Cachimbadas

15/10/14 — Leave a comment

Graça era senhora dos seus setenta anos — magrinha, dócil, de cabelos prateados, pairava-lhe um vestido florido sobre o corpo frágil. António não podia ficar mais contente por ver a aparência terna da sua irmã, teletransportada daquela África que lha levara — porque sabia exatamente quem lhe entrava pelo apartamento.

A luz da manhã fosca desenhava cones de luz através das divisões empoeiradas. Pilhas de livros adornavam as paredes e as estantes. Sobre a mesa da cozinha, amontoavam-se embalagens de cartão com inquilinos por abrir, revistas por retirar do plástico e postais por alfabetizar. Livrando os cadeirões da sala de um punhado de jornais entremeados de apontamentos a esferográfica, o velho professor deu à sua aparente irmã lugar para se sentar. Conversavam tranquilamente — sobre as suas aulas de matemática, sobre o estado do país, e aquela distante Angola…

Nadavam as folhas de chá na porcelana quando ela lhe explicou ao que vinha. António estava prestes a ter o terceiro e derradeiro golpe no coração. Seria durante a aula de substituição que ia dar ao seu 12º ano na tarde daquele mesmíssimo dia — por entre exercícios de probabilidades e a combinatória.

— Um acontecimento certo, portanto.

O sorriso dele deu lugar a alguns momentos de introspeção. Estava calmo, e assim continuaria: a Morte não lhe trazia uma novidade. Intrigado, questionou-a a respeito da transição.

Era muito simples. Após a cessação de funções do corpo não existe consciência — dá-se o término absoluto da vida. Porém, imediatamente antes, acontece um fenómeno peculiar: o cérebro, ciente do seu iminente fim, entra numa fase de hiper-funcionamento, em que joga com a percepção do tempo e constrói uma realidade aparentemente eterna a partir da imaginação. Era um processo inteiramente biológico — uma recompensa da mãe natureza para os seres-vivos.

— Todos temos um período de graça diferente — dizia a Morte, pacificamente, entre tragos de camomila — No cristianismo, por exemplo, o cérebro do crente constrói uma espécie de céu momentâneo, e quando perde os sentidos, fá-lo em êxtase junto das pessoas que ama e que tanto ansiou reencontrar. Os que têm a sorte de viver este tipo de morte, a lenta apercebida, vivem uma intensa paz interior, uma profundíssima alegria, como nunca antes tinham experimentado.

— Eu não mereço tanto — murmurou António, após uma longa pausa.

— Mereces mais.

Passou a mão na face da irmã, passando-lhe os longos cabelos de prata atrás da orelha.

— Decerto percebeste que a minha visita já faz parte da despedida, Tó. Temos algo por resolver. O teu último exercício de matemática.

— Junto de vou quem partir.

Graça desceu as mãos dele para o seu colo, e segurou-as com firmeza.

— Podes desejar quem tu quiseres.

Porque a Morte era um fragmento da sua fértil imaginação, António já tinha pensado naquilo. Consciente e subconscientemente se viu no bloqueio em que se encontrava agora. A despedida dos pais, e da irmã, já as fizera, cada qual a seu tempo. Não queria ressuscitá-los enquanto produto das suas frágeis memórias. Queria-os no coração, e não na fugacidade dos olhos.

Levantou-se, e deu o braço à Morte para um passeio pelo apartamento, enquanto juntos pensavam no seu desfecho. Viajaram a passo lento pelos recantos da poesia. Aventuraram-se pelo jardim dos romances históricos, peças, ensaios, livros técnicos, de banda desenhada e, por fim, a ficção científica — a bancada com a maioria absoluta naquele imenso parlamento de tinta.

— E os teus alunos? Trouxeram-te tanta felicidade.

— Minha querida, foram às centenas e centenas…

— Algum amor? — tentou ela.

— Como assim?

— Por uma mulher?

— Não sei o que é sentir amor por uma mulher. Sempre senti falta do sexo oposto, não vou negá-lo… é a nossa condição de bichos, não é? Vivi anos com uma, meses com outra… até me aperceber de que, efectivamente, era mais feliz sozinho. Filhos, contudo…! Dava tudo para poder brincar na imaginação de um filho — e da sua forma leve, puxou a mão da Morte para uma pequenina marquise de arrumos.

A nobre vista das traseiras dava para um autêntico anfiteatro de apartamentos velhos. Donas de casa enfezadas recolhiam a roupa. Gatos malhados, empoleirados sobre um canteiro de cimento alto, controlavam uma frincha de rua. Um miúdo gordo olhava da janela do quarto para todo um universo que não compreendia.

António mantinha ali uma escrivaninha gasta. Sob e sobre o tampo, imperava a mais rigorosa ordem, contrária à desordem natural do apartamento. Papéis manuscritos contavam-se aos milhares, entre os pousados em pilhas, maços, e guardados em gavetas. Nunca ninguém os lera. A expressão do professor amansou-se, e a Morte sentiu-lhe a tranquilidade, enquanto passava os dedos trémulos pelos aros de café impressos sobre a caligrafia. Ao lado, esperava-o uma bolsa de tabaco sob o fiel candeeiro metálico. Eram companheiros de longa data, marujos de imensas travessias pelo imaginário… por entre o fumo místico das cachimbadas.

— Amor puro, cristalino, nutro-o pelas minhas personagens. Recordo-me delas com carinho, e calor no coração.

E foi no silêncio consequente que o velho professor leu, no olhar da sua irmã, a resposta para o seu último problema.

Eram quatro e meia da tarde e o António esperava que os alunos acabassem uma ficha de trabalhos particularmente exigente, quando a sala começou mudar de cor. Ninguém dera por ela — a luz transformava-se a olhos vistos. O pardacento céu transfigurava-se em subtis fenómenos de cor, brilhando em tons de púrpura. As nuvens trabalhavam tons de amarelo, e o nosso professor percebeu a deixa.

Uma última vez, passou os olhos pela sala, igual a tantas outras onde ensinou. As cabeças jovens debatiam-se com os conceitos invisíveis, articulados em enunciados claros, e António não pôde deixar de sentir um profundo amor por todos eles. Deixando para trás os seus robustos sobretudo, mala e guarda-chuva, caminhou até à porta e através do corredor vazio. Apoderava-se dele uma leveza indiscritível.

Fortes feixes de luz atravessavam o céu, quando António irrompeu, correndo, pelo imenso campo de jogos. Por entre a chuva que subia, viu um dinossauro azul sobre a cidade. Riu, reencontrando-se com um amigo bonacheirão! Olhou em volta, maravilhado — um foguetão laranja de marcianos pousado sobre o telhado da escola! Barcos quinhentistas voavam de seu encontro, sob um pintalgar celeste de cem para-quedistas lunares. O mar de gente que corria em seu encontro ria-se! Adolescentes vieram-no abraçar, excitadíssimos, com uma rapariga de olhos azuis a roubar-lhe os óculos e a rir-se! Peles-vermelhas e caras-pálidas monossilábicos sorriam por o reencontrar, erguendo a mão em paz. Um tigre falante! Três leões gaguejantes. Uma gárgula e um curiosíssimo escafandro vivo. Dois soturnos detetives do ano 3000 reviam notas junto aos astronautas da nave, que aceitavam cartões de visita Lobo & Bruxa Má Lda.! Mordomos algemados! Papagaios com piratas ao ombro! Todos estavam ali por si. Junto deles, vivia o velho professor um reencontro. Um universo cheiinho de aventuras com bons, velhos amigos. As lágrimas felizes que chorava a eito voavam para o ar, dispersando-se em mil fragmentos de luz.

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