Crónica

Ritual

À noite, um par de criaturas deambula pelos cantos daquela praça. Entre blocos e blocos de apartamentos, a mitologia urbanística rasgou do chão uma desculpa de jardim. Sob a luz bolorenta dos lampiões, esta feia clareira de cimento subsiste, num vaivém de desconhecidos que nos desvia o olhar.

A natureza morta dos carros é até perder de vista. Ignora-se um ou outro parquímetro. Em bancos de jardim, partilham-se charros ou litrosas sob as cabeleiras das árvores em snooze, que filtram a noite amarelenta. Ao longo das reentrâncias escuras de cimento, enjauladas por colunas medíocres, dormem escritórios de estores corridos, maquilhados por pichagens desinspiradas. Há sempre quem deixe restos em embalagens de plástico para os mesmos gatos invisíveis. Quando chove, afogam-se os paralelos da estrada, e a relva do jardim perde-se numa profunda sopa de lama. E, por fim, podemos encontrar regularmente um vidrão, um papelão, um plasticão, eu e um cão.

Continuar a ler

Standard
Crónica

Livros e cães, cães e livros

Sua Inutilidade, o excelentíssimo príncipe dos Mesquitas, sempre em horário de experiente, imitava a esfinge de Gizé por entre as raízes da mesa e pilhas de livros por arrumar. Estávamos a reorganizar a estante da sala. Nós. O cão nem por isso.

Envolvido até ao ponto que conseguia, olhava-nos com a habitual expressão de quem está a ver o telejornal em russo. Por maior que fosse o seu esforço para compreender e ajudar-nos, contribuía pouco mais que zero. Livros e cães são — como dizê-lo? — profundamente, irremediavelmente incompatíveis. Há toda uma realidade de compreensão que os separa. Independentemente do quanto gostemos de cada um e desfrutemos da companhia de ambos, não há ali qualquer margem para reconciliação.

Continuar a ler

Standard
Crónica

Leishmaniose

Deparamo-nos com a ideia de não mais ver móveis arruinados. Comandos mordidos. Sofás babados. Escovas de dentes desfeitas e sapatos esventrados, já para não falar nos pães misteriosamente desaparecidos, entre outros géneros alimentares praticantes da arte da evaporação.

É economicamente apreciável, este fim do prejuízo. O término daquele diário fechar de portas preventivo, ou da limpeza de divisões da casa, e mesmo o deitar ao lixo de objectos até horas antes perfeitamente funcionais. Há, no horizonte, a possibilidade dos nossos bens respirarem de alívio pela primeira vez em três anos.

É o afastar definitivo de um par de olhos azuis cuja ignorância, inocência, instinto e orgulho vão contra as garantias e códigos de utilização de uma miríade de coisas mortas. Um par de olhos que nunca compreenderá o que fez de mal, o que se passou, porque se sente desta maneira, e porque tem dormido tantas noites numa gaiola, ligado a um tubo, na companhia de animais desconhecidos. Imagino-o em silêncio, por entre uma multitude de gemidos, latidos e mios confusos. “Onde está o meu dono? Porque tenho tanto sono? Será que estão a jantar lá por casa? Até quando vou ficar aqui?”

No entanto, a possibilidade acentua-se no horizonte. Ei-la, impassível, a aproximar-se a passos de gigante. Mesmo que tenhamos feito tudo para a prevenir. Mesmo que chegue anos antes do previsto. Mesmo que seja tão triste.

Standard