Crónica

A língua do pica-pau

Eu e a pedra da casa bebericávamos uma luz quente, de abraço, que se desprendia dos recortes da folhagem. Eram cinco e meia de um dia de setembro. Ouvia pássaros ocultos na azáfama das folhas, ao passo que caía uma sugestão de chuva de nuvens indecisas.

Que chuva? Abrigado sob as cabeleiras do jardim sonolento, nem a sentia. Que tempo estranho. Sobre mim pairava uma tentativa de névoa, e à distância torravam aldeias sob um sol solto. O calor, esse, banhava as terras por igual — um calor corpóreo, como se os meus órgãos se estendessem pela tarde, e o meu sangue encarreirasse pelas covinhas dos canteiros.

Passava das cinco e meia. O piano ecoava pelas ruelas da aldeia alaranjada. Passos tímidos raspavam as escadinhas do sótão. As cadelas dormitavam pelo chão da cozinha, onde pingava loiça na banca. Não se ligaram as luzes da casa, que também precisa de dormir. Agradecem as sombras acolhedoras, os livros poeirentos e a decoração dispersa, e assim, décadas e décadas de tardes quentes dormiam connosco.

Ainda um dia antes trovejara e chovera. Acabados de chegar a casa, adormecemos os carros sob sugestões de temporal, e quando liguei o quadro da luz o céu ligou o seu. Fez de nós bebidas do seu próprio frigorífico, e juntos com ele, esfriámos com o passar das horas.

Os trovões encobriram-nos os sentidos, cavos, numa presença tenebrosa. Abatiam-se languidamente, doces e sempre envolventes, como um néctar de fruta. Bebi das minhas inquietudes como a nossa piscina de montar bebeu do céu. A contratempo, enchi-me delas, e apliquei-lhes o bálsamo do sono.

Chegar ao ponto em que só com um dia de tempo bizarro me apercebo da natureza perante mim é inerentemente triste. É a realização repentina de que os momentos me fogem a cada minuto que passa, e a lembrança crua de que o tempo não tem qualquer tipo de curiosidade por mim.

Vai passar pelos meus ossos, indiferente, preste eu atenção ou não a estes dias corados e quentes, onde populo a casa com amigos, a estes momentos longos onde nos deixamos abater horas junto a uma praia fluvial. Onde calcorreamos as ruas durante horas em busca de uma cadela fugitiva. Onde, a meio de uma corrida pela aldeia, vou beber água às torneiras do cemitério.

“Descrever a língua do pica-pau”, escreveu o Leonardo da Vinci numa das suas listas de coisas a fazer. Aí está um pigmento de curiosidade pura, desprovida de fim, levada a cabo pelo seu próprio valor. Queira eu nutrir-me desses momentos, caídos no meu percurso como folhagens de jardins desinteressados, fragmentos de pessoas e de animais, colagens de livros e de paisagens. Da ternura de um sorriso, e da doce embriaguez que me presenteia.

Por mais que vá absorvendo fontes várias, e processando como consigo a informação que me escrevem, há um tempo limite para sentir o calor da pedra, o aroma do ar, os silêncios dos meus amigos, o desprendimento dos dias.

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