Ando destreinado em conversas de elevador, fruto talvez de não ser utilizador habitual desses engenhos. A verdade é que tenho cada vez menos paciência para navegar nas convenções sociais, e por mais que o meu apreço pelas pessoas esteja lá, dou por mim a usar os truques do costume para me livrar das conversas o quanto antes. Após a menção ao estado do tempo, invariavelmente dou um update sobre as nossas galinhas, mas isto é em si um desafio.
Não posso distrair-me dos sinais do meu interlocutor, mesmo que tenha sido ele a perguntar por elas. Até que ponto está engajado na conversa? O olhar corresponde às palavras? Já se terá arrependido de puxar o assunto? O problema aqui é de eu falar demasiado, o que é absolutamente um risco nos temas que me interessam. Temo já ser “o das galinhas” para algumas pessoas, o que não tem mal nenhum, excepto quando sinto que me estão a dar corda.
A solução é fácil, e passa por deixar o pessoal falar de si e entre si. Após falar sobre mim o minimamente aceitável, sou hábil em passar a bola para os outros, e em 99% das situações isto remata o problema. A minha ineptitude em manter uma conversa é inversamente proporcional à minha aptidão em ser um editor de vídeo social.
Mas não me entendam mal: sou genuíno no meu interesse pelos outros. A verdade é que, tanto na minha família em geral como nos meus grupos de amigos, os silêncios são muito rapidamente preenchidos. As frases são impiedosamente atropeladas e cortadas a meio. Quanto maiores a ansiedade e a excitação dos intervenientes, maior a imposição que se tem de fazer para passar uma ideia, e eu não estou para isso.
Daí ter desenvolvido a apetência por piadas secas e comentários rápidos em detrimento de anedotas ou histórias. Não sei contar uma anedota convencional, com todos os seus momentos (comportamento, repetição do comportamento e subversão da expectativa). Isso é fruto da necessidade de defender a palavra ao mesmo tempo que conto a história, com o cuidado acrescido que as anedotas requerem para distribuir a informação. É para mim curioso que, quando alguém me dá realmente a palavra, eu tendo a auto-sabotar as minhas histórias, anedotas e reconstituições, dada a crescente ansiedade em manter a atenção em mim todo aquele tempo. Vivo fascinado com quem consegue contar uma história oralmente, e duplamente fascinado com o uso do silêncio no contar de uma história.
Na óptica da escrita há pontos em comum. Admiro as páginas dos livros pela capacidade que alguém teve de firmar as palavras e de as deixar quietas. Quantas vezes comecei este texto? A tecla que mais uso é a de apagar. Começo e recomeço cada frase, cada ideia. Quando publico um texto, vou repetidamente corrigir o português ou a pontuação ou ejecto uma frase inteira. Como posso aspirar a escrever, se passo mais tempo a aspirar do que escrever?
Algumas coisas que me passam pela cabeça quando escrevo: ninguém quer saber disto, isto não é um problema, isto não é uma novidade para ninguém, esta escrita é pobre, isto é maçador de aparecer no e-mail das pessoas, isto é demasiado pessoal, isto é demasiado impessoal, isto é demasiado superficial, isto é demasiado sobre galinhas, isto é demasiado pretensioso, isto é demasiado pesado, isto é demasiado ligeiro, isto é demasiado pouco, isto é demasiado muito.
Uma coisa percebi sobre mim: a escrita que deixo ficar é a que me vem de forma inconsciente, sem dar valor ao que estou a pôr na página, como se fosse apenas um exercício de aquecer os dedos, como se as frases fugissem de mim. Depois de ter algumas ideias no papel, chamo o editor de vídeo em mim e ele olha para o material, bufa, queixa-se; depois vai aquecer a terceira chávena de café do dia, senta-se à secretária e corta, cose e reordena, assim transformando o produto em algo melhor. Os meus textos são furtivos, surripiados à minha atenção e ansiedade, e só por isso sobrevivem. A maior dificuldade que sinto não é em pensar numa história, mas em ultrapassar a fase inicial em que esta pode ser facilmente descartada.
Para tal, preciso de depositar palavras suficientes no documento antes de dar conta. O documento sobrevive quando ganha massa crítica, e meu cérebro passa do modo consciente (“este início não funciona”) para o inconsciente (“estou a meio de uma névoa, mas não preciso de ver o caminho todo”). O racional ansioso que apaga tudo dá lugar ao editor calmo que vai tolerando o material, apesar de todas as suas particularidades. Quando me perguntam se ando a escrever algo maior, digo que sim. É verdade. Ando na batalha dos inícios, uma e outra vez.