Marcadores de areia

À terceira tentativa frustrada, levantei os olhos do parágrafo. Um grupo de seniores discutia dinheiros e apartamentos que alguém deixou em herança ao sobrinho. Respirei fundo. Por mais que eu ande, por maior que seja a minha peregrinação até ao lugar perfeito para a minha toalha, há sempre um grupo.

Longe de mim querer mal aos sábios de bronze perfeito, ao defunto ou ao seu herdeiro. Plantei a testa na toalha, ouvindo inadvertidamente o evangelho dos bens deixados ao rapaz como lhe fizesse as vezes de advogado ou confessor.

Lembrei-me do filme Tenet, onde duas personagens discutem uma intriga nuclear de fim de mundo em pleno autocarro. Só me apetecia gritar para o ecrã. Há pessoas à vossa volta, seus imbecis. Uma delas deve estar a tentar ler. Ninguém quer saber da vossa vida privada!

Derrotado, marquei o livro e fechei-o. Enquanto dobrava a toalha, desviei os olhos do casal à minha direita que se engolia mutuamente. Contive um sorriso. A praia é, de facto, um microcosmos das casas dos outros. De regresso à Avenida dos Banhos, cruzei-me com outras conversas na ordem do dia. Banhistas em lindos tons cobre falavam de Fátima, do reumático e do isolamento profilático. Crianças galopavam em meu redor, dando prognóstico de areia às vizinhanças comatosas. Amigas rumavam a molhar os pés, sob o olhar vigilante das hormonas do nadador. Gerações ajuntavam-se em reuniões de condomínio improvisadas, e famílias trauteavam na mais apreciada das cavaqueiras, a amena.

É engraçado como somos tão profundamente humanos sobre o areal de uma praia, aquele imenso mar de calhaus fragmentados, produto de milhões e milhões de anos de erosão. Num piscar de olhos geológico, serve-nos de mobília. O ultraje! A areia não nos é senão extraterrestre, cósmica, intemporal, mítica. Enquanto sócios maioritários da comunidade de tecido vivo, escapamo-nos à compreensão da areia, um pouco como esta nos escapa por entre os dedos, como o próprio tempo que simultaneamente nos foge e nos aterroriza por fazê-lo.

Se me faltasse o tempo, faltava-me aquele pudor de pensar nas coisas que ainda não fiz e nos livros que ainda não li. A carne que me adorna os ossos dá-se à preguiça, e eu, que não lhe sou mais que um passageiro com passe mensal, raramente a contradigo. Os livros amontoam-se por ler, na sua condição parada, na sua imutabilidade mágica. Como o relógio de pêndulo da minha avó, para sempre fixo no meio-dia.

— Este relógio já está parado há muito tempo? — perguntou-me o meu irmão João.

— Na perspectiva do relógio, não está parado há tempo nenhum.

O João piscou os olhos, através dos seus óculos embaciados, a ponderar o meu uso para a sociedade.

O relógio está na mesma. O parágrafo que os velhotes me interromperam também. Toda a areia da Póvoa continua no mesmo sítio. Pandemia ou não, primeira vaga, segunda vaga? Ondas não lhe fazem mossa. Vamos daqui todos e a areia continuará na sua, eternamente aborrecida, a remoer-se no seu quartzo.

Passou setembro e passa outubro. Está mais frio, muda a hora, os seniores estão cada um para seu lado, nenhum de nós na praia. Entre uma porção de pequenos nadas do dia-a-dia, ofereço-me livros, como se os merecesse por algum motivo. Sou-lhes um eterno fã, um apreciador da sua arte discreta, dos seus materiais macios, da sua condição de criaturinhas inanimadas que nos fazem alucinar. Tecnologia incrível! Permite-me ir para uma praia, pousar a toalha num sítio pensado, e apreciar histórias de outros.

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