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Autoresume

He never felt like running.

Every other morning, he puppeteered his lifeless mass of numb arms and legs to venture into the cold, brisk north wind that swept the morning beaches. Seagulls kept a promise of life among the dark blue plains of water, crying about their birdly affairs, and the long stretches of atlantic summer chaos, devoid of people, welcomed the elements and almost nothing but.

Every now and then a pilgrim on the way to Santiago crossed his path, and to every single one he wished ‘bom caminho’, dreaming of the times, future and past, he walked to Santiago just like them. Otherwise, he was all alone, for it was much too early in the day, and every wave broke a silence only disturbed by their own echoes on the sleeping buildings.

This was the coldest he’d been in weeks. He hadn’t slept all that well, and his mind was racing between a deafening static of worries.

Encapsulated in a Krillin hoodie, under a pool of streamed music and the digital gaze of a running app, he battered the kilometers away one at a time, keeping the growing pain subsided to an autopiloted action, whilst he fought to distance himself from his familiar thoughts.

‘How many sides of you are a work in progress?’, said an harrowing scowl, ‘In how many ways are you a wannabe runner on a feared, unknown pool of nothingness? Why do you let your crippling self-doubt hinder and make a rag doll out of you?’

‘Shut up, I’m not in the mood for you.’

‘You shut up. Who do you think you are, bossing me around? You may very well think me away, but you can’t. I’m the distress in your days, I’m the sour in your sweet, I’m the ugly in your neat, and I will find you — always. Nothing can keep me away. Your actions are futile, and your stupidity blinds you to the truth. You’ll never be happy. All your little tools and plans are a joke.’

‘On that note, I have something to ask you.’

The voice couldn’t hide a tone of surprise. ‘Yes…? And what might that be?’

He tried to keep is breathing under control. ‘I want to make a pact with you. I am your prey whether I like it or not, correct?’

‘That is a fact.’

‘Hear me out. I wish for you to leave me alone when I talk to other people. Is that something we can work out?’

The voice paused, deep in thought. ‘You’ll have to give me something in return for this unusual request.’

‘I understand. I am ready to part with one of my dreams.’

‘Is that so…?’

He stopped on his tracks. The app whispered in his ear — autopause. ‘That is my offer. In exchange for one of my dreams, you will never talk to me while I am already in a conversation with any other person.’

‘That sounds… doable.’

‘Do we have an agreement?’

The voice laughed. ‘And what dream of yours might it be?’

‘I’ll have to think about it. I’ll let you know.’

‘Keep me posted’, said the dreadful whisper.

‘I will. Now leave me alone. I have a full day ahead.’

‘Keep on being foolish’, and the voice laughed itself away.

The horizon was clearing a bluish sky. The night had ended its run, and he kept on running, for there was a distance yet to be braved. The app whispered yet again — autoresume.

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Faltas tu

No calor intenso daquela cozinha, Júlio respirava com dificuldade. Mais por capricho do patrão que por outra coisa, calhava-lhe sempre a preparação das batatas, o empratamento, e a fritadeira. Naquela agitadíssima noite da Póvoa de Varzim, as horas de um turno parecem infinitas. Nem todas as noites são o São Pedro, mas todas as outras juntas cansam igual. Com o barrete encharcado de suor, procurava estar acima dos gritos, do chocar doloroso das louças, do calor do óleo que manuseava para fritar batatas – e do pouquíssimo tempo que dormira na véspera.

Era o costume. Discutira até tarde com o pai e com a companheira, ambos enfrascados. Em desespero, bateu-lhes a porta e enviesou pelas ruas, queimando tabaco nervosamente. Entrou no café, mas não ficou lá muito tempo. Os seus costumeiros, vendo-o a sair em tão evidente sofrimento, tentaram ajudá-lo, mas ele deixou claro com uma resposta torta que preferia prosseguir sozinho. Mesmo após deitar-se, sob os lençóis e de olhos fechados, vociferava pelas ruas mal iluminadas daquele bairro, com o coração aos saltos, e um avassalador medo a apertar-lhe a garganta.

Lutava contra os dias, que, queimados como cigarros, em partes iguais desnecessários e imprescindíveis, lhe acumulavam alcatrão na alma. A farda lavava-se e passava-se, a barba fazia-se, mas o sol perdia a cor, e o ar não satisfazia o peito. Os turnos tinham o condão de alongar a noite, e cada vez os amigos pareciam mais longe.

A solidão feria-o. Nos quelhos por onde se arrastava, ouvia o som distante dos ensaios da rusga, na escola primária da Giesteira. Com olhos mortos de cansaço, ouvia os risos e o marchar. Finalizavam-se preparativos para as festas onde levariam o branco e azul claro do Bairro de Belém às ruas dos outros bairros. Bendita rusga, na qual não podia ir este ano. Fosse esse o seu mal maior!

Rondava a meia-noite no dia 28 de junho naquela cozinha. Os pés pareciam caminhar sobre vidro. Não poucas vezes olhou para a saída de emergência, sonhador, mas logo notava o seu patrão a controlá-lo. A cozinheira via nele um bom ajudante de cozinha, mas o patrão tratava-o como uma bomba-relógio, e, infelizmente, tinha o seu quê de razão. Júlio era tão difícil como a sua vida, e os outros faziam disso o que queriam.

Perante o fervilhar oleoso da milésima porção de batatas, sentiu a vibração do seu telemóvel. Não vendo o patrão perto, abriu a mensagem. Era do seu pai. Uma missiva curta, concisa e certamente bebida.

“Sai de casa.”

Trespassado, ficou algum tempo a procurar fazer sentido daquelas três cruéis palavras. O calor multiplicou-se, sufocando-o. Olhou em volta, sem associar significado a objetos ou pessoas. “Sai de casa.” “Sai de casa.” Quando voltou ao óleo, e dele retirou uma porção queimada, voou sobre outras planícies do pensamento, sentindo uma tão forte vontade de beber, de fugir, de recair no antigamente… foi o suficiente para, numa distração, se queimar.

Num espasmo, foi contra o ajudante de copa, que perdeu o equilíbrio dos pratos e os perdeu de encontro ao chão. Saltaram cacos de porcelana, e ecoaram gritos no alumínio; o stress levava a melhor a todos. Chegado o patrão, e percebido de quem era o acidente, este não perdeu a oportunidade para insultar Júlio, começando pela mãe. Comparava-o ao pai bêbado. Um inútil! Acusava-o de ter vindo bêbado trabalhar, e amaldiçoava a oportunidade que lhe tinha dado, um sem emenda, um delinquente.

Júlio pulsava. Pulsava. Pulsava! As marteladas no coração trucidavam-lhe a lucidez. Via tudo em tons de raiva… e a meio caminho do seu patrão, a ferver pacientemente, o óleo. Toda a cozinha congelou quando o viu caminhar de encontro ao patrão. O braço direito estendia-se para a rede das batatas queimadas. Era mesmo isso! O abusador sairia desfigurado num gesto apenas, uma infame fração de segundo. Longíssimo de ponderar consequências, estava a um só passo do patrão.

Até que, lá fora, por entre o chinfrim da Rua de António Graça, do povo ensardinhado por entre braseiros e mesas de cozinha com broa, vinho e minis, ouviu uma banda e uma canção. Alguém gritava. “É Belém! É Belém, vêm do Norte!”

Num silêncio tumular, a cozinha esperava-lhe a reação. O patrão olhava-o ainda desafiante. Júlio baixou a mão que arruinaria uma cara e duas vidas. Atirou o barrete para o chão, tirou o avental e deu um passo para a porta de emergência. Outro. E mais outro, já desenfreando uma correria. Desembocou na rua, indo ter com aos pares de Belém, através da criançada, da banda, dos pares adultos, do coro. Todos estavam cansados: eles por carregarem em braços os arcos iluminados do Belém, elas com os pés em suplício por usarem as chinelas da tricana… e Júlio gritou com toda a sua força, com toda a sua vida, com tudo de si.

“Vamos lá caralho! Vamos lá Belém! Somos os maiores! Viva Belém! Viva Belém!”

Naquele momento, todos perderam as dores. O sorriso das lindas tricaninhas, “mulheres do povo com pose de rainha”, regressou em pleno. Risos! Saiu a canção mais forte. Voltaram as forças e o orgulho, e a rusga branca e azul clarinha prosseguiu pelas ruas da Póvoa, para uma viagem que ainda desfilaria pelo branco e vermelho da Matriz, o verde e branco do Sul, cruzando-se com as rusgas do Norte, da Mariadeira e do Regufe, com centenas de almas a cantar na noite, antes de todas irem para suas respectivas fogueiras, com vinho, caldo verde, bifanas, sardinhas e amor.

Porém, Júlio não os acompanhou. Caminhou penitentemente até à casa que não o queria – atravessando quilómetros de música e festa, e foi-se deixar-se abater em casa, diante da porta aberta, esperando pelo regresso inevitável do pai e da companheira. As lágrimas desciam-lhe pelo corpo, prostrado perante tudo e todos, certo e sabido de que nunca conseguiria a guarda do irmão mais novo. Passou-se o tempo. Sem nono ano, sem família, amigos, sem rusga… só com um intenso cheiro a fritos e a certeza de ter perdido ainda mais um emprego, e de que, afinal de contas, o destino está mesmo traçado.

Mas eis que se liga uma luz. Ergueu os olhos, embriagado de sentimentos, e as lágrimas turvaram-lhe uma visão azul e branca. Limpou-as com o antebraço. Uma visão de chinelas, saia, meias, avental azul claro brilhante, revestido de brilho. Lenço transparente ao pescoço; puxo de rede no cabelo, e broche ao peito, de uma flor azulada reluzente. Sem maquilhagem: apenas uma face morena, majestosa, tão, tão elegante, de uma belíssima tricana poveira do seu bairro, que lhe ergueu a mão, sorrindo imensamente…

“Estamos à tua espera”, disse. “Faltas tu”.

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