Desaparecido

27/10/14 — Leave a comment

Quem és tu?

Olha para mim, que vergonha. Feita maluquinha, a falar contigo. Nem sequer sei se estás acordado. Paulo, Paulo…

O teu médico disse-me uma coisa engraçada. Bem, engraçada é uma força de expressão, porque não tem piada nenhuma. Para que é que estou a tirar um cigarro, se não posso fumar aqui? Não percebo isto, se há gente que merece a merda de um cigarro… mas não vou fumar, isto é um hospital.

A coisa engraçadíssima que o médico me disse foi que tens os ouvidos intactos, apesar de tudo o resto estar no estado em que está. Ouvidos intactos: o oposto de sempre, portanto. É tão triste termos de chegar a isto para me dares alguma atenção. Não foi o estupor do médico que se casou comigo, foste tu, era de esperar que me ouvisses sem ser preciso ter-te nesse estado. Olha para mim. Ia pedir-te desculpa por estar a chorar. Ridícula, ridícula, ridícula.

O que é que te deu? Francamente, Paulo, o que te passou pela cabeça? Levaste a Ritinha à minha mãe e nunca mais te vi. Isso faz-se a quem quer que seja?

Passaram-se tempos e tempos, corri a agenda toda à tua procura. Eu, que nunca uso aquela merda! Até liguei ao teu pai. Havias de o ouvir, a culpa parecia minha.

A Júlia obrigou-me a ir para casa dela quando me apanhou à porta do nosso apartamento, de pijama, sem conseguir dormir. Quando entrámos para pegar em roupa ela irrompeu em lágrimas, porque tal era a confusão de folhas e documentos teus, que não se via o chão. Gostava que percebesses o meu desespero. Tantas vezes te imaginei a esvair em sangue num beco, numa autoestrada, ou na merda de uma nacional, e eu sem poder fazer absolutamente nada quanto a isso.

Custa-me, sabes? Custa-me ver o teu corpo desfigurado. Ossos em cacos. Os restos de uma cara. Cego, desdentado. Parte de mim sofre por ti, a outra ri-se.

Ridícula, ridícula! Pobre Ritinha. Nunca pensavas nela? Eu pensava.

No meio daquela cena deprimente a Ritinha disse-me que a última vez que te viu, cheiravas como o tio Joca. Como o tio Joca? Cismei com aquilo. Perguntei-me se seria a tabaco, uma vez que nunca fumaste.

Vou fumar eu, foda-se. Estou para ver o que me podem dizer. Expulsam-me? Era um favor que me faziam…

Um mês depois de nos teres deixado, tocou o telefone. Nunca nos ligam para o telefone, só podia ser o teu pai. Nunca o ouvi naquele estado, sinceramente, o que não veio ajudar em nada. Disse-me para virmos até aqui, ao Pedro Hispano, que era onde te tinham trazido… e que sobreviveste a um acidente. Um acidente? Um mês depois?

Apanhei o teu pai e voámos até aqui, num silêncio horrível. O porquê de terem ligado ao teu pai e não a mim ultrapassou-me completamente, como podes esperar. Há mil e uma coisas que nos passam pela cabeça numa situação destas, e por incrível que pareça, nunca fazemos as perguntas certas.

Quando cheguei aos cuidados intensivos, disse quem era. A sujeita da secretaria ficou muito surpreendida. Não procurava antes outro Paulo? Insisti que não, que eu era a mulher do tantos de tal, nascido assim e assado. O olhar estúpido da rapariguinha estava-me a dar uma vontade de mandar tudo pelo ar, e ela deve ter percebido isso. Disse que ia chamar o doutor tal tal, e que pedia desculpa, porque tinha percebido mal, e que provavelmente tinham confundido as informações que recolheram do local.

Perguntei-lhe o que raio tinham confundido.

E ela disse-me, que tanto quanto sabiam, e todos os documentos indicavam, a mulher do Paulo era a sujeita da cama do lado.

Aquela que me escondeste durante anos e anos…

Não vou pedir-te desculpa por estar a chorar. Vou-te mandar à merda por me obrigares a fazê-lo. Agora não sei para que lado me virar quanto a ti. Dou por mim a desejar que o acidente tivesse dado conta do recado. Mas também queria que nunca o tivesses tido…  para eu continuar à procura do Paulo que nunca perdi.

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