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O Director-Geral da Dissuasão Passiva rebolou pelo escritório adentro, quase provocando um ataque cardíaco ao Barbosa – o que em si é uma contradição da ordem natural das coisas. À quantidade de fumo que submetia os seus pulmões, de álcool em que se embebia e de lances de escadas a que se esquivava, dizia-se que o Director-Geral, certeiramente alcunhado de “Kaput”, andava a dever alguns anos ao fisco da saúde, e provocar uma coisinha má nos outros já era esfregar offshores na cara do povo.

‘Quero um update no G-38329 ASAP’, soprou esganado, por entre os queixos.

Noutros tempos, Barbosa fora néscio ao ponto de afirmar que não tinha nenhum ASAP na sua carteira de Alvos. Depois de uma tempestade de insultos, foi ao sítio. Ainda hoje, não sabe o que ASAP quer dizer.

‘Estamos a fazer todos os possíveis para o subverter à rotina. Já passou por três crises de alergia, três crises de compreensão e três crises existenciais.’

‘Hmm. Para quando a SCA?’

Quanto mais se subia na hierarquia, mais acrónimos se usavam no discurso corrente. SCA substituía Subversão Completa do Alvo.

‘Não posso precisar. Este é um caso resiliente.’

Barbosa, concentrado no ecrã diante de si, fez um esforço para não encarar a veia saliente na têmpora direita do outro.

‘Como é? Estamos há um ano a trabalhá-lo. Isto é um escândalo! Que explicação dá?’

U-oh, pensou Barbosa. Estamos naquela altura do ano em que o Director-Geral tem de mostrar trabalho, e isso não era bom para ninguém, tirando talvez para si próprio. Barbosa pensou duas, e três vezes no que ia dizer, e depois optou pelo plano que já andava a congeminar desde o primeiro dia.

‘Senhor Director, permitia-me que lhe dê as minhas sinceras felicitações.’

A veia, sem perceber, parou de pulsar.

‘Como diz?’

‘Não ouso, claro, relembrar daquele relatório da Estatística de Subversão, e o gráfico do segundo slide do Director-Geral de Histrionismos, porque certamente nunca se iria esquecer de tão importante informação.’

‘Hmm. Sim. Claro que… claro que não. Continue.’

‘No gráfico Total de SCA/Tempo ele referiu os avanços significativos que o nosso departamento tem feito os quais humildemente felicito, e depois, dirigiu o apontador para a longa cauda do gráfico, a que nos advertia para a existência de casos em que o tempo das SCAs tende para o infinito.’

‘Hmm. Siim. Estou a ouvi-lo.’

‘Ele falou na importância desses casos para o sistema. Na responsabilidade de ter Alvos deste género, em que a Subversão tende para o impossível — salientou a necessidade de isolamento destas variáveis, para não infectar os restantes Alvos com imunidade à Subversão. Pude verificar que este indivíduo tem todas as características apontadas pela Autoridade das Subversões como indicadores de Risco, e como tal, voluntario-me para gerir exclusivamente este caso.’

O Director-Geral lutou contra os coágulos no cérebro para encontrar um forma de mandar o Barbosa trocar tudo por miúdos sem parecer incompetente.

‘Muito bem, estou a percebê-lo.’

Barbosa certificara-se que não.

‘Quanto tempo precisa, Barbosa? Para… hmm..’

‘Para isolar esta ameaça e neutralizar os seus efeitos nefastos?’, perguntou Barbosa, ‘O ideal eram três anos e um aumento de 25%…’

‘Certamente conseguirá fazer em menos tempo.’

‘Vai ser difícil. Muito difícil. Mas creio que dois anos em isolamento completo, horário de pedra, internet de alta velocidade, e com todos os meus restantes Alvos passados para outros… mais dez dias de férias por ano… e um aumento de 10%… acho que se começa a afigurar uma tarefa exequível.’

‘Perfeito, Barbosa. Eu sabia que podia contar consigo. Dependemos de si para que o G-qualquer coisa seja subvertido o quanto antes.’

‘Não o deixarei ficar mal.’

Kaput rebolou escritório fora, e Barbosa sentiu a pressão atmosférica a retornar à normalidade. Depois, espreguiçou-se, esbracejou e gritou de fininho como uma adolescente retweetada pelo Justin Bieber, e quando voltou a sentar-se ao computador, limpou as lágrimas e fitou o ecrã. Seleccionou o ficheiro do Alvo G-38329, e arrastou-o para a reciclagem.

‘Subversão subvertida.’

Contente consigo mesmo, Barbosa cruzou os pés sobre a secretária. Pouco depois, decidiu inscrever-se num ginásio.

ACTO II. CENA II. Jardim do Capuleto.

Entra ROMEU

ROMEU — Que suave que é, a luz qu’aquela janela bota cá pra fora! Vai já numa selfe pro feisse. Ui, ficou brutal a foto, tás a brincar? A Julieta é tão linda… parece um sol. Levanta-te, solinho bom, e dá uma abada de luz à Tixa, a minha ex, que já está com dor de coto filha da puta, porque tu és mais bonita qu’ela! Num queiras ser amiga daquela aziada que num cabe nas calces e gosta de mostrar a perseguida! Ai, queria tanto que a Julieta soubesse o amor que tenho por ela. Os olhos dela são tão brilhantes que as duas estrelas mais brilhantes do céu foram substituí-los por serem tão brilhantes, tás a brincar maninho? Mas… ela tá-me a dizer qualquer coisa qu’eu num consigo perceber! Ai, qu’é dela? Foi pegar no telemóvel. Pera aí, tá-me a vibrar o cu. Tou!

JULIETA — Tou?

ROMEU — Ela fala! Fala mais p’ra mim, sardinhinha da minha broa, que voas pelo céu do meu mar!

JULIETA — Romeu, Romeu! Num tou a apanhar rede, Romeu! Tás m’ouvir? Vê se me entendes. Tens de cagar no nome do teu velhote… ou então, se num o fizeres, jura que me amas, e eu deixo de ser uma Capuleto e entrego-me a ti para sempre.

ROMEU — Num tou toubir! Fosga-se pá merda do telemóvel. Pera aí, vou subir à tua varanda que num t’ouço.

JULIETA — Só o teu nome é meu inimigo. Ca punha de nome, Montéquio! Qu’é essa merda? Num é mão, nem pé, nem braço, nem fronha, nem qualquer outra parte que pertença a um ome, entendes? Oh, se tivesses outro nome em antes…! Que mal tem um nome? Uma rosa pode ter outro nome e também cheirava docinho. Também tu cheiravas docinho, se num te chamasses Romeu. Fica com o perfeito que és sem esse nome! Bota-o para o passado, e depois sou toda tua.

ROMEU — Eu aquerdito-me em ti. Se deres p’ra mim o teu amor, eu deixo de ser Romeu para sempre. Vou-te ser sincero, eu odeio o meu nome porque é teu inimigo. Se tivesse sido eu a escrevê-lo, rasgava-o e botava-o fora. Ai nets. Logo. Tu sabes que sim. Eu, quando digo que faço e aconteço num estou a mandar postes de pescada para o ar, como há muitos aí.

JULIETA — Ai e como entrastes? Os muros são altos e dificiles de subir. E aqui é tão perigoso para ti! E se a minha família te vê?

ROMEU — Subi os muros com as asinhas que o amor me deu, e o escadote do meu cunhado. Li no feisse, escrito numa foto com um pôr-do-sol, que num há limites que o amor num consiga ultrapassar. O amor tira-me o medo, eles que nem venham que eu vou-me a eles.

JULIETA — Mas se fores apanhado matam-te!

ROMEU — Há mais perigo no teu olhar do que em vinte das naifas deles. O escurinho da noite ajuda-me a passar despercebido. E se num me amares, os ménes que me encontrem! Mais vale ser chinado pelo seu ódio, que viver sem o teu amor.

JULIETA — E como conseguistes dar com a minha casa?

ROMEU — Foi o amor que me ajudou! Ele me fez procurar, e me aconselhou e eu por ele vi… eu num tenho carta, mas pelo teu tesouro viajava se fosse perciso até à Senhora dos Navegantes.

JULIETA — Se tu me amas, diz-me de verdade. E se pensas que sou uma fácil, tu fala, que eu faço-me de difícil. Quero mostrar que sou de bem e num uma desembergonhada, mas num consigo porque te amo tanto e tanto que nem imagines ome! E tu sabes, Romeu, que eu te amo pa caralho, porque também viste no meu feisse no comentário que fiz na música do Zezé que postaste depois de ires buscar arsago para o quintal.

ROMEU — Eu juro-te, fofinha! Juro-te… uh… pela lua…

JULIETA — Num jures pela lua, aquela indecisa, que está sempre a mudar, a num ser que o teu amor por mim mude também.

ROMEU — Ai, então juro pelo quê?

JULIETA — Num jures por nada. Ou então jura por ti, que eu aquerdito.

ROMEU — Tasse. Coração, amor da minha vida—

JULIETA — Olha, caga para o juramento! Eu curto milhões de ti, mas num quero que façamos pormessas assim tão rápido, como o trovão que desaparece após brilhar. Vai agora! Este amor tem que ser como uma linda flor! Mais linda e frondosa de cada vez que te vejo. Bem, vou-me adoçar e entrar na caminha ca velhota tá a pé. Falamos por mensagem. Tens grátis para 91?

ROMEU — Sou ganza, claro. Mas… ai, que dizes, tchopa? Vais-me deixar assim, a olhar para o ar? Quero ouvir-te dizer que me amas e que queres namorar pa mim.

JULIETA — Eu disse que t’amava antes de me perguntares. Mas morzinho, se quiseres, eu digo outra vez. Eu amo-te muito. Jóiinha, amo-te um amor tão lindo, tão lindo, como o do André Sardet que vai até à lua e depois vem da lua até aqui. Punha de lindo, num é? O meu amor por ti é infinito como o horizonte e porfundo como o mar. Quanto mais amor te dou, mais amor eu tenho, porque são os dois infinitos, tás a ver?

ROMEU — Lindo, mor. Lindo. Até chorei, tás a brincar? És uma poeta. Vou apontar isso para depois tatuar no cu das costes.