Crónica

Pateta com sono

Hoje ri-me muito com algo que escrevinhei nos primórdios de 2018. Tinha acabado de ler um livro para crianças sobre múmias.

Estou cansado da roda-viva a que me ofereço.

São duas da manhã e escrevo na cama, ciente da minha condição de morto-vivo do dia seguinte. 3 de janeiro, consta nos calendários e nas bocas digitais do mundo. 3 de janeiro, e este compreende toda uma panóplia de antecedentes. Compreende um 1 e um 2, um dezembro, e um dois mil e dezoito. Para mim, é como se desse corda ao mesmo relógio estragado que me aparelha.

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Conto

Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.

O hotel. Ainda estava no hotel.

A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.

Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

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