Luvas de tinta

A nudez das minhas mãos expõe a sua fragilidade. Observo a elegância dos ângulos do pulso, da amplitude dos nós, daquele mindinho que me incomoda, e aprecio a viagem das falanges, falangetas e falanginhas pelo mundo. É uma de aventura e de muitos uniformes e fazes-de-conta.

Se os olhos espelham a alma, as mãos dão-lhes corpo, digito eu ao teclado, numa chuva de caracteres liderada pelos meus polegares, indicadores e médios. Ocorre-me pensar nas minhas mãos e em todas as luvas com que as disfarço. São luvas de mergulho, luvas de combate e luvas de neve.

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Amanhãs de improviso

Foi antes de ontem, e de ontem, e de ontem. O cenário era algo simples, com um divã básico e uma secretária à antiga, junto da qual conferenciavam cadeiras almofadadas de um encarnado vivo. Ao centro, uma janela fosca, ladeada de cortinas pouco insuspeitas, e estantes falsas compunham as paredes ocas.

À boca de cena, uma pianista de colete e laço improvisava músicas misteriosas, e do lado oposto, num cadeirão parcamente iluminado por um miserável candeeiro, encontrava-se uma detective. De cabelo loiro apanhado e pernas cruzadas sob uma gabardine pastel, preenchia as palavras cruzadas num jornal, indiferente às centenas de pessoas que se iam aglutinando ao longo das fileiras da sala de espectáculos.

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Puzzle

Começamos com uma caixa de madeira. Não nos deixemos seduzir pelos seus veios estruturais, pelo seu toque quente e carícia envernizada. É uma caixa destinada a arder no fim, e como tal, algo passageiro, de uma fugacidade trágica.

Abrimo-la, de olhos virgens e vazios, e, num pasmo de estupidez, vemos um puzzle com um milhão de peças. Não compreendemos o que são porque não temos nada na cabeça. Fechamos a caixa e sentimos algo a chocalhar no bolso — já lá temos algumas! Ainda vagas e a ganhar cor como um polaróide improvisado, pousamo-las sobre um tampo de alumínio estéril, e banhamo-as com a luz de um candeeiro clínico.

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Caminho de Santiago

No dia 12 de Abril de 2015 os meus pais levaram-me à estação da Campanhã, no Porto. Apanhei lá um comboio para Coimbra, onde me meti noutro para França. De Hendaye, pus-me num autocarro para Cambo des Baines, e finalmente num para St. Jean-Pied-de-Port. Fui sozinho, mas quando o meu pai me foi buscar a uma aldeia da Galiza no dia 19 de Maio, trazia comigo um amigo da Póvoa e duas personagens do outro lado do mundo.

Estes são os e-mails que fui enviando aos meus pais e irmãos, depois também aos meus tios, e finalmente a uma grande porção da minha família. A itálico, incluo excertos do caderno que levei comigo com o qual ia confidenciando, deitado em dezenas de albergues, antes de desligar a lanterna e fechar os olhos.

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