Pêndulos e super-luas

Apanhou-me. Vim aqui sentar-me à janela, só por uns minutinhos, prometo. A verdade é que não conseguia mesmo continuar deitado com um luar destes aqui a espreitar-me. Veja ali no alto, a Lua a descobrir-se do algodão das nuvens. Com que força o seu brilho rasga a noite, com que juventude. E tão próxima. É de pasmar, não acha? Parece que vive a duas ruas de distância, como se pudéssemos fazer-nos ao caminho e ir lá ter em cinco minutinhos.

Quando a Lua cheia coincide com o perigeu, o ponto da sua órbita mais próximo da Terra, dá-se este fenómeno. É como que um beijinho que ela nos dá. Assombrosa! A super-Lua ocorrerá três vezes neste ano, esta é apenas a segunda, e eu espero muito sinceramente andar cá para ver a terceira. Mas um dia de cada vez, é o que lhe digo. Gostava muito de ter o seu optimismo, Eva, mas as coisas são assim, e o tempo é manhoso.

Olhe, a primeira super-Lua, por exemplo. Deu-se antes desta macacada toda do vírus me apanhar, e parece que foi há uma eternidade, mas na verdade foi há apenas um mês. O tempo comprime-se e dilata-se, como se para ele fôssemos meros espectadores sem qualquer voto na matéria. É ele e a natureza. Eles devem ser um casal, da maneira com que congeminam as suas leis. Espanto-me como estou continuamente às suas mercês, e ainda assim, me vou aguentando. Após uma vida a gizar na ardósia as verdades imutáveis do universo, eis que ele finalmente gizou uma para mim. E sabe a que conclusão cheguei, Eva? Aos seus olhos, não sou nada senão uma pequenina massa.

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Lãs, polaroids e pioneses

Atrapalhado, liguei a lanterna do telemóvel. A montanha das coisas olhou-me por entre o negrume. Torpe de sono, levantei-me enquanto o cérebro fazia reboot. Teria sonhado? Tropecei numa estante desmontada, desabei uma montanha de roupa e disse mal da minha vida duas vezes.

“Não deve ter sido nada”, fiz-me pensar, “provavelmente um barulho do exterior, talvez um empurrão do vento nos estores. Por outro lado, também pode ser um serial killer.”

Naquele janeiro sádico, era o vale tudo. Nunca fiando, manquei até ao corredor.

“Quem está aí?”, disse para o espaço. Ouviram-me as portas, as chaves novas ali penduradas, a tinta recentemente aplicada, uma caixa de arrumos ao longe. Ninguém me respondeu. Satisfeito com a minha capacidade de resolver a questão, voltei para o quarto para me mumificar nos cobertores.

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Marcadores de areia

À terceira tentativa frustrada, levantei os olhos do parágrafo. Um grupo de seniores discutia dinheiros e apartamentos que alguém deixou em herança ao sobrinho. Respirei fundo. Por mais que eu ande, por maior que seja a minha peregrinação até ao lugar perfeito para a minha toalha, há sempre um grupo.

Longe de mim querer mal aos sábios de bronze perfeito, ao defunto ou ao seu herdeiro. Plantei a testa na toalha, ouvindo inadvertidamente o evangelho dos bens deixados ao rapaz como lhe fizesse as vezes de advogado ou confessor.

Lembrei-me do filme Tenet, onde duas personagens discutem uma intriga nuclear de fim de mundo em pleno autocarro. Só me apetecia gritar para o ecrã. Há pessoas à vossa volta, seus imbecis. Uma delas deve estar a tentar ler. Ninguém quer saber da vossa vida privada!

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