Conto

O das irmãs gémeas

Há um espelho entre nós que me murmura: vou partir. Pressinto stress nos seu ranger, uma tensão em crescendo destinada a libertar-se. Em vez de fazer algo quanto a isso, antecipo a chuva de vidro após a quebra, e o nosso estado: sempre tão idênticas, gémeas irreflectidas, irremediavelmente cortadas uma da outra.

Naquele dia, fiquei séculos na cozinha a fumar cigarros teus. Havias de ver a forma como tremia nos sapatos e nadava dentro de mim, num estupor estuporado. Deixara café a fazer, ia para o emprego — já me conheces os turnos — blusa, batom, saia travada, cabelo apanhado, dedos acelerados. O mar fervilhava, aluminado, entre as gruas de arame, e a selva de vegetais macacava por entre o postal da mãe, que bebemos num batido. Roçavam as oito num dia feliz, e eu caída num banco, de olhar a monte, à pesca de pensar.

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Crónica

Ano novo

Já há algum tempo que não escrevia aqui, ainda para mais na nudez do português e nas minhas próprias palavras (e não as de uma personagem, recortada dos remendos da minha ignorância). Há nisso algum pudor da minha parte — como se sentisse que não mereço a leitura, ou que o quadro que tenho tendência a pintar ia cair inevitavelmente na repetição.

Sinto que vou descendo numa espiral da escrita mordaz, macabra, de desejos soturnos e rebaixados. Há em mim algum cinismo a emergir, numa torrente de pensamentos gastos e acizentados que reprovo. São as três bruxas imaginárias do costume, as três controladoras do miolo a estrangularem-me os pensamentos. A Cínica, a Céptica e a Ociosa. Três grandes antagonistas de quem sou — fracções de mim com verruga, cara verde e chapéu pontiagudo, riso estridente e hálito de um só dente.

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Conto

Quadro macabro

As mãos tremiam-lhe. Lutando contra a torrente de dores que as consumia, Bernhard convinha para consigo que o seu método era algo primitivo. Sob o olhar luminoso da lanterna de mineiro, sacou da sua mochila e retirou de lá um cantil e um comprimido para as dores. Emborcou-o de um trago só, imediatamente antes de se sobressaltar. O eco de um peido tomara a extensa garagem de assalto.

Chegou a mão ao punho da 45, e esperou atento. Dois segundos de silêncio depois, apercebeu-se do que se passara. Albert – ou aquele monte de carne que restava dele, estendido por entre garrafas de óleo automóvel no chão poeirento – continuava com os mesmos modos grotescos de sempre. Bernhard riu-se, olhando para o cadáver com escárnio.

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Conto

Desaparecido

Quem és tu?

Olha para mim, que vergonha. Feita maluquinha, a falar contigo. Nem sequer sei se estás acordado. Paulo, Paulo…

O teu médico disse-me uma coisa engraçada. Bem, engraçada é uma força de expressão, porque não tem piada nenhuma. Para que é que estou a tirar um cigarro, se não posso fumar aqui? Não percebo isto, se há gente que merece a merda de um cigarro… mas não vou fumar, isto é um hospital.

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