Lãs, polaroids e pioneses

Atrapalhado, liguei a lanterna do telemóvel. A montanha das coisas olhou-me por entre o negrume. Torpe de sono, levantei-me enquanto o cérebro fazia reboot. Teria sonhado? Tropecei numa estante desmontada, desabei uma montanha de roupa e disse mal da minha vida duas vezes.

“Não deve ter sido nada”, fiz-me pensar, “provavelmente um barulho do exterior, talvez um empurrão do vento nos estores. Por outro lado, também pode ser um serial killer.”

Naquele janeiro sádico, era o vale tudo. Nunca fiando, manquei até ao corredor.

“Quem está aí?”, disse para o espaço. Ouviram-me as portas, as chaves novas ali penduradas, a tinta recentemente aplicada, uma caixa de arrumos ao longe. Ninguém me respondeu. Satisfeito com a minha capacidade de resolver a questão, voltei para o quarto para me mumificar nos cobertores.

Teria um dia de muitas montagens e dores nas costas pela frente, pensei. Piscou uma luz verde. O computador olhou-me do seu poleiro, luzindo de bateria cheia. Ali, em cima daquele banco, não era um bom sítio para o ter, pensei. Bastava um toque e…

Chão! Soalho, mais propriamente.

Era eu, colado ao soalho do chão, e não o computador. Há soalhos sem ser no chão? Se houver, não era nesses que estava colado, mas no soalho classic.

Desta vez tenho a certeza de houve um barulho. Um barulho oco, tipo ploc!, antes de tombar como um dominó. Antes da consciência se me diluir aos poucos. Antes do fio de sangue rodopiar em meu redor, cada vez mais espesso e espalhado, a alagar os sacos todos e a sujar a roupa. Depois, a luz do telemóvel dá as últimas, e a escuridão da noite regressa em pleno, engolindo-me, tornando os meus espasmos corporais invisíveis ao mundo.

Mas já chega de falar de mim. Falem-me de vocês. O ano como tem corrido?

Não devo ser o único, certamente, que deu por si a pasmar para as paredes. Não serei só eu perdido entre memórias interligadas, de um passado em que as pessoas podiam tossir num bar à pinha — recordações como que presas entre si por fios de lã, daqueles vermelhos que os detectives dos filmes gostam de usar.

Eu adorava esse cliché, tão familiar como a película gasta, bilhetes picotados, e pipocas empurradas a coca-cola.

Polaroid com a arma do crime? Check. Pegar num pionés. Esticar lã vermelha até a outro pionés com o polaróide do espalhamento de sangue. Ao lado, afixar uma notícia de jornal de como o assassino anda a monte. Pelo chão, pisar fotografias de uma pista que não dera em nada. Sobre a banheira e sob luz vermelha, fotografias a secar como roupa. Daí até uma multidão de fãs me pedir assinaturas nos Detective Awards é um tirinho.

“És lindo, Gui! Que grande investigador. Como cadáver é que não vales um chavo.”

A realidade nunca tem tanto glamour.

“Nunca teve hipótese”, disse o meu detective, soltando uma demorada passa sobre os meus restos mortais.

“Homicídio premeditado?”, questionou a personagem secundária, sempre ali para ajudar ao enredo, e para dizer coisas que desbloqueiam um gajo.

Mas este meu detective não é dos de responder logo. Responder a la CSI? Isso é muito parolo. Aqui não há marca branca de detectivismo, é a marca preta e branca. Monocromático, sorumbático, apático, e de desprezo automático. Pessoas a cores são pouco merecedoras da excelência cromática que lhes foi concedida.

Resignado, o Humphrey Bogart pôs-se de cócoras, levantando o sobretudo para não o manchar com o meu sangue. Media distâncias a olhómetro. Entre o aquecedor a óleo e o corpo. Das caixas por arrumar aos sacos reutilizáveis. Das instruções sádicas do IKEA aos parafusos e chaves em L.

“Já tem ideia de quem fez isto, chefe?”

“Se tenho ideia, sim. Se merece que lho diga, não. Deixe de ser parvo e esteja calado.”

O meu detective então senta-se ao meu computador e adivinha a minha passe porque é inteligentíssimo.

“O senhor é realmente muito bom no que faz.”

“José António, faça-me um favor.”

“Sim, chefe.”

“Cale-se.”

Em minutos, descobrem que o corpo nas palhas estendido andara ocupado ao computador na sua última noite. Aparentemente, aventurara-se por ruas e esquinas abaixo do Tejo num dia solarengo do Google Street View, até dar de caras com um turismo de habitação com piscina.

“Muito curiosa, esta amostra de gente”, diz Humphrey Bogart, bafejando fumo de cachimbo para o meu portátil, “O pré-defunto andou a visitar blogs antigos. Repare… sim. Blogs com letras de canções. Hmm. Aponte, José António. Colónia de férias da Verdizela. Terá lá ido? Provavelmente. Também terá lido os comentários. Ah. Note. Estes comentários têm anos suficientes para frequentar a colónia de férias por si só.”

Humphrey levantou-se, passando os olhos por folhas minhas, incompreensíveis pela minhoquice da minha caligrafia apressada.

“Quer-me parecer que ele não foi atacado por um assaltante.”

José António engoliu em seco, vendo o seu interlocutor a fazer o seu caminho para abandonar o apartamento.

“Então foi atacado por quem?”

Mas Humphrey já descera os andares. Os passos ecoaram pelas paredes, até o estrondo da porta do rés-do-chão dar o assunto como encerrado. Lentamente, José António fez o seu caminho de volta para o quarto.

Contemplou o meu cadáver.

“Desgraçado.”

Depois, examinou o quarto pela quinquagésima vez. Teria-lhe escapado alguma coisa importante?

Levantou os olhos e reparou neste post, que o observava atentamente. Encolheu os ombros, e o post viu que os encolhera, e relatou que os encolhera. Depois, reparou na pessoa a ler o post. Levantou-lhe a mão, a ver se obtinha resposta, mas nesse momento, na cave bafienta que é a sua cabeça, fez-se luz.

“Não foi atacado por ninguém”, disse José António, “Foi atacado por saudades.”

Num breve momento, o leitor e José António cruzaram olhares. Um no outro, viram a mesma conclusão a formar-se. Se havia necessidade de todo este aparato para semelhante desenlace?

Não. Decididamente, não.

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