Abismo

15/10/14

Há, a respeito deles, palavras de doutores escritas em processos urgentes. São termos importantes, em jeito de alerta, mas que apesar da sua importância e pressa, e da ajuda icomensurável que trazem, não passam por este portão de chapa nua. Muito menos nas manhãs frágeis de agora, onde a remendada casa se inunda de uma palidez nebulosa. As cortinas filtram luz e cor, deixando repousar um resquício de vida sobre as superfícies.

O silêncio em suspensão não era menos que uma respiração gasta – uma tosse farta aliada a uma dolorosa espera. A frágil criatura do sexo masculino molhava os lençóis com um suor frio a ele desapercebido. Caleidoscópicas febres, dores lancinantes… as costelas colavam-se à pele do desgraçado com uma hóstia de músculo a entremear.

A mulher magra, já com o dia avançado, olhava-o do outro lado do escanzelado leito. Oxalá aquelas tossidelas não lhes acordassem o filho, hoje dispensado da escola por causa da terapia da fala. Que dormisse mais umas horas, pairando um pouco mais no imaginário de quem afugenta gatos e se equilibra em bueiros do quintal.

Um urro de dor. Outro! Num sobressalto acorda o dono da casa, numa culpa viva e alucinada. Acalma a respiração, dando por si por entre os trapos. Já raramente tinha sonhos, ou até pesadelos – o que é uma pena, porque até o pior dos pesadelos constitui um sonho.

“Tens fome?”, sussurrou ela, indo ter com ele, tocando-lhe na cara, tentando dar-lhe pelo brilho fraco dos olhos. Ele responde-lhe do escuro com um Não rasgado. “Mas tens de comer…”

“Dá ao moço.” Dá ao moço? Já o tinha feito, com a parte que a ela cabia. A ausência de apetite do seu homem trazia-lhe uma friúra inquietante. Esquelético, não retinha nada do pouco que comia. Amontoavam-se os maus presságios que ela procurava menosprezar, soltando da mente mil frases a eito.

“Hoje vou às estufas. Em antes deixo o moço na terapia. Ao vir pego, passo pelo talho e trago-vos um pouquechinho de carne.”

“Quanto?”

“Vinte e cinco eiros.”

O homem não lhe captou o orgulho na voz. “A minha mãe não te dá mais?”

Ela soltou um suspiro. “Ainda hoje de manhãzinha me deu vinte cêntimos para pães.” Detestava pedir, e mais que isso, à sogra.

“E o Nico depois, como é?”

“A tua mãe vai buscá-lo ao doutor”. Pobre rapaz. Mais umas horas de sono trariam palavras menos torpes àquela cabecinha oca. O mesmo para mais umas horas de pai, aquele doente que para ali caía. Mal conviviam, não fossem os esforços dela, esforçando uma fronte lutadora, entrecortando as mágoas com os sorrisos, para desanuviarem… e aquele piquenique que fizeram no Anjo? Era quem visse a pele do companheiro. Que suplício, que fantasma de gente!

Suplicou-lhe, uma última vez, para que comesse qualquer coisa. Já por duas vezes perdera todas as composturas quando os apoios não apareciam. Sem eles… nem queria pensar. Tudo lhe caía em cima, e o pesado fardo ameaçava partir-lhe os ossos. Supõe-se que ela nunca arranje trabalho algum, ansiosa, inconstante, uma autêntica guerreira pela família. Trovejando tosse, o homem colidiu contra o silêncio.

“Vai-te embora! Deixa-me.”

Vai-te embora. Deixa-me. Tivesse tido ele a sua sorte, de recuperar da maldição das agulhas, substituindo os demónios com metadona no centro de apoio. Tantos anos tão forte pedreiro, a quem não faltavam sorrisos e biscates, vê-se agora um naco de carne podre, a um passo daquele abismo onde se sobe. Não se foi embora. Não o deixou.

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