Díodos emissores de luz

A caixa de ferramentas era uma novidade, mas para aquela ocasião justificava-se. Afinal de contas, eu ia levar coisas importantes para a escola. Os fios eléctricos, as lâmpadas, os motores e as pilhas não podiam ir aos tombos na mochila.

Lembro-me da sensação estranha de ter aquela caixa pesada junto aos pés; lembro-me do sentimento de orgulho do meu colega de carteira, o Hugo, quando afastei os cadernos e comecei a montar junto a ele um circuito eléctrico.

— Olha, Hugo!

Já o fizera inúmeras vezes, o mais simples dos mais simples: ligar uma pilha a uma pequena lâmpada. Quando uni os terminais, encostando com o indicador o fio descarnado ao polo daquela 9V, ouviu-se o barulho de dezenas de cadeiras a arrastar. Em meu redor, toda uma turma estava de pé, espantada com a lâmpada que subitamente se acendeu.

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Olhares ambarinos

É para mim um acontecimento nobre quando um animal pousa a sua cabeça em algo suave, e me observa.

A gata do Tomé tem 12 anos. Fita-me do outro lado da sala, firme, com a tranquilidade característica de um felino. Já o meu infinitamente adorado cão, com a fisionomia de uma duna poveira, também se entretém perdendo o seu tempo comigo.

Há alturas, quando não me pede comida, mimo, rua, ou coçadelas atrás das orelhas, em que sei que o olhar do Jola é desinteressado. Olha-me, com a maior das simplicidades, o maior dos desinteresses, no mais puro dos gestos. A sua atenção está completamente em mim. Depois disso, o sono fecha-lhe as cortinas, e ei-lo a correr pelos campos dos sonhos.

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Amanhãs de improviso

Foi antes de ontem, e de ontem, e de ontem. O cenário era algo simples, com um divã básico e uma secretária à antiga, junto da qual conferenciavam cadeiras almofadadas de um encarnado vivo. Ao centro, uma janela fosca, ladeada de cortinas pouco insuspeitas, e estantes falsas compunham as paredes ocas.

À boca de cena, uma pianista de colete e laço improvisava músicas misteriosas, e do lado oposto, num cadeirão parcamente iluminado por um miserável candeeiro, encontrava-se uma detective. De cabelo loiro apanhado e pernas cruzadas sob uma gabardine pastel, preenchia as palavras cruzadas num jornal, indiferente às centenas de pessoas que se iam aglutinando ao longo das fileiras da sala de espectáculos.

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O filme de uma viagem

Não é fácil para mim exprimir o quanto aprendi nas minhas viagens até Santiago de Compostela.

A primeira vez que fiz o Caminho não estava nada preparado para a experiência. Desde então, todas as viagens foram diferentes, mas tão enriquecedoras como a primeira. Já fiz o Caminho duas vezes com o Colégio Luso-Francês do Porto, uma vez com dois amigos próximos, uma vez sozinho, e uma com a minha mãe.

Agora, com um misto de vergonha e saudade, posso partilhar a curta-metragem que fiz sobre aquela vez que comecei o Caminho sozinho.

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Caminho de Santiago

No dia 12 de Abril de 2015 os meus pais levaram-me à estação da Campanhã, no Porto. Apanhei lá um comboio para Coimbra, onde me meti noutro para França. De Hendaye, pus-me num autocarro para Cambo des Baines, e finalmente num para St. Jean-Pied-de-Port. Fui sozinho, mas quando o meu pai me foi buscar a uma aldeia da Galiza no dia 19 de Maio, trazia comigo um amigo da Póvoa e duas personagens do outro lado do mundo.

Estes são os e-mails que fui enviando aos meus pais e irmãos, depois também aos meus tios, e finalmente a uma grande porção da minha família. A itálico, incluo excertos do caderno que levei comigo com o qual ia confidenciando, deitado em dezenas de albergues, antes de desligar a lanterna e fechar os olhos.

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