Palavras perdidas

Custa-me falar-te. Ao que chegaram os nossos dias. Ter-te numa sombra de quem eras, anos a fio defronte da televisão a um volume ensurdecedor. Queria eu que me ouvisses como te tento ouvir, incapaz que estás de trazer coerência aos sons, perdido e encurralado nas vicissitudes da velhice. Foste de tudo um pouco. Polícia, músico, sapateiro, amolador. Cuidavas de um pomar remoto para o qual percorrias quilómetros de bicicleta. Criámos uma geração de gente que nos quer, ainda que nunca nos baste o seu querer, e fizemos da nossa casa um lugar feliz.

Continue a ler “Palavras perdidas”

Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.
O hotel. Ainda estava no hotel.
A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.
Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

Continue a ler “Filamento”

Pequenos papéis

Passa-te pelos olhos uma vaga de tristeza. Cais as mãos do parapeito e descais os olhos sobre os discos, os livros, pequeninos papéis.

Fossem os dias aquele sol que te banha a casa e te abre as cortinas de par em par. Que se refugia entre as tuas pálpebras e os olhos nelas inquilinos, esses teus pedaços de tempo, descidos ao presente após os risos, remetidos ao passado após os choros, e ao futuro após os gemidos.

Querias os dias assim. Perdidos pelas horas, teus, e dos teus livros. Teus e dos teus vestidos, das rendas com que tens casos, mantas com que te encasacas, e de todo o mundo de pessoas que te passam à janela sob os discos, os livros, os pequenos papéis.

És tua e da bicicleta, da tua caixa de correio, das frutas que te adornam os cantos, dos postais que recebes. Frutos dos mimos que plantas pelo mundo.

Quantos de nós te vimos, por uma vez, num vislumbre? A ti e à tua harmonia, num jeito de gente, em amor contigo mesma?

Deixas-te depois verter entre os pensamentos de quem te testemunhou, como tinta que cai entre as páginas. Fazes-te cair, peso morto, e a gravidade que te ampare. Vertes, sangue dos sonhos, qual crime irresoluto dos suspiros, qual aroma indecifrável da memória, poema transparente em páginas caídas. Não há como escapar-te.

Até que te escapas tu a ti. Cais tu nos teus olhos, na vaga de tristeza que os tomou. Cais no nada dos pequeninos dias.

Restarão os discos. Os livros. E a papelada.

São Pedro

No calor intenso daquela cozinha, Júlio respirava com dificuldade. Mais por capricho do patrão que por outra coisa, calhava-lhe sempre a preparação das batatas, o empratamento, e a fritadeira. Naquela agitadíssima noite da Póvoa de Varzim, as horas de um turno parecem infinitas. Nem todas as noites são o São Pedro, mas todas as outras juntas cansam igual. Com o barrete encharcado de suor, procurava estar acima dos gritos, do chocar doloroso das louças, do calor do óleo que manuseava para fritar batatas – e do pouquíssimo tempo que dormira na véspera.

Continue a ler “São Pedro”