Dou por mim assombrado pela capacidade que as cassetes têm de nos fazer viajar no tempo. Que dádiva esta, a de voar para os lugares que eu conheço, populados com versões mais novas dos seus habitantes e de tudo o que os rodeia.
São versões mais ágeis, mais risonhas, mais inocentes de todo um mundo; réplicas de tantos adultos de hoje em bebés de outrora, cujos frágeis inspirares e expirares (prova de uma ténue existência!) ficaram para sempre registados pelo microfone da câmara do meu pai. Naquele momento, em que a criatura eleva o olhar para um borrão que reconhece, existe toda uma vida em potência — desconhecida ao bebé em si, mas patente no olhar sonhador dos pais.
Penso muito na fragilidade dos bebés e dos idosos quando reproduzo os vídeos de família. Vejo bebés a existir num mundo que se abre para eles e os convida de braços abertos e sorrisos, ao lado de idosos que desfrutam do seu dia, contam as suas histórias, felizes por estarem com os familiares.
Vejo olhares atentos de pessoas que não existem mais. Conselhos de quem já não os consegue dar. Opiniões de quem já não as consegue mudar. “Epá, desliga a câmara”, ri-se alguém que quer contar uma história sensível — alheio ao facto de que o fio da sua existência se corta ao premir do botão.
A fotografia que escolhi para ilustrar este texto é um frame dos meus dois bisavós maternos a conversar. Nesse momento, não sabem que estão a ser filmados. Não fazem ideia de que este vislumbre da sua conversa está a fazer as delícias de alguém no futuro. Mais do que um simples registo do que a câmara viu à sua frente, isto é uma prova concreta de que, em tempos, estas duas pessoas viviam um dia atrás do outro, nos seus próprios presentes tridimensionais.
Com estes vídeos, brinco com o tecido do espaço-tempo. Abro janelas para o passado real, desprovido de floreados da memória. Os meus antepassados voltam à vida. Os meus tios são miúdos. Os meus primos são bebés. Divórcios tornam-se em casamentos de novo. O conceito do tempo parece uma ficção científica.
O que é ficção científica, senão um conceito extraordinário que se assume como verdadeiro, e a partir do qual toda uma realidade é construída? O que é ficção científica, senão uma narrativa artística que nos abre os horizontes do possível, assente num cenário lógico? Filmes assim são os meus preferidos, eles próprios já produto de outros tempos.
Parece um salto lógico inexplicável, isto dos vídeos me demostrarem os olhares acesos dos antepassados. Bebés feios ou bebés bonitos, ou a quem saem, para mim é igual ao litro (nas primeiras horas, são todos estranhos). O que me fascina é ver os trejeitos e expressões de toda uma vida que conheço, nas primeiras horas de um bebé tão pequenino. Pessoas já formadas e casadas, vejo-as numa semente de pessoa — tanta vida, numa criatura ínfima, tão concentrada, qual Sunquik de gente.
E minutos depois, uma festa de família. Vejo o meu avô a fumar cachimbo, de bigode, gravata e colete. A minha avó e cinco das suas irmãs e um irmão, todos sentados em fila e a rir-se: uma fila de cabelos prateados. Ao vê-los esporadicamente ao longo da infância, nunca tinha reparado nos traços de irmãos que partilhavam. Reparei ontem.