, não era fã das aulas de História. Não me entendia com os reis, com as datas, as tensões e as revoluções. Quanto mais informação me davam, mais me abstraía. Quando surgiam testes a essa disciplina, a procrastinação levava-me a estudar na véspera um volume impossível de páginas em atraso. As matérias avolumavam-se e confundiam-se. Nas respostas tentava engrossar ao máximo o que tinha retido, mas os resultados espelhavam a minha ignorância. Sempre fui criativo e gostei de escrever, mas nas aulas de História debatia-me com os textos maciços e os monólogos intermináveis.

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Pedra sobre pedra

As manhãs recebem-nos de braços abertos, o sol primaveril desenhando os muros sobre o alcatrão. Hortas surgem ordeiras e aprumadas, as suas fileiras demarcadas por garrafas de plástico em paus ao alto — lembram-me do quintal de um amigo do meu avô, na Póvoa, na rua das Hortas. Ele delimitava os seus canteiros com garrafas de vinho enterradas na terra, as suas bases ao alto. Desta feita, formava carreiros com rodinhas côncavas de vidro multicor. Nem o meu avô, nem o seu amigo, nem o quintal com as garrafinhas sobreviveram.

Lajes de pedra dormem ao sol, quentes, sob estendais vazios. Gatos vigiam-nos de longe, cães de perto, humanos de passagem. O autocarro da Marques faz inversão de marcha, carregado de estudantes para as escolas de Viseu. Do tractor vermelho, salta um senhor munido de uma enxada, que nos dá o bom dia. Acelera o carro da padaria, abranda o carro da associação. Pássaros deixam-se enganar por corvos postiços e tiras de alumínio ao vento. Ao longe, ouve-se um galo esganiçado — que acorda sempre a uma hora diferente.

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