Bom dia, Carol

A primeira coisa que fazemos de manhã é ligar o aquecedor do escritório. Depois, pomos a água a aquecer na cozinha. Enquanto isto, há tempo para calçar as galochas e ir abrir as galinhas que, já bem acordadas, desatam a correr pelo quintal. Preparar a cafeteira com água quente corta um bom tempo ao café, que não tarda a subir. Na gélida cozinha de pedra, o aquecedor a gás demora segundos para funcionar em pleno. Leio notícias com a ponta do indicador. Conversamos. Pouco depois, são 9 e tal e estou ao computador, de óculos, cachecol e gorro, pronto para trabalhar (mas provavelmente não vou fazê-lo já). 

Os dias não são todos iguais, mas na maioria seguem esta receita. A diferença está nos pormenores, e na quantidade de roupa em que nos embrulhamos. À medida que o tempo vai aquecendo, os aquecedores funcionam cada vez menos, e é mais fácil para mim concentrar-me. Ao almoço e ao lavar da louça, ouço as notícias no meu telemóvel. Raramente são boas.

Como milhões de outros portugueses, este domingo fui votar. Fiz uma caminhada até à escola primária durante a manhã, e apesar do ar gelado, o sol fazia-se ver pelos quintais. É irónico o frio que se sente tendo em conta o quanto brincamos com o fogo no acto eleitoral. Estamos na fase em que, dependendo do quadrado em que desenharmos o X, o próprio papel pode irromper em chamas. Ao regressar a casa, a cada esquina, sou confrontado com cartazes da maleita política que nos assola.

Por falar em vírus. Andamos a ver uma série incrível na Apple TV, chamada “Pluribus”, do criador de Breaking Bad e Better Call Saul. A humanidade é tomada por um vírus, mas em vez de transformar toda a gente em zombies, ele cria uma união total entre as pessoas, isto é, todos os seres humanos do mundo são agregados na mesma entidade, e pensam como um só. Em todo o planeta, só um grupo muito restrito é que não fez parte desta união. A protagonista, Carol, é uma dessas pessoas. É rapidamente levada à fúria por estar completamente cercada por múltiplos da mesma pessoa, que incorporou todas as memórias do mundo, os saberes e as línguas na mesma personalidade. “Bom dia, Carol!”, dizem eles com um sorriso. Parecem uma mistura de culto religioso com a Wikipédia e o ChatGPT. “Só queremos que sejas feliz, Carol.”

A Carol é representada pela formidável Rhea Seehorn, que há pouco mais de uma semana ganhou o globo de ouro pelo seu trabalho em Pluribus. Extremamente nervosa, ela agradece a toda a equipa pelo trabalho e pelo empenho na série, sob uma merecida salva de palmas. Se lermos os comentários deste vídeo no YouTube, também há felicidade e contentamento. “Estamos tão orgulhosos de ti, Carol.”

Dia de sol

Onde estavas, sol? Esperámos por ti durante meses e meses. “Mais vale tarde que nunca”? Não. Há um momento em que é demasiado tarde. Precisámos do teu conforto e não estavas lá.

Estou zangado e triste, mas isso não me serve de nada. Sou apenas mais uma voz no coro dos indignados. Depois de uma campanha patética, ontem fomos a eleições legislativas, e o resultado foi um desastre. O nosso sistema político resvala para o mesmo ódio, o mesmo racismo, a mesma ignorância que tantos outros países. O cancro da extrema direita é organizado, ruidoso, e metastatiza-se por todo o lado. Entretanto, o mundo é uma ferida aberta para a qual a multidão cospe.

Por isso tudo, e mais: põe-te à vontade, sol. Bebe uma mini. Nós vamos estar no escritório. As galinhas vão estar pelo quintal.

Não fales comigo. Agora que finalmente chegaste: o mal está feito. Não queremos o teu calor, as tuas sombras, as tuas cores, a ligeireza que trazes aos dias. Só queremos pôr as mãos ao trabalho e esquecermo-nos de que existes.

Hoje não consigo ser optimista. Amanhã, talvez.