A primeira cafeteira borbulhou logo pela manhã. Duas fatias de pão afundaram na torradeira, dourando no tempo que levou ao comedouro do cão para se encher e esvaziar. Uma chama aqueceu o ar entre as pedras da cozinha antiga. Abriram-se as portas do armário da sala, banhando de luz as louças de festa. Um a um, os pratos do serviço alinharam-se na mesa, quais casas delimitadas por cercas de talheres. Quando o forno ligou a luz, choveu sal sobre a travessa das batatas. Pela casa viajaram porções de vinho em veículos de vidro.
A segunda cafeteira borbulhou uma hora depois da primeira. Quando um sino perambulante se ouviu pela vizinhança, formou-se um montículo de pétalas de rosa em frente ao portão. O sino foi tocando mais e mais perto, até que cruzou aquele mesmo portão, ladeado de uma cruz e água benta. O piano e o saxofone harmonizaram a mesma música várias vezes consecutivas. Não relacionado, um buzinar de fora chamou a atenção para a chegada de um carro. Abriu-se o portão, e a trela do cão tornou-se uma linha recta, apontando à suas portas. Pelas escadas, subiram caixas de cartão com bolos e comidas; bolsas e casacos taparam bancos e cadeiras. A trela enrijeceu novamente, apontando para novos carros, e depois voltou a deitar-se no chão, pacífica como um cordeiro.
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