Conto

Filamento

Os olhos percorreram as paredes num frenesim sôfrego, em busca de algum ponto de apoio. Acordara como quem cai, amparado após a queda por um mar de lençóis brancos.

O hotel. Ainda estava no hotel.

A manhã, essa, crepitava tímida por entre as cortinas, delimitando um antro de móveis produzidos em massa. Seria um quarto de hotel, um oitavo de hotel, ou um dezasseis avos? Era um outro certamente. Incompleto por condição. Perdido numa imensidão de outros iguais, numa cidade que na verdade pode ser qualquer uma.

Recusando-se a encarar o dia, tapou a cara, tenso, massajando a face gasta. Apercebeu-se do seu próprio corpo molhado de suor, da tensão retida nos seus músculos, e, inesperadamente, de que havia algo mais ali. Era uma memória ‒ mínima, ténue ‒ que contra tudo ainda vingava, pairando pelo quarto.

Percebeu-a como um fantasminha débil do seu sono perdido. Sentou-se, convicto de muitas coisas, e todas elas a mesmíssima: era urgente mantê-la junto a si. Não havia nada que mais quisesse neste mundo terreno. Fez por reter o sentimento que o assombrava, aquele resquício, filamento de uma outra luz, suspenso no ar.

Era um pouco de felicidade. Pura, despida, de uma inocência de criança, de uma carência de adulto ‒ uma colherzinha de café de matéria indecifrável, dessa incrível capacidade que temos de conjugar memórias e desejos num sono que nos constrói e reconstrói, dia ante dia. Impulsos eléctricos.
Associações rarefeitas. Curtos-circuitos tão próprios das nossas máquinas, como aquele do poço, como aquele do amor.

Gelou-se-lhe o coração, quando pressentiu a memória a perder-se. Em horror, entendeu que o dia e a sua memória batalhavam entre si. A cada segundo que passava, a incandescência esfumava-se um pouco mais, para não regressar. Era um néctar de ideias que lhe fugia por entre os dedos trémulos; nutrido e rico, tão valioso e sanguíneo, que o deixava para sempre.

Até que, fiel à nossa condição de seres que dormem e acordam, a memória de sono desapareceu. Um suspiro fugiu-lhe, afundando-se, como se tivesse caído num poço seu.

Estava novamente só naquele quarto. Naquele oitavo. Ou dezasseis avos? Fosse o que fosse, tinham em comum serem fracções trágicas de um todo misterioso que os iludia. Fez a barba e a mala, lavou-se e vestiu-se. Fechou atrás de si a porta para aquele lugar terrível onde algo incontrolável lhe permitiu ser, por momentos, inacreditavelmente feliz.

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