Meu velho, aguenta

Revisitei algumas cassetes de Video 8 (Hi8) da coleção do meu pai. Este conjunto específico de cassetes, filmadas por uma guerreira Sony Handycam CCD-F335E de 1990, consiste em:

  • 17 cassetes assinadas pelo meu pai que vão desde 1990 até 2002;
  • 4 com o meu nome, de 2001 até 2006;
  • 1 cassete pela minha mãe;
  • 4 cassetes pelo meu tio João, entre 1990 e 1993.

Estas dezenas de horas em banda magnética, que compreendem quase 20 anos de nascimentos, infâncias, casamentos e de tantos outros momentos importantes do nosso núcleo familiar, são evidentemente de um valor inestimável. De quando em quando, volto a mergulhar nestes vídeos e a redescobrir coisas antigas à luz do presente.

Abro o projecto no computador, faço um novo in e out na timeline e exporto um novo vídeo mp4 que envio a uma secção específica da nossa família que eu sei que irá apreciá-lo. Adoro materializar uma recordação para as pessoas, e fazê-las rever uma janela no tempo das suas vidas que já estava difusa na memória.

Ora, entre outras capturas, há nas cassetes do meu tio João uns momentos que achei muito interessantes.

Meses após o meu primeiro aniversário (a grande estreia da câmara pelo meu pai) o meu tio ficou algum tempo com ela emprestada, e começou a fazer os seus próprios registos, começando por mim e os meus primos na casa dos meus avós paternos, em 17 de junho de 1990.

Depois, ele levou a câmara para uma ida à pesca, com o primo Nel e o seu cunhado Rui, no dia 26 de junho, uma terça-feira. Decerto fascinado pela tecnologia da nova câmara — não esqueçamos a mística da Sony na altura — filmou grande parte do percurso de carro até lá. Foram pescar perto de S. Jacinto, na ria de Aveiro (algures por aqui).

Depois de algumas imagens deles a pescar tranquilamente num cais e do cenário circundante, o registo corta para o interior de um restaurante à beira-água, envolto em vegetação. Vemos um plano do primo Nel à mesa: grossos óculos fundo de garrafa, bigode farto e polo branco.

— Chegamos às 19h30, são 20h30 e ainda não jantámos — disse Nel, e riram-se.

A imagem salta novamente, agora para o fim da refeição, no momento de pôr açúcar no café. O dia está azulado, quase no fim. Ouvimos o primo Nel a contar de experiência que os brasileiros provam o café e só depois decidem se colocam açúcar, ao que o seu cunhado acrescenta que eles têm o hábito de tomar café a todas as horas do dia e da noite. O Rui chama a atenção da câmara com a sua chávena.

— Olha, Segafredo pá. É muito bom.

Rui sorri e depois bebe o seu café. O vídeo salta até um momento em que o meu tio decidiu filmar o reflexo da televisão na janela. Faz um zoom até conseguirmos perceber que estava a dar futebol; em câmara lenta na repetição, o guarda-redes atirava-se a uma bola rasteira, à direita da baliza. Se a data de 26 de junho de 90 é correcta, aquele é um jogo dos oitavos de final do campeonato mundial de Itália: o Inglaterra vs. Bélgica (1-0), que começou às 20h.

Apanhamos uma parte da conversa em que Rui desabafava sobre a quantidade de pessoas com que tinha de lidar no seu trabalho. Pelo que o meu pai me disse, ele era um croupier no Casino, dirigia uma mesa de roleta. Após a partilha de Rui sobre a dificuldade que é lidar com tanta gente diferente e tão complicada, o Nel puxa pelo cigarro que estava a fumar.

— Meu velho, aguenta. É a tua vida — diz, sorrindo — Eu tenho a minha, tu tens a tua, e o João tem a dele.

— Sabes qual é a solução? — cortou o meu tio, a fazer um novo zoom no reflexo do jogo.

— É filmar um bocado — disse o Rui.

— É arranjar um livro de reclamações.

A cena corta novamente. Finalizamos a ida à pesca com vários momentos dos três a pescar durante a noite. Fim.

Sinceramente, acho desnecessário explicar porque é que acho este registo, de três amigos a conversar numa ida à pesca em 1990, tão fascinante. O que terão conversado durante o resto do dia? Quantas vezes terão ido em grupo pescar antes deste registo? Que tipo de livro de reclamações existiria em 1990, dado que o livro de reclamações com o conhecemos foi implementado em 2005? Eu sei que o meu tio o disse em jeito de piada, mas terá algum contexto?

E já para não falar do “meu velho”, algo que lia em livros de banda desenhada do Blake e Mortimer. Meu velho! Quanta classe tem “meu velho amigo” numa conversa, numa observação, num acrescento? Tanto quanto reparo, nunca ouço “meu velho” em conversas contemporâneas. Num contexto de amigos poveiros, sempre ouvi o “velhote” ou o “velho”, e mais recentemente degenerámos num “bro” que não tem piada nenhuma.

O meu tio capturou também outras viagens nas suas cassetes, das quais eu escolhi 3 para pôr a público no YouTube, depois de as limpar de algumas cenas do foro familiar. Espero que gostem destas viagens no tempo, que considerei que tinham um certo valor universal. Eu existia, mas pouco. Portugal estava há apenas cinco anos na então Comunidade Económica Europeia. A A28 ainda era a IC1.

Playlist
  1. Na “Ida a Espanha em 1991”, começamos por imagens de Caminha, da fronteira na ponte de Valença, e vamos estrada fora, nos caminhos até à Galiza.
  2. Numa outra ida à pesca (“Póvoa de Varzim até Ovar”), podemos ver as estradas e os carros da época, a IC1, os acessos, os sinais, a portagem (120 escudos na IC1), tudo enquanto ouvimos a banda-sonora das viagens, de uma cassete escolhida a dedo (maioritariamente Vangelis e Dire Straits).
  3. Num curto passeio com o meu pai a conduzir (“Póvoa de Varzim até Esposende”), podemos ver um pouco da Avenida dos Banhos em 1990, a N13, e caminhos em freguesias da Póvoa, até culminar no monte de São Lourenço em Esposende.

Ver a playlist completa.


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