PT, Quadro

O das irmãs gémeas

Há um espelho entre nós que me murmura: vou partir. Pressinto stress nos seu ranger, uma tensão em crescendo destinada a libertar-se. Em vez de fazer algo quanto a isso, antecipo a chuva de vidro após a quebra, e o nosso estado: sempre tão idênticas, gémeas irreflectidas, irremediavelmente cortadas uma da outra.

Naquele dia, fiquei séculos na cozinha a fumar cigarros teus. Havias de ver a forma como tremia nos sapatos e nadava dentro de mim, num estupor estuporado. Deixara café a fazer, ia para o emprego — já me conheces os turnos — blusa, batom, saia travada, cabelo apanhado, dedos acelerados. O mar fervilhava, aluminado, entre as gruas de arame, e a selva de vegetais macacava por entre o postal da mãe, que bebemos num batido. Roçavam as oito num dia feliz, e eu caída num banco, de olhar a monte, à pesca de pensar.

Momentos antes, invadi-te o quarto porque sabia as minhas chaves contigo, e o sorriso com que te recebi foi toda uma inocência que me abandonou. Dormias com aquela tua calma idílica que cobiço, um par de olhos tão meus sob um par de pálpebras tão distantes, e quem dormia com os tentáculos em teu redor era ele. Nunca umas chaves pesaram tanto.

Queimei o café e quinze minutos sentada. Ao passo que a cafeteira chorava, um cargueiro roubou-nos o sol, eu sequíssima de olhos. Fui trabalhar numa névoa que as horas não enxotaram. Ao almoço, o pobre do Stef desmascarou-me por entre duas frases, mas respeitou-me o silêncio tosco. Coisas, supliquei-lhe, depois conto-te. Passei-lhe as mãos pela face, para mim um pranto. Ele beijou-me a testa.

Dei-te oportunidades para abrires o jogo, mas bateste à porta do futuro. Eu que penasse. Eu que aguardasse. Depois falei-te do episódio das chaves, e aí, descoseste as tuas cozeduras. Que beberas naquela festa. Que ele te confundira comigo. Que te fizeste passar por mim. Que ele me amou através do teu corpo.

Contaste-me da sua surpresa em acordar contigo, sóbrio, refém de uma ferida que reabrira, vítima de um papel e da miopia das misturas. Cozinhaste-lhe um prato de fraquezas que ele fingiu comer, e daí a nada, voara do nosso ninho, mais violado que eu.

Deixa-me estar. Já te ouvi as lágrimas, eu afogada num mar de mantas, intrigada com a tua recente transparência. Volta a dormir como dormias, peço-te, e poupa-me às tuas explicações. Sim, conheço a solidão, e sim, a tentação é forte, a pressão é avassaladora, a passagem de ano um fósforo seguido da secura do natal.

Compreendo tudo isso, mas desengana-te se esperas que te perdoe. Perdoa-me tu por pedir-te que me deixes. Se há algo que não consigo ultrapassar, e que condenará a mãe a escrever-nos dois postais em vez de um, é saber que, por mais que me jures em contrário, pousaste as chaves exactamente onde querias pousá-las.

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